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O potencial desperdiçado de Indiana Jones e a Relíquia do Destino

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O último filme da saga Indiana Jones até tem premissas interessantes, mas elas acabaram perdidas no caminho

Por Caio Brandão | Repórter

CUIDADO COM OS SPOILERS!

O último filme da saga Indiana Jones até tem premissas interessantes, mas elas acabaram perdidas no caminho.
Harrison Ford, ou Indiana Jones, no último filme da franquia - Foto: Lucasfilm Ltd.

Um dos grandes ícones do cinema, o personagem Indiana Jones está de volta para mais uma aventura. Dessa vez, a narrativa flagra o arqueólogo já envelhecido, beirando a aposentadoria. Mas eis que surge uma última oportunidade de enfrentar o desconhecido em um dos momentos mais melancólicos da trajetória do papel imortalizado por Harrison Ford.

Dessa forma, “Indiana Jones e o Chamado do Destino” segue a cartilha clássica da franquia, erguendo uma jornada tradicional e absolutamente familiar para os fãs da saga. Contudo, o filme poderia ter sido mais do que isso. Talvez um mergulho profundo na mente do protagonista, mas, enfim, essa possibilidade acabou não sendo aproveitada.

A velhice de Dr. Jones

Com certeza, o ponto mais interessante do filme é o momento da vida de Indiana que é mostrado na obra. Enlutado pela morte do filho, angustiado pelo divórcio com a esposa e frustrado com as turmas desinteressadas para as quais dá aula: o personagem é definitivamente cru, real. Assim, Dr. Jones aparenta estar despido do véu da fantasia hollywoodiana, revelando um homem quebrado – e completamente desiludido com a vida.

Talvez, a essa altura do campeonato, esse desenrolar de um personagem, o herói que se torna um velho amargurado, já seja, inclusive, um tipo de história “batida”. O próprio diretor do filme, James Mangold, já havia feito isso com maestria em “Logan”, que explora o fim da vida de Wolverine, dos X-Men. No entanto, esse estilo tem um tipo de magnetismo inerente, fazendo com que o espectador se sinta investido na narrativa.

Assim, o início do longa propõe algo intrigante, mas o problema é que, na maior parte do tempo, isso é deixado de lado. A prioridade parece ser construir um filme de sessão da tarde. Não que haja algo de errado nisso, mas o roteiro se divide entre querer apenas divertir e oferecer algo mais profundo, e não realiza nenhum dos dois propriamente por conta disso.

Personagens desperdiçados

Os temas apresentados por meio de Indiana são pesados e complexos. Luto, arrependimentos, frustrações… Todos esses sentimentos martelam a cabeça do protagonista por anos antes dos acontecimentos do filme. Todavia, tudo isso convive com o desejo de produzir uma aventura simples e eficaz para toda a família, marca registrada da franquia.

Pode ser que exigir uma imersão profunda na psique de um personagem dentro dessa saga seja pretensão demais, mas não dá para simplesmente ignorar o potencial disso. Temos um herói desmistificado, arrastado por traumas, de volta à realidade, e isso é pouco explorado.

Também temos a introdução de novos personagens, destacando Helena Shaw, interpretada por Phoebe Waller-Bridge, e o vilão Dr. Voller, interpretado por Mads Mikkelsen. Sendo assim, a falta de desenvolvimento da situação de Jones poderia dar lugar ao aprofundamento nas novas caras. Só que isso também não acontece.

Cenas de ação, que existem no espaço entre o bom e o medíocre, dominam a duração do filme. Não que esse tipo de sequência seja necessariamente algo ruim, afinal, quem não gosta de uma boa cena de ação? A franquia John Wick, por exemplo, construiu uma reputação notória principalmente por ter excelentes sequências explosivas.

Mas, como havia dito antes, as cenas são apenas divertidas. E, até aí, mais uma vez, tudo bem. O complicado é que, no meio disso tudo, os personagens acabam escanteados. Chega a ser pecado ter uma coadjuvante interpretada por uma atriz do nível de Phoebe Waller-Bridge ou um vilão feito por Mads Mikkelsen e não desenvolvê-los devidamente.

Helena, personagem de Phoebe, até recebe uma atenção a mais, mas não convence. Dito isso, não é uma falha da atriz, mas sim do roteiro. Aliás, nesse sentido, nem o próprio Indiana Jones chega a brilhar muito. A obra, portanto, parece optar, deliberadamente, pela mediocridade.

A escala macro

O foco do filme é a aventura em si: os perigos, contratempos, locais visitados, esses são, de fato, os protagonistas. Isso acaba sendo um consolo, já que as situações inusitadas que acontecem são, sim, divertidas. O flashback no começo do filme e a literal viagem no tempo, presente no último ato, são sequências que proporcionam aquela experiência clássica de uma Sessão da Tarde.

Porém, o longa tem quase duas horas e meia de duração! Sendo assim, impressiona que os personagens sejam tão rasos – afinal, tempo de tela não faltou. Novamente, caímos na questão da opção do filme, que parece ter sido o simples e usual.

Por este motivo, a frustração é grande, já que uma obra destinada a um consumo family friendly não precisa deixar de trabalhar as peças que movem a trama. Temos vários exemplos recentes de filmes leves, mas que marcam o espectador com os personagens, como “Gato de Botas 2: O Último Pedido” e “Homem-Aranha: Através do Aranhaverso”.

Enfim, Indiana Jones e a Relíquia do Destino apresenta uma premissa interessante, tem ótimos atores no elenco, mas falha ao tentar erguer uma experiência realmente marcante. Contudo, se o que o espectador procura é um filme despretensioso, para se divertir e esquecer algumas horas depois, talvez a obra cumpra esse objetivo.

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