Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura Kentukis Samanta Schweblin
Em “Kentukis”, a argentina Samanta Schweblin escreve sobre uma nova febre, a sensação no mercado dos dispositivos eletrônicos ao redor do globo. Em um primeiro olhar, são apenas bichos de pelúcia articulados – fofos, coloridos e divertidos, como esperamos que esses bichinhos sejam -, mas há um diferencial nos kentukis, esse produto: quando os olhamos, eles nos olham de volta. As implicações dessa nova tecnologia e questões latentes da contemporaneidade – em um forte diálogo com o universo ficcional criado pela autora – são o foco do mais recente romance de Schweblin, lançamento da Fósforo Editora com tradução de Livia Deorsola.
Há um humano por trás de cada kentuki vendido. Ao comprar o dispositivo, o usuário permite que um estranho, do qual ele não terá nenhum tipo de informação ou forma de contato oficial, adentre a sua intimidade e o observe através da câmera acoplada atrás dos olhos do bicho. É um jogo entre observador e observado: o “ter kentuki” e o “ser kentuki”, aqueles que compram o “brinquedo” e aqueles que compram a licença para controlá-lo em um tablet.
No romance, Samanta Schweblin leva para um novo nível a nossa experiência contemporânea da exposição do eu, do voyeurismo e da vigilância. As redes sociais e seus algoritmos demandam cada vez mais a exteriorização da intimidade de seus usuários. Quem nunca desconfiou do que há do outro lado das câmeras e dos microfones de dispositivos como celulares, notebooks e tablets? O próprio Mark Zuckerberg bloqueia, com fitas, a webcam e o microfone de seu computador pessoal. O sexting – o compartilhamento de conteúdos eróticos amadores por celulares e chats -, o crescente número de vazamento desses arquivos particulares e suas consequências são uma questão urgente do hoje. Todos esses pontos circulam pela minha cabeça ao longo do romance.
Realidade pertubadora
Há momentos desconcertantes em “Kentukis” – a realidade perturbadora é uma marca da literatura de Schweblin -, nas relações desenvolvidas entre completos desconhecidos, seus riscos e implicações. Conexões são cortadas de maneira abrupta e definitiva quando o acordo entre as partes é descumprido por um dos lados. Novas relações de poder são desenhadas por intermédio deste dispositivo. Importante o nome que os donos de kentukis recebem na narrativa: amos. Há uma relação de servidão aqui. Mas não apenas entre os seus usuários – a hierarquia do ter e do ser -, mas entre eles e esta tecnologia, este sistema no qual escolhem se submeter. Qual o custo?
Em uma construção engenhosa da narrativa, o próprio leitor, como um kentuki, observa diferentes histórias em variados pontos do globo, que vão se intercalando, indo e voltando em alguns de seus personagens principais. Seus capítulos são como janelas na intimidade daqueles que são e daqueles que têm o dispositivo. Algumas conexões mal sobrevivem a poucas páginas, outras se desenrolam ao longo de mais capítulos, num crescente clima de tensão – e desfechos surpreendentes.
No fim, o ponto-chave do romance de Samanta talvez seja a solidão: a fragilidade das relações interpessoais, a falta de afeto e a busca por conexões. A tentativa constante do ser humano de construir laços, mesmo estes sejam com um outro que o observa através dos olhos plásticos e brilhantes de um bicho de pelúcia.