Literatura

Samanta Schweblin mostra o insólito no cotidiano em “O bom mal”

Lançamento da Fósforo Editora prova que a escritora argentina é um dos nomes essenciais da literatura de suspense e horror contemporânea

Samanta Schweblin (Foto Iván Giménez)

Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura

Uma mulher pula do cais. Dentro d’água, mergulha em direção ao fundo, toca com os pés o lodo do chão. Presas à cintura, pedras têm como objetivo mantê-la submersa. “Quero que isso aconteça sem dor”, reflete enquanto ainda segue consciente. Seria uma espécie de Virgínia Woolf moderna, caso a mulher não tivesse decidido desprender as pedras e retornar a superfície. “Será que vou voltar a respirar de novo quando sair da água?”. Se as pedras a ancoravam ao fundo da água, entretanto, ela nos diz que em terra firme não é muito diferente, numa realidade sufocante ao lado do marido e dos filhos. “Eu sou esta mulher ancorada sempre no mesmo lugar”. Assim começa o primeiro conto de “O bom mal”, um volume coeso e com algumas histórias brilhantes da argentina Samanta Schweblin. Publicado pela Fósforo Editora, o livro tem tradução de Livia Deorsola.

O insólito irrompe da normalidade

Em Samanta Schweblin nada é o que parece. Assim, escritora argentina tem o dom de nos fisgar com histórias aparentemente simples, situadas num tempo e num espaço cotidiano. Dessa maneira, é no dia-a-dia de pessoas aparentemente comuns que o insólito se mostra, rompendo uma fina camada de normalidade que parece nos ancorar na rotina – como a mulher do conto inaugural, nos ancoramos à suposta normalidade da vida. E é justamente aí que a literatura de Schweblin busca a sua matéria. Podemos observar isso também nos livros de contos anteriores da autora, “Pássaros na boca” e “Sete casas vazias”, publicados em volume único por aqui.

Em uma narrativa, uma ligação inesperada traz a tona sentimentos e memórias represadas vinte anos depois de um acontecimento trágico, que marcou a vida de duas mulheres. “Na verdade, nem sequer Elena sabe o que aconteceu comigo naquela noite para além do acidente”. Já em outra história, uma mulher rememora a infância, ao lado da irmã, e o encontro com uma poeta reclusa. “Quero percorrer outra vez esses espaços e ver o quanto posso continuar confiando na minha memória, como estarão as coisas, se haverá algo de nós ainda all, sendo conservado na casa. Algo da minha irmã.

Capa do livro O bom mal, de Samanta Schweblin
“O bom mal” (Fósforo Editora)

Um livro de silêncios

Povoado pelo não-dito, “O bom mal” é um livro de silêncios. Silêncios que, por vezes, parecem gritar. Silêncios incômodos, que nos deixam em alerta, em suspensão. É o caso, por exemplo, da melhor história do volume. Nele, após um acidente envolvendo uma bateria de lítio, um garoto perde a capacidade de falar e de respirar sozinho.

A partir daí, um abismo pouco a pouco parece se abrir na relação entre ele e os pais, enquanto o pai do garoto passa a receber estranhas ligações noturnas. Dessa forma, tais telefonemas se repetem por noites, meses e anos seguidos  – até que, de tão rotineiras, estranhamente tornam-se parte do quadro cotidiano vivido pelo homem. Do outro lado da linha, nenhum som, voz ou ruído: apenas o silêncio. “Aprende a levar o fone à orelha devagar, sem dizer alô, impondo, ele também, seu silêncio, agarrado com força ao cabo na espera, sentindo-se ele próprio parte desse telefone mudo. Acredita que está aprendendo a escutar, pela primeira vez na vida.”

Samanta Schweblin e o suspense contemporâneo

“O bom mal” é, em resumo, mais uma prova de que a argentina Samanta Schweblin é um dos nomes essenciais da literatura de suspense e horror contemporânea. Em suma, a partir de poucos elementos, estas narrativas breves mergulham em sentimentos profundamente humanos, como o medo, a culpa e a raiva. Nesse sentido, o insólito invade o cotidiano de pessoas (aparentemente) normais, como nós, surpreendidas pelo acaso, pelo inesperado, que espreita, de perto ou de longe, o momento certo de invadir e pôr em xeque suas certezas.

Encontre “De quatro” aqui.

Gabriel Pinheiro é jornalista e crítico de literatura. Escreve aqui no Culturadoria e também em seu Instagram: @tgpgabriel (https://www.instagram.com/tgpgabriel)

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Publicado por tgpgabriel

Publicado em 30/06/25

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