Autoria, atenção e conexão: cinco ideias do Hotmart Fire para pensar marcas e creators
Palestras do segundo dia do evento, em Belo Horizonte, discutiram marca pessoal, estratégias social-first, relacionamento com clientes e a retomada das experiências presenciais
Como conquistar atenção quando nunca se produziu tanto conteúdo? Como construir uma marca reconhecível em meio a uma profusão de vozes, imagens e ferramentas? E, depois de alcançar milhares de pessoas pelas telas, como transformar audiência em vínculo? Essas questões atravessaram algumas das discussões do Hotmart Fire 2026 nesta sexta-feira (11), em Belo Horizonte.
As respostas apresentadas em diferentes palcos não apontam necessariamente para mais tecnologia. Em um evento dedicado aos negócios digitais, ganharam força ideias como autoria, cuidado, presença, experiência e comunidade. A inteligência artificial amplia a capacidade de produção. As redes aceleram a circulação. Mas a abundância também torna mais difícil conquistar a atenção e construir diferenciação.
Provocações
Foi nesse contexto que Bárbara Torres falou sobre roteiros sem esquecer de olhar para a marca pessoal de maneira mais leve e vinculada à autoria. João Branco, ex-McDonald’s, deslocou a discussão de marketing da quantidade de transações para a capacidade de compreender e cuidar de quem realmente precisa de um produto ou serviço. Felipe Godoy, do Canva, mostrou como uma estratégia social-first exige pensar a comunicação a partir da cultura e do comportamento das redes, e não apenas utilizá-las como canais de distribuição.
Beatriz Guarezi, da Bits to Brands, seguiu em outra direção ao defender que, depois de anos de intensificação da vida digital, o offline ganha novo valor justamente por oferecer aquilo que a tela não entrega: corpo, sentidos, encontro e memória. A mesma aproximação entre os mundos digital e físico apareceu na discussão sobre eventos como instrumentos para transformar audiência em comunidade.
Ou seja, mais do que negar o digital, as discussões observadas ao longo do segundo dia do evento dia sugeriram uma mudança de ênfase. Quando produzir e distribuir conteúdo se torna cada vez mais fácil, identidade, relevância e capacidade de estabelecer relações podem se tornar ativos ainda mais valiosos.
Bárbara Torres: autoria para construir uma marca reconhecível
Na palestra “100 mil seguidores em poucos meses com roteiros feitos em 10 minutos”, Bárbara Torres partiu de um resultado que costuma mobilizar quem trabalha com conteúdo digital: o crescimento rápido de audiência. Mas a discussão não ficou restrita a técnicas para ganhar seguidores ou produzir roteiros em menos tempo. Um dos pontos mais interessantes foi a possibilidade de olhar para a construção da marca pessoal de maneira menos pesada.
A ideia de autoria apareceu como uma chave para isso. Em uma das telas, Bárbara reuniu Machado de Assis, Ariano Suassuna e Eça de Queirós sob uma afirmação simples: “Ninguém confunde um autor com outro.” A comparação ajuda a deslocar marca pessoal de uma identidade fabricada para algo que se constrói pela recorrência de uma maneira própria de observar, selecionar e contar.
Nesse sentido, marca pessoal deixa de ser apenas uma estratégia para ganhar visibilidade. Pode ser entendida como autoria: aquilo que faz alguém olhar para um conteúdo e reconhecer quem está falando antes mesmo de encontrar a assinatura.
João Branco: “O cliente percebe”
“O seu negócio não é para todo mundo.” A afirmação de João Branco sintetizou um dos principais argumentos da palestra “O cliente percebe”. Em vez de perseguir indiscriminadamente o maior número possível de consumidores, ele propôs uma pergunta: o que os seus clientes mais satisfeitos têm em comum?
A resposta pode indicar não apenas para quem vender, mas onde está o valor mais específico de um negócio. Branco fez questão de afastar a reflexão de uma leitura exclusivamente técnica de pesquisa de mercado. Sua proposta foi “ativar o modo sensível” para compreender quem são as pessoas que realmente precisam daquilo que cada profissional ou empresa consegue oferecer.
“Seu pudim não é igual aos outros”, afirmou. A frase bem-humorada resume uma discussão sobre diferenciação. Mesmo produtos aparentemente semelhantes podem carregar atributos, experiências e significados distintos para determinados públicos.
O valor da vocação
A palestra avançou então para um território menos habitual nas conversas sobre performance digital: vocação. Branco lembrou que muita gente começa um negócio buscando renda extra, mudança de vida ou uma rotina profissional diferente. Nada disso é irrelevante. Mas, segundo ele, o trabalho também oferece uma oportunidade de interferir positivamente na vida de outras pessoas.
A experiência acumulada no McDonald’s entrou nessa reflexão. Para alguns consumidores, argumentou, o que estava em jogo não era simplesmente “pão, carne e queijo”. Da mesma maneira, um infoproduto, serviço ou qualquer outra entrega pode adquirir um significado maior para quem o recebe.
Daí veio uma das recomendações mais enfáticas da apresentação: “Importe-se.” Do outro lado do site, do aplicativo, do e-mail, da mensagem, do contrato e da venda existe uma pessoa.
Branco encerrou aproximando marketing e cuidado. Há clientes que lembrarão durante anos de uma experiência ou da maneira como foram atendidos. Nesse raciocínio, atenção aos detalhes deixa de ser mero recurso de conversão. O cliente percebe quando existe cuidado e quando existe apenas conveniência.
