O que um astro de Hollywood tem a dizer para uma plateia de creators? Terry Crews poderia falar sobre como construiu uma carreira internacional, transformou personagens em fenômenos populares ou se tornou um rosto conhecido por milhões de pessoas. Diante do público do Hotmart FIRE, nesta sexta-feira, 11, escolheu outro caminho: disse que fama, dinheiro, prêmios e reconhecimento não definem sucesso.
“Sucesso é estar alinhado aos seus valores”, afirmou.
A frase significa muito quando vem de alguém que tem uma estrela na Calçada da Fama de Hollywood, protagonizou grandes campanhas publicitárias e participou de produções como As Branquelas, Todo Mundo Odeia o Chris e Brooklyn Nine-Nine. E mais: ganha um sentido particular no FIRE, evento que reúne creators, empreendedores digitais e profissionais que trabalham diariamente para transformar conhecimento, informação, imagem e audiência em negócios.
Crews foi o grande headliner do encerramento da sexta-feira, 11 de setembro. Mas, em vez de oferecer uma fórmula para chegar ao topo, usou a própria trajetória para falar sobre o que encontrou depois de chegar lá.
“Durante muitos anos, eu tinha dinheiro, fama e reconhecimento, mas não estava alinhado às coisas que valorizava”, contou.
Antes de Hollywood, o desenho
Para explicar como chegou a essa conclusão, Crews voltou à infância em Flint, Michigan. Contou que cresceu em uma casa marcada pela religiosidade rígida da mãe e pela violência do pai, que era alcoólatra. Quando criança, não podia ir ao cinema, ouvir música secular, dançar ou praticar esportes.
Mas podia desenhar.
Era no quarto que encontrava espaço para criar. Na escola, ouvia os colegas comentarem filmes como Star Wars e Tubarão. Como não podia assisti-los, voltava para casa e desenhava aquilo que imaginava que encontraria nas telas.
Antes do esporte, da publicidade, da televisão ou do cinema, portanto, a criatividade já aparecia como uma maneira de construir mundos aos quais ele não tinha acesso.
Ao revisitar as experiências difíceis da infância e da vida adulta, Crews apresentou um dos conceitos centrais da conversa: o “crescimento pós-traumático”. Para ele, aquilo que uma pessoa viveu não precisa determinar negativamente aquilo que ela será.
“Decidi que não deixaria meu trauma me definir de maneira negativa”, disse.
Crews também retomou o episódio de assédio sexual que sofreu em Hollywood. Durante uma festa, um agente tocou suas partes íntimas. O ator contou que sentiu vontade de responder com violência, mas se conteve ao perceber que, se agredisse o homem, poderia acabar desacreditado.
Quando o sucesso vira esconderijo
A reflexão sobre trauma levou a conversa para uma crítica à própria ideia de sucesso. “O sucesso é o lugar mais confortável para se esconder”, afirmou.
Dinheiro, fama e reconhecimento podem funcionar como uma espécie de proteção: se tudo parece dar certo do lado de fora, poucas pessoas perguntam o que está errado por dentro.
Na trajetória de Crews, foi a esposa, Rebecca King-Crews, quem rompeu essa proteção. Ele contou que costumava perguntar a ela: “Por que você não acredita em mim?”. Com o tempo, percebeu que precisava formular outra pergunta: “Por que estou mentindo?”.
No 20º ano do casamento, Rebecca decidiu ir embora. Crews lembrou que tentou se agarrar às próprias conquistas. Era rico, famoso e bem-sucedido. Quando ela saiu, porém, tudo aquilo perdeu o sentido.
A reconstrução também passou pela decisão de falar publicamente sobre sua dependência em pornografia, justamente quando vivia um momento de enorme projeção. Crews ressaltou que não acredita que todas as pessoas devam expor publicamente questões íntimas. No caso dele, porém, entendeu que ocupar um espaço de grande visibilidade também lhe dava a possibilidade de usar essa atenção para discutir assuntos pouco abordados.
Depois da terapia, passou ainda a olhar para os próprios personagens de outra forma. Percebeu que, mesmo sem compreender isso enquanto atuava, revelava partes de si por meio deles. Até que o público, segundo ele, começou a conhecer não apenas seus personagens, mas Terry Crews.
O Brasil e Cidade de Deus
O Brasil atravessou diferentes momentos da conversa. Crews contou que Cidade de Deus está entre seus cinco filmes favoritos e que costuma revê-lo a cada poucos meses. O longa despertou nele lembranças da infância em Flint e ganhou ainda mais força quando conheceu a dimensão real das histórias retratadas.
Para o ator, o filme também marcou o início de uma relação afetiva com o país. “Foi o filme que me fez me apaixonar pelo Brasil”, afirmou.
Essa conexão cresceu com a resposta do público brasileiro à sua carreira e, sobretudo, à exposição de suas vulnerabilidades. Crews disse que, quando começou a mostrar mais de si mesmo, sentiu que “o Brasil me amou”. Comparou a recepção a um abraço de irmão, de família, e afirmou que se sente em casa no país.
Visibilidade, afinal, serve para quê?
A questão que atravessou a conversa de Terry Crews talvez seja especialmente pertinente para quem estava sentado diante dele.
Creators constroem negócios a partir de visibilidade. Disputam atenção, cultivam comunidades, medem alcance, desenvolvem marcas pessoais e transformam conhecimento e influência em produtos. Crews passou décadas lidando com outra escala desse mesmo ativo: a atenção pública.
E sua mensagem no FIRE foi menos sobre como conquistá-la e mais sobre o que fazer com ela.
Foi assim que a cultura encerrou a sexta-feira de um evento dedicado à economia dos criadores de conteúdo. Um ator que atravessou esporte, publicidade, televisão e cinema chegou ao palco com todas as credenciais que convencionalmente definem alguém como bem-sucedido. E usou justamente essa posição para questionar essa definição.
Para uma plateia que trabalha transformando conteúdo em alcance, alcance em influência e influência em negócio, Terry Crews deixou uma provocação que vai além das métricas: o que sustenta uma trajetória quando audiência, dinheiro e reconhecimento deixam de ser suficientes?
A resposta dele passa por valores, relações, responsabilidade e disposição para se mostrar de verdade. No fim, a principal mensagem do astro de Hollywood para uma plateia de creators não foi sobre como ser visto por mais gente. Foi sobre quem se escolhe ser quando todos estão olhando.
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