Nome por trás de um dos filmes mais necessários dos últimos anos – “Que Horas Ela Volta?”, de 2015, com Regina Casé -, bem como de títulos que ficaram cunhados na memória afetiva, como “Durval Discos” (2002), Anna Muylaert dá mais uma prova de que está em um momento tão inspirado quanto profícuo com “A Melhor Mãe do Mundo”, que entra em circuito nacional neste início de agosto. Com a excelente Shirley Cruz à frente do elenco – ela interpreta a mãe do título -, o longa aborda temas necessários, como relacionamentos abusivos + violência doméstica ou a primordialidade de as pessoas em situações adversas contarem com uma rede de apoio (que, diga-se, nem sempre se estabelece por laços sanguíneos). Do mesmo modo, joga luz sobre um ofício tão necessário quanto invisibilizado: o dos catadores de lixo reciclável.
O Culturadoria levanta, aqui, cinco trunfos desta história, com a ideia de incentivar o espectador a se deslocar até o cinema mais próximo. Sim, vale muito conferir de perto esse filme que, na nossa modesta opinião, está mais que apto a receber um selo de “altamente recomendável”.
Roteiro e direção
Na tela, “A Melhor Mãe do Mundo” é contada por meio de uma narrativa linear. De início, temos Gal na delegacia, prestando queixa contra o companheiro, Leandro (Seu Jorge, excelente). Ela vive junto a ele e aos filhos, os pequenos (e encantadores) Benin e Rihanna, vividos por Benin Dailher e Rihanna Barbosa. Ante a delegada, com o olho roxo, ela, pois, aceita protocolar a denúncia que, consequentemente, gera uma medida protetiva de afastamento. Na sequência, Gal volta para casa e, aproveitando-se do momento em que Leandro está debaixo do chuveiro, foge com os dois garotos. Assim, inicia um percurso marcado pelo medo, pelo desamparo… E por uma série de situações que mostram que o mundo não é definitivamente um lugar para principiantes.
Nesta empreitada em direção à casa de uma prima, onde pretende buscar guarida, ela tenta sobreviver aos trancos e barrancos. Segue, impávida, vendendo o lixo que conduz em sua carroça, cujos braços sustenta com galhardia em meio ao insano vaivém de carros de São Paulo. Aos meninos, atordoados diante da súbita partida, e sem ao menos ter como tomar banho, a mãe inventa histórias. Arguta, simula uma aventura que propositadamente pensou para movimentar a vida.
A personagem Gal e seus filhos em uma cena cativante (Biônica Filmes/Divulgação)
Em “A Melhor Mãe do Mundo”, vale ressaltar a capacidade de Muylaert de extrair das crianças uma interpretação pra lá de naturalista. Aliás, até faz a gente acreditar que são, de fato, filhos de Shirley, de tanta espontaneidade. Encantadoras, não menos!
Shirley Cruz
Aos 49 anos, a premiada atriz carioca (também diretora) Shirley Cruz tem uma presença de cena que, sem exagero, atordoa o espectador. Que performance, que olhar! Não dá para imaginar intérprete mais perfeita para viver um personagem tão real e tangível como a Gal de “A Melhor Mãe do Mundo”. Ao jornal “O Globo”, ela disse que, nas filmagens, dispensou ajuda para puxar a carroça com a qual a vemos em cena. Isso, mesmo diante do peso absurdo. Na mesma conversa, revelou que, tal como sua personagem, também foi vítima de violência doméstica no passado. “Todas nós somos um pouco Gal. Nascer mulher é quase um portal aberto para ser maltratada, sacaneada, pisada e abusada”, disse ela, ao jornalista Eduardo Vanini.
Vale dizer que Shirley Cruz também fez “O Clube das Mulheres de Negócios”, de Muylaert, lançado no CIneBH, ano passado. Do mesmo modo, estará em “Geni e o Zepelim”, nova empreitada da diretora, com estreia prevista para 2026. Em tempo: uma das cenas mais lindas de Shirley em “A Melhor Mãe do Mundo” se dá ao final do filme, mas reza o bom senso não fornecermos detalhes para não estragar a surpresa do espectador.
Coadjuvantes
A atriz mineira Rejane Farias, integrante do grupo teatral QuatrolosCinco, dá mais uma amostra de seu imensurável talento em A Melhor Mãe do Mundo” interpretando Munda, uma mulher que, em uma cadeira de rodas, se desloca para cidade vendendo bandeiras de times de futebol. Ela, que mora em uma ocupação (outro tema trazido à tona no filme), se compadece com a situação de Graça e seus filhos e logo oferece ajuda. A tal da bendita sororidade. Apesar do apreço aos palcos, a atriz e diretora tem construído uma belíssima carreira também nos cinemas, em filmes como “Marte Um”. Não bastasse, deu o ar da graça nos capítulos iniciais da novela “Vale Tudo”, bem como na série “Segunda Chamada”. Como é bom vê-la reluzir em cena.
Há que se pontuar, ainda, o ótimo trabalho de Luedji Luna, como Valdete, a prima de Gal. Em cena, ela faz refletir sobre mulheres que, por inúmeros motivos, resistem à separação, ainda que estejam descontentes com a relação na qual estão inseridas. Como marido de Valdete, Rubens S. Santos também marca pontos em sua carreira em “A Melhor Mãe do Mundo”.
Elenco de apoio e participações especiais
Assim como em outros filmes de Anna Muylaert – como “Durval Discos”, que contou até com a presença luxuosa de Rita Lee -, ‘A Melhor Mãe do Mundo” traz algumas participações bem especiais. Caso das de Chico César, Katiuscia Canoro, Dexter e Thobias da Vai-Vai. Já no elenco de apoio, vemos mais uma vez o ator, escritor e quadrinista Lourenço Mutarelli. Sim, você sabe: ele também esteve em “Que Horas Ela Volta?” – aliás, num papel que dialoga com o que faz agora.
Invisibilidade em foco
Filmes como “Crianças Invisíveis” já se debruçaram sobre a vida dos catadores de lixo – no caso, no episódio dirigido por Kátia Lund. Ele mostra o cotidiano de duas crianças, os irmãos João e Bilú, catadores de latinhas de alumínio. Produções como o documentário “Estamira” também mostram um cotidiano inenarrável ligado ao refugo. Desta feita, por meio da personagem título, que viveu parte da vida junto a um aterro sanitário, hoje desativado. “Lixo Extraordinário” é outro longa a ser citado sob o arco dessa temática.
“A Melhor Mãe do Mundo” cala fundo o espectador ao mostrar uma mãe solo, que se desdobra para garantir seu sustento e o dos filhos. Uma mulher que se desloca invisível em um ofício que exige, antes de tudo, muita força física. Tal qual, que a coloca em situações de riscos, como o de atropelamento ou mesmo de aproveitadores (que apelam até para investidas sexuais). O filme não economiza em mostrar situações que escancaram essa luta que, pela nobre finalidade que traz em seu bojo (o reaproveitamento de materiais, condizente com as normas necessárias ao controle do volume de lixo produzido nas grandes cidade e, em uma escala maior, ligado à conscientização ecológica que se faz urgente nos dias atuais), deveria ser mais remunerado e exercido em melhores condições.