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Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Conheça os vencedores e destaques da 23ª Mostra Tiradentes

Filme cearense de terror, Canto dos Ossos venceu prêmio da Mostra Aurora em uma edição marcada por discursos em defesa da arte

Por Jaiane Souza *

02/02/2020 às 10:46 | * Escreveu com a supervisão de Carolina Braga

Publicidade - Portal UAI
Encerramento - Todos os premiados da Mostra Foto: Netum Lima / Universo Produção

Que os ventos não andam bons para a cultura, todo sabem. Mas, além de reforçar os posicionamentos políticos, longas e curtas exibidos na 23ª da Mostra de Cinema de Tiradentes apontaram luzes no fim do túnel.  Bem, pelo menos na maior parte dos filmes vistos pela equipe do Culturadoria. Tratam de temas fundamentais para a discussão a respeito da arte e da sociedade e oferecem alternativas de reflexão.

O resultado, porém, foi curioso. O júri oficial deu a um filme de terror o prêmio da cobiçada Mostra Aurora: Canto dos Ossos, de Jorge Polo e Petrus de Bairros. Ao subir ao palco, ambos os diretores demonstraram surpresa mas agradeceram sem grandes discursos. O melhor longa da Mostra Olhos Livres foi para Yãmĩyhex: as mulheres-espírito, de Sueli Maxakali e Isael Maxakali (MG). Os vencedores do júri popular foram, respectivamente, para o curta A parteira, de Catarina Doolan e o longa Até o fim, de Glenda Nicácio e Ary Rosa.

Empolgação

A emoção tomou conta do pessoal do curta Perifericu, de Nay Mendl, Rosa Caldeira, Stheffany Fernanda e Vita Pereira. Os realizadores ganharam o prêmio de Melhor Curta da Mostra Foco – Prêmio Canal Brasil de Curtas. “Esse filme fala muito sobre vida e é muito bonito poder celebrar essa vida aqui hoje. Fala de existência além da simples sobrevivência. Ao mesmo tempo é muito triste porque a gente não quer mais ser exceção, queremos ser a regra”, desabafou a diretora Rosa Caldeira.

O destaque feminino eleito pelo Júri Oficial (Prêmio Helena Ignez) foi para Lílis Soares, fotógrafa, que está na equipe de três filmes da mostra. Lílis transpareceu perplexidade com o anúncio do prêmio e disse que deseja um cinema com mais mulheres e com mais mulheres negras. Ela quer ser mais respeitada e poder viver de cinema e pagar as contas.

Inovação e linguagem

De forma geral, o festival se manteve fiel à proposta que apresenta ao longo de sua história: passear pelas diferentes linguagens que o cinema pode proporcionar. São filmes inovadores, experimentais e instigantes que conseguiram atingir o público em diferentes camadas. Exemplo disso é o longa Até o fim, de Glenda Nicácio e Ary Rosa (venceu como melhor longa eleito pelo Júri Popular). O filme pega o público pelo texto, já que foi feito basicamente a partir de um único plano com quatro personagens conversando em uma mesa. Outro destaque foi Sete anos em maio, de Affonso Uchôa. O média trata da questão da violência policial contra uma minoria de forma reflexiva e mistura documentário e ficção.

Para além disso, a Mostra de Cinema de Tiradentes teve diversos destaques. Confira.

Os discursos da abertura

A abertura foi um show à parte na Mostra deste ano. A homenagem em família para Antônio e Camila Pitanga abriu uma discussão que permeou os dez dias de evento: a importância da arte na transformação na vida das pessoas. Camila Pitanga, falou de escolhas, se referindo ao caminho trilhado como atriz, de empatia e de sonhos. Antônio Pitanga fez um discurso complementar e contundente. Agradeceu a homenagem e falou sobre a importância dos patrocinadores no fomento à cultura.

Além disso, abordou ancestralidade, contando do seu processo de formação e da importância da arte em sua vida, a cultura e o cinema como ferramentas socializadoras. Os pontos mais marcantes do discurso você pode ler neste texto.