Felipe Godoy: social-first e a disputa pela atenção
Felipe Godoy, do Canva, começou “Social-First: a estratégia por trás da campanha do Canva e Gracyovos” com uma provocação diretamente ligada ao atual ambiente de comunicação: “Como ter uma marca relevante na era da desatenção?”
A formulação seguinte ofereceu uma pista para a resposta. Godoy falou em uma “era da atenção conquistada”. Em um ambiente de abundância de conteúdo, exposição não significa necessariamente atenção. Estar no feed de alguém não garante que uma mensagem será percebida, muito menos lembrada.
É nesse contexto que entra o conceito de social-first. Em vez de desenvolver uma campanha e, somente depois, adaptar suas peças para Instagram, TikTok e outras plataformas, a proposta é colocar as redes sociais no centro das decisões desde o princípio.
A mudança parece pequena, mas altera a lógica da comunicação. As redes deixam de ser o destino final de uma campanha e passam a participar de sua concepção. Cultura, linguagem, formatos e comportamento das comunidades digitais entram no processo criativo antes que a ideia esteja pronta.
Estudo de caso
Godoy utilizou como estudo de caso a campanha do Canva com Gracyovos, mostrando os bastidores de uma estratégia concebida para nascer, ganhar força e circular socialmente. O exemplo ajuda a compreender por que uma comunicação social-first não equivale simplesmente a “fazer conteúdo para redes sociais”.
Trata-se de observar como as pessoas já se comunicam, quais códigos reconhecem, o que compartilham e de que maneira participam da circulação de uma ideia. Nesse modelo, audiência não ocupa apenas a posição de receptora.
A discussão dialoga diretamente com a questão inicial da palestra. Se a atenção não está mais garantida, marcas precisam conquistá-la. E isso exige compreender o ambiente em que disputam essa atenção.
Social-first, portanto, não significa publicar primeiro nas redes. Significa começar a pensar a comunicação a partir delas.
Beatriz Guarezi: o offline como novo luxo
Depois de horas de discussões sobre redes, conteúdo e negócios digitais, Beatriz Guarezi colocou o corpo no centro da conversa. A palestra “O offline é o novo luxo: o valor do mundo real para marcas e creators” partiu de um aparente paradoxo: quanto mais digital se torna a vida cotidiana, mais valor podem adquirir experiências que nos retiram das telas.
“A frieza das telas tem impactado a nossa maneira de sentir o mundo e a nós mesmos”, dizia uma das telas apresentadas pela palestrante. A frase ajuda a explicar por que o offline volta a despertar interesse não como negação da tecnologia, mas como experiência complementar a uma rotina cada vez mais mediada por dispositivos.
Guarezi destacou uma dimensão fundamental dessa diferença: o offline é sensorial. Ele envolve corpo, espaço, textura, cheiro, presença, deslocamento e convivência. Elementos difíceis de reproduzir integralmente na experiência digital.
Outra reflexão apresentada durante a palestra tratou justamente do afastamento do corpo. Na era digital, grande parte das atividades pode ser realizada com pouquíssimo deslocamento físico. Trabalhamos, conversamos, compramos, assistimos, estudamos e nos relacionamos por interfaces. O corpo corre o risco de se transformar apenas no “meio de transporte” da cabeça entre uma atividade e outra.
É nesse cenário que surge a provocação “Offline is the new luxury”. Para marcas e criadores, a mudança abre um campo importante. Eventos, ativações, encontros, objetos físicos e experiências presenciais podem ganhar relevância porque oferecem escassez em um mundo de disponibilidade digital quase infinita.
A palestra de Guarezi sugere, assim, uma inversão interessante. Durante anos, marcas correram para digitalizar experiências. Agora, a possibilidade de estar fisicamente presente, sentir e compartilhar um mesmo espaço pode se transformar justamente naquilo que diferencia uma experiência.
Do Digital ao Presencial: audiência pode virar comunidade
A aproximação entre os universos online e offline também orientou “Do Digital ao Presencial: Como Eventos Criam Autoridade, Comunidade e Mais Faturamento”, painel com André Nunes, Rodrigo Nunes e Rafa Lotto.
O ponto de partida é uma realidade conhecida de quem construiu negócios e marcas na internet: reunir seguidores não significa necessariamente formar uma comunidade. Audiência mede alcance. Comunidade pressupõe vínculo, reconhecimento entre seus integrantes e algum grau de pertencimento.
O painel discutiu como levar uma marca construída no digital para experiências capazes de aprofundar relacionamentos. O encontro presencial permite que pessoas que acompanham o mesmo conteúdo se reconheçam como parte de um grupo. Também modifica a relação com quem está por trás daquela marca: alguém conhecido apenas por uma tela passa a dividir espaço, conversa e experiência com sua audiência.
Nesse sentido, o painel se aproxima da reflexão apresentada por Beatriz Guarezi: não existe necessariamente oposição entre digital e presencial. Uma dimensão pode alimentar a outra.
A audiência pode nascer no Instagram, YouTube, TikTok, newsletter ou outra plataforma. O encontro físico acrescenta elementos que esses ambientes não conseguem reproduzir integralmente.
A passagem do digital ao presencial, portanto, não significa abandonar escala. Significa acrescentar profundidade à relação construída com essa audiência.