Uma mulher pula do cais. Dentro d’água, mergulha em direção ao fundo, toca com os pés o lodo do chão. Presas à cintura, pedras têm como objetivo mantê-la submersa. “Quero que isso aconteça sem dor”, reflete enquanto ainda segue consciente. Seria uma espécie de Virgínia Woolf moderna, caso a mulher não tivesse decidido desprender as pedras e retornar a superfície. “Será que vou voltar a respirar de novo quando sair da água?”. Se as pedras a ancoravam ao fundo da água, entretanto, ela nos diz que em terra firme não é muito diferente, numa realidade sufocante ao lado do marido e dos filhos. “Eu sou esta mulher ancorada sempre no mesmo lugar”. Assim começa o primeiro conto de “O bom mal”, um volume coeso e com algumas histórias brilhantes da argentina Samanta Schweblin. Publicado pela Fósforo Editora, o livro tem tradução de Livia Deorsola.
O insólito irrompe da normalidade
Em Samanta Schweblin nada é o que parece. Assim, escritora argentina tem o dom de nos fisgar com histórias aparentemente simples, situadas num tempo e num espaço cotidiano. Dessa maneira, é no dia-a-dia de pessoas aparentemente comuns que o insólito se mostra, rompendo uma fina camada de normalidade que parece nos ancorar na rotina – como a mulher do conto inaugural, nos ancoramos à suposta normalidade da vida. E é justamente aí que a literatura de Schweblin busca a sua matéria. Podemos observar isso também nos livros de contos anteriores da autora, “Pássaros na boca” e “Sete casas vazias”, publicados em volume único por aqui.
Em uma narrativa, uma ligação inesperada traz a tona sentimentos e memórias represadas vinte anos depois de um acontecimento trágico, que marcou a vida de duas mulheres. “Na verdade, nem sequer Elena sabe o que aconteceu comigo naquela noite para além do acidente”. Já em outra história, uma mulher rememora a infância, ao lado da irmã, e o encontro com uma poeta reclusa. “Quero percorrer outra vez esses espaços e ver o quanto posso continuar confiando na minha memória, como estarão as coisas, se haverá algo de nós ainda all, sendo conservado na casa. Algo da minha irmã.”
“O bom mal” (Fósforo Editora)
Um livro de silêncios
Povoado pelo não-dito, “O bom mal” é um livro de silêncios. Silêncios que, por vezes, parecem gritar. Silêncios incômodos, que nos deixam em alerta, em suspensão. É o caso, por exemplo, da melhor história do volume. Nele, após um acidente envolvendo uma bateria de lítio, um garoto perde a capacidade de falar e de respirar sozinho.
A partir daí, um abismo pouco a pouco parece se abrir na relação entre ele e os pais, enquanto o pai do garoto passa a receber estranhas ligações noturnas. Dessa forma, tais telefonemas se repetem por noites, meses e anos seguidos – até que, de tão rotineiras, estranhamente tornam-se parte do quadro cotidiano vivido pelo homem. Do outro lado da linha, nenhum som, voz ou ruído: apenas o silêncio. “Aprende a levar o fone à orelha devagar, sem dizer alô, impondo, ele também, seu silêncio, agarrado com força ao cabo na espera, sentindo-se ele próprio parte desse telefone mudo. Acredita que está aprendendo a escutar, pela primeira vez na vida.”
Samanta Schweblin e o suspense contemporâneo
“O bom mal” é, em resumo, mais uma prova de que a argentina Samanta Schweblin é um dos nomes essenciais da literatura de suspense e horror contemporânea. Em suma, a partir de poucos elementos, estas narrativas breves mergulham em sentimentos profundamente humanos, como o medo, a culpa e a raiva. Nesse sentido, o insólito invade o cotidiano de pessoas (aparentemente) normais, como nós, surpreendidas pelo acaso, pelo inesperado, que espreita, de perto ou de longe, o momento certo de invadir e pôr em xeque suas certezas.
Gabriel Pinheiro é jornalista e crítico de literatura. Escreve aqui no Culturadoria e também em seu Instagram: @tgpgabriel (https://www.instagram.com/tgpgabriel)