Música

Por que Marisa Monte segue no topo da música popular brasileira

Turnê Phonica começa por BH e reafirma o rigor da artista

Marisa Monte | Foto Carol Braga

A turnê Phonica, que estreou em Belo Horizonte neste 18 de outubro de 2025, oferece mais do que um show de abertura: é um retrato atual de por que Marisa Monte permanece entre os nomes mais importantes da música popular brasileira. 

Em duas horas de apresentação, acompanhada por uma orquestra com 55 músicos regidos por André Bachur e pela banda formada por Dadi Carvalho (violão e guitarra), Pupillo (bateria), Alberto Continentino (baixo) e Pedrinho da Serrinha (cavaquinho e percussão), Marisa confirma algo raro no cenário musical. 

Há clara coerência entre a qualidade do repertório, a forma como o apresenta e a relação genuína que estabelece com as próprias canções.

Rigor artístico sem modismos

Marisa Monte construiu a carreira longe de tendências passageiras. Não aderiu a modismos, não se apoiou apenas em nostalgia e nunca cedeu ao apelo de transformar a própria obra em produto de temporada. Cada turnê tem conceito definido, repertório pensado, diálogo com artes visuais e escolhas técnicas apuradas. Phonica segue a mesma lógica: a orquestra não está ali para embelezar o que já existe, mas para reorganizar as músicas em outra potência sonora.

Quem abre o espetáculo é a própria orquestra. Só depois, com a música já em andamento, Marisa entra no palco. Vestido rosa, flores nos cabelos, brincos de coração. A entrada tardia não é acaso: desloca o foco da artista para a música. Afinal, é isso que define o trabalho dela: a canção em primeiro plano.

A regência na turnê é de André Bachur, maestro paulistano em ascensão. Com formação iniciada no violino e ampliada para piano, bandolim, violão tenor e guitarra baiana, Bachur se destaca pela fluidez entre gêneros. Do barroco à música contemporânea, conduz com precisão e respirou junto com Marisa nas dinâmicas do show.

Repertório que resiste ao tempo

O setlist de Phonica tem 27 músicas e percorre diferentes fases da carreira. Chama atenção que, mesmo cantando faixas que atravessam mais de 30 anos, Marisa não parece cansada delas. Há prazer visível em cantar. Ela respira antes de cada letra como quem ainda habita a canção, não como quem a reproduz.

Durante o show em Belo Horizonte, mesmo com arranjos orquestrais sofisticados, a emoção não foi construída por artifícios. Ela veio do encontro entre memória, afeto e precisão musical. No fim, Marisa não cantou Bem Que Se Quis, mas o público cantou sozinho. Ou seja, sem pedido, sem ensaio. Esse tipo de entrega coletiva não se fabrica.

Elegância como linguagem

Elegância, no caso de Marisa Monte, não é adorno estético. É método. O espetáculo tem projeções visuais diferentes para cada música, iluminação calculada, som claro e discreta movimentação em cena. Nada sobra.

A voz segue impecável, mas é a atitude que chama atenção: Marisa sorri, gesticula e, assim, se aproxima do público. Mantém presença sóbria e afetiva ao mesmo tempo. Há leveza no modo como olha para os músicos e para quem assiste. Há alegria, mas sem espetáculo da euforia.

Por que Marisa Monte merece a coroa

Marisa Monte merece o lugar de destaque que ocupa não apenas pela beleza do repertório, mas pela forma como o constrói e sustenta. Porque trata a própria obra com seriedade, sem ceder à pressa da indústria. Porque os discos e os shows guardam um pacto entre qualidade, emoção e permanência. 

Em Phonica, Marisa Monte mostra, mais uma vez, que não vive de passado. Atualiza o próprio legado com rigor, sem ruídos desnecessários. É assim que se mantém no topo da música popular brasileira: não disputando atenção, mas cultivando relevância.

Leia aqui sobre a estrutura.

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Publicado por Carol Braga

Publicado em 19/10/25

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