 

Foto: Foto Netun Lima / Universo Produção

As mulheres na direção

A presença das mulheres na Mostra de Cinema de Tiradentes aconteceu de forma política tanto no discurso quanto nos filmes realizados por elas. Só para exemplificar, apenas entre os 81 curtas-metragens, 23 mulheres cis e uma travesti foram diretoras. Outro exemplo do fortalecimento dessa presença é o livro Mulheres atrás das câmeras: as cineastas brasileiras de 1930 a 2018, organizado por Camila Vieira, jornalista e doutora em comunicação, e Luiza Lusvarghi, pesquisadora de cinema e audiovisual e integrante do Coletivo Elviras (coletivo de mulheres críticas de cinema). A obra traça um panorama da produção feminina no cinema e ainda conta com um dicionário listando diretoras que dirigiram, pelo menos, um longa-metragem ao longo da carreira.

Protagonismo negro

A Mostra teve a participação do segundo longa metragem dirigido por uma mulher negra na história do cinema Brasileiro. Viviane Ferreira dirigiu Um dia com Jerusa, que foi protagonizado pela gigante Lea Garcia. E esse é apenas um dos exemplos. O protagonismo negro esteve presente em narrativas de personagens lésbicas, gays, trans, na narrativa do trabalhador brasileiro e dos movimentos sociais (citamos aqui Cadê Edson, de Dácia Ibiapina).

Cinema de Alagoas

Os realizadores alagoanos estiveram em peso na edição deste ano da Mostra, 35 pessoas entre equipe de produção e elenco compareceram. Nunca antes na história quatro filmes do estado tinham sido selecionados pela curadoria. São eles o longa- metragem Cavalo, de Rafhael Barbosa, e três curtas, A barca (Felipe Guimarães), Trincheira (Renata Baracho) e Ilhas de calor (Ulisses Arthur). Nas mesas de debate e bate-papo, os diretores destacaram a importância de estar em Tiradentes e a portência do cinema alagoano.

 

Cena de Pacarrete. Foto: Universo Produção/ Allan Deberton / Divulgação

Defesa da arte

A defesa da arte apareceu em diferentes discursos ao longo da última semana. Tanto na abertura, na voz de Camila e Antônio Pitanga, quanto nas telas. “A cultura e a arte tem essa vocação de ampliar os olhares, de estranhar, de cultivar novas perspectivas”, disse Camila. Falando sobre as telas, a fortíssima Pacarrete defende com toda a sua força a arte. O Culturadoria conversou com a atriz Marcélia Cartaxo justamente sobre esse assunto. Confira no vídeo.

 

Encerramento 23ª Mostra de Cinema de Tiradentes – Prêmio Helena Ignez de Destaque feminino eleito pelo Júri Oficial Foto: Leo Lara / Universo Produção

Confira os vencedores da 23ª Mostra de Cinema de Tiradentes

Melhor curta da Mostra Foco eleito pelo Júri Oficial – Egum, Yuri Costa (RJ)

Melhor curta eleito pelo Júri Popular – A Parteira, Catarina Doolan (RN)

Prêmio Canal Brasil – Perifericu, Nay Mendl, Rosa Caldeira, Stheffany Fernanda e Vita Pereira (SP)

Melhor longa da Mostra Olhos Livres eleito pelo Júri Jovem – Prêmio Carlos

Reichenbach – Yãmĩyhex: as mulheres-espírito, de Sueli Maxakali e Isael Maxakali (MG)

Melhor longa da Mostra Aurora eleito pelo Júri Oficial – Canto dos Ossos, Jorge Polo e Petrus de Bairros (CE)

Prêmio Helena Ignez – Destaque Feminino – Lílis Soares, diretora de fotografia (RJ)

Melhor longa eleito pelo Júri Popular – Até o fim, de Glenda Nicácio e Ary Rosa (BA)

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