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A vigilância e a exposição da intimidade em Kentukis, novo romance da argentina Samanta Schweblin

As implicações da tecnologia na contemporaneidade estão no foco do romance publicado no Brasil pela Fósforo Editora com tradução de Livia Deorsola.

Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura Kentukis Samanta Schweblin

Em “Kentukis”, a argentina Samanta Schweblin escreve sobre uma nova febre, a sensação no mercado dos dispositivos eletrônicos ao redor do globo. Em um primeiro olhar, são apenas bichos de pelúcia articulados – fofos, coloridos e divertidos, como esperamos que esses bichinhos sejam -, mas há um diferencial nos kentukis, esse produto: quando os olhamos, eles nos olham de volta. As implicações dessa nova tecnologia e questões latentes da contemporaneidade – em um forte diálogo com o universo ficcional criado pela autora – são o foco do mais recente romance de Schweblin, lançamento da Fósforo Editora com tradução de Livia Deorsola.

Há um humano por trás de cada kentuki vendido. Ao comprar o dispositivo, o usuário permite que um estranho, do qual ele não terá nenhum tipo de informação ou forma de contato oficial, adentre a sua intimidade e o observe através da câmera acoplada atrás dos olhos do bicho. É um jogo entre observador e observado: o “ter kentuki” e o “ser kentuki”, aqueles que compram o “brinquedo” e aqueles que compram a licença para controlá-lo em um tablet. 

A autora de Kentukis, a argentina Samanta Schweblin. Foto: Alejandra Lopez/Divulgação

No romance, Samanta Schweblin leva para um novo nível a nossa experiência contemporânea da exposição do eu, do voyeurismo e da vigilância. As redes sociais e seus algoritmos demandam cada vez mais a exteriorização da intimidade de seus usuários. Quem nunca desconfiou do que há do outro lado das câmeras e dos microfones de dispositivos como celulares, notebooks e tablets? O próprio Mark Zuckerberg bloqueia, com fitas, a webcam e o microfone de seu computador pessoal. O sexting – o compartilhamento de conteúdos eróticos amadores por celulares e chats -, o crescente número de vazamento desses arquivos particulares e suas consequências são uma questão urgente do hoje. Todos esses pontos circulam pela minha cabeça ao longo do romance.

Realidade pertubadora

Há momentos desconcertantes em “Kentukis” – a realidade perturbadora é uma marca da literatura de Schweblin -, nas relações desenvolvidas entre completos desconhecidos, seus riscos e implicações. Conexões são cortadas de maneira abrupta e definitiva quando o acordo entre as partes é descumprido por um dos lados. Novas relações de poder são desenhadas por intermédio deste dispositivo. Importante o nome que os donos de kentukis recebem na narrativa: amos. Há uma relação de servidão aqui. Mas não apenas entre os seus usuários – a hierarquia do ter e do ser -, mas entre eles e esta tecnologia, este sistema no qual escolhem se submeter. Qual o custo?

Em uma construção engenhosa da narrativa, o próprio leitor, como um kentuki, observa diferentes histórias em variados pontos do globo, que vão se intercalando, indo e voltando em alguns de seus personagens principais. Seus capítulos são como janelas na intimidade daqueles que são e daqueles que têm o dispositivo. Algumas conexões mal sobrevivem a poucas páginas, outras se desenrolam ao longo de mais capítulos, num crescente clima de tensão – e desfechos surpreendentes.

No fim, o ponto-chave do romance de Samanta talvez seja a solidão: a fragilidade das relações interpessoais, a falta de afeto e a busca por conexões. A tentativa constante do ser humano de construir laços, mesmo estes sejam com um outro que o observa através dos olhos plásticos e brilhantes de um bicho de pelúcia. 

Encontre “Kentukis” aqui!

Gabriel Pinheiro é jornalista e produtor cultural, sempre gasta metade do seu horário de almoço lendo um livro. Seu Instagram é @tgpgabriel

Capa do livro Kentukis. Foto: Fósforo Editora
Capa do livro Kentukis. Foto: Fósforo Editora

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