José Saramago: cinco livros para embarcar na narrativa do autor
Escritor português marcou a história da literatura e ganhou o Nobel e o Prêmio Camões
Foto: Ander Gillenea / Getty Images
Escritor português marcou a história da literatura e ganhou o Nobel e o Prêmio Camões
Foto: Ander Gillenea / Getty Images
Há 10 anos morria José Saramago, escritor português vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, em 1998, e do Prêmio Camões, em 1995, o mais importante da língua portuguesa. Nome fundamental da literatura contemporânea, Saramago deixou um legado de obras que abordam a sociedade, fazendo críticas à política, reescrevendo religião (a exemplo de O evangelho segundo Jesus Cristo) e também criando realidades alternativas, vide Ensaio sobre a cegueira.
Nascido em uma aldeia de Portugal em 1922, se mudou para Lisboa com a família quando tinha dois anos e sempre demonstrou interesse pelo aprendizado e pelas artes. Trabalhou como serralheiro mecânico, servidor público, tradutor de nomes como Tolstói, Baudelaire e Hegel. Atuou também em jornais, para os quais escrevia crônicas.
A partir de 1975, passou a se dedicar exclusivamente à literatura. Antes disso, já tinha publicado um livro aos 25 anos. O romance Terra do pecado conta a história de uma mulher que se sentia culpada após a morte do marido.
Na primeira obra já é possível perceber o tom cético de José Saramago em relação à religião. Ateu, fazia críticas e reflexões sobre como a crença interferia na vida das pessoas. E esse tipo de narrativa perpassou toda a sua produção, sendo mesclada ao estilo único que marcou o século XX. José Saramago morreu no dia 18 de junho de 2010.
O fato é: tem gente que tem um pouco de receio de ler as obras “saramaguianas” e gente que se delicia. Isso porque a produção literária do autor tem diversos aspectos particulares e inovadores. Só para exemplificar, ele faz uso de parágrafos grandes e pouquíssima demarcação de variação do discurso.
Então, se há um diálogo, ele não é marcado por travessão ou aspas. Pode parecer um desafio pensar em uma narrativa assim, mas, quando você pega no tranco, a leitura flui como em uma conversa. Isso resulta em outra marca do autor: a oralidade. Alguns estudiosos, inclusive, atrelam essa característica à história do artista, já que a família teve pouco acesso à educação e, em determinada época, ele mesmo precisou sair da escola por falta de recursos.
Em resumo, bem resumido mesmo pois a história do autor e estilo são bem mais complexos que isso, José Saramago muitas vezes subverteu a norma da língua portuguesa e escreveu obras primas entre romances, contos, crônicas e até poesia. Pensando nisso, selecionamos cinco obras para você ler, reler e embarcar na literatura do autor.
Confira!

Publicado em 1982, o romance é caracterizado pela união entre a narrativa histórica e ficcional, pois conta a história do reinado de D. João V, que mandou construir o Palácio Nacional de Mafra (conhecido como convento) com o diamante e ouro originários do Brasil Colônia. Ao mesmo tempo, retrata e faz críticas à exploração trabalhista da época. Para isso, foca nos operários Baltasar e Blimunda, que conhecem o Padre Bartolomeu de Gusmão, pioneiro na aviação. Juntos iniciam a construção de uma espécie de avião que voa em direção ao sol. Por subverter às regras eles são perseguidos pela Inquisição.
O livro é considerado um dos melhores de José Saramago, tendo sido traduzido para mais de 20 línguas e já ter mais de 50 edições.
O ano da morte de Ricardo dos Reis
Neste livro de 1984, José Saramago faz o leitor sentir o clima que permeava o ano de 1936: envolvido pela ditadura de Salazar, a Segunda Guerra Mundial, a Guerra Civil Espanhola e a expansão do nazismo na Europa. Para isso, narra a história do retorno de Ricardo dos Reis para Portugal após 16 anos de autoexílio no Brasil. Ele precisa sair de um lugar de contemplação e lidar com a nova realidade.
Saramago decidiu escrever o livro porque, diferentemente da biografia de Alberto Caieiro, heterônimos de Fernando Pessoa, Ricardo dos Reis e Álvaro Campos não têm as suas mortes relatadas ou registradas. Dessa forma, depois da morte de Pessoa, o autor resolveu finalizar a história.
A partir de uma visão crítica e moderna sobre o assunto, José Saramago reconta a história de Jesus de uma forma mais humanizada, tudo sob a perspectiva do próprio Cristo. Sendo assim, mostra o nascimento dele e explora as inseguranças, dúvidas