Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Discos lançados na pandemia têm algo em comum?

Desde o início da COVID-19 no Brasil, vários artistas lançaram novos álbuns com desafios impostos pelo isolamento social e seus desdobramentos.
nu djonga
Foto: Jef Delgado

O mundo da música – muito além da indústria fonográfica – precisou de novos caminhos para suas produções. Isso porque seria impossível continuar a criar em estúdio, com uma grande equipe, e depois divulgar os discos em turnês pelo país. Como consequência dessas novas formas de produzir, causadas pelo isolamento social e pelo momento que vivemos, será que os discos lançados na pandemia possuem similaridades? 

O mês de março de 2020 foi assustador, quando corremos para iniciar uma quarentena em meio ao caos político e econômico que o país já vivia. O rapper Baco Exu do Blues, o primeiro produzir e lançar um álbum na pandemia, cancela o processo do que seria seu disco de 2020 (“Bacanal”) e nos apresenta o “Não tem bacanal na quarentena”, que estreou no dia 30 (de março) nas plataformas de streaming. 

Olhando para trás, para analisar esse disco, é possível notar várias similaridades entre o processo de produção, radicalmente experimentado por Baco, e os álbuns que viriam pela frente, como “Noturno” (Maria Bethânia), “Te amo lá fora” (Duda Beat), “Dolores Dala, o guardião do Alívio” (Rico Dalasam), “Nu” (Djonga) e vários outros.

Experimentação 

Em todos os discos, pelo menos nos citados aqui, é evidente a experimentação como um dos fatores principais. A estratégia, de repente, não é mais produzir um disco que busque a perfeição técnica ou a repetição de fórmulas e métodos que sempre deram certo.

Maria Bethânia, uma artista tradicional na história da indústria musical, lançou “Noturno”

em julho deste ano. Nele, a cantora traz novos compositores, como Tim Bernardes e Zeca Veloso. Interpretou um poeta inédito em sua obra, Jorge Sena, em “Uma pequena luz”. A própria capa do disco é uma grande novidade. Dessa vez, um projeto mais cru, limpo e que foi muito criticado pelos fãs por essa escolha. Porém, o álbum já é considerado como um dos melhores de sua carreira.

Até para “te amo lá fora”, de Duda Beat, onde o clima parece semelhante ao disco anterior, a experimentação fica estampada logo na primeira música. Com trechos de uma composição de Cila do Coco, uma artista da tradição popular de Pernambuco, que já fez música com Chico Science e Nação Zumbi, além de artistas internacionais.

Urgências e Angústias

A pandemia despertou esse sentimento em muitos artistas, pois perderam um dos pilares de suas carreiras: o contato com o público. Além do que aconteceu com todos nós, uma imersão para dentro de si.

Difícil escolher um disco para representar esse ponto, pois são muitos os candidatos. Mas o “Nu”, de Djonga, artista mais em ênfase do rap nacional dos últimos anos, tem questões especiais. Isso porque ele surge também de um cancelamento, vivido pelo artista, ao realizar um show “furando a quarentena”.

A sensação de claustrofobia é relatada pelo rapper, que na época de lançamento do disco, disse que não sabia se teria que passar a vida inteira assim, de máscara no rosto e álcool em gel na mão. Esse foi um dos motivos que o levou a realizar o show “clandestino”, no Rio de Janeiro. E, após repercussão, sofrer ataques violentos da opinião pública. A pandemia, principalmente na periferia, e o cancelamento foram as angústias-mote para o álbum.

Em paralelo, influenciado pela mesma urgência provocada pela pandemia, “Dolores Dala Guardião do Alívio”, de Rico Dalasam, fala sobre afetividade e acolhimento. Algo que foi muito debatido após ondas de cancelamentos online, iniciadas durante a primeira quarentena, no BBB20, com Karol Conká. Um álbum que clama pelo cuidado de uns com os outros.

Foram muitos os discos nacionais lançados durante a pandemia. Em geral, todos passam por essas três características bem marcantes: experimentações, urgências e angústias. Com mensagens muito fortes, não é?! Claro, cada disco dentro de suas próprias particularidades.

Por Adonai Elias | Culturador

Adonai Elias é redator, web radialista. Estagiário de SEO no Diários Associados (Jornal Estado de Minas). Graduando em Publicidade e Propaganda (UNA), escreve sobre música e arte para o Culturadoria e para a revista eletrônica Lugar Artevistas. Todo sábado, às 15h, apresenta o programa “Nasci Para Bailar”, na Matula Web Rádio. Seu Instagram é @adonaielias.m.

Duda Beat
Foto: Fernando Tomaz

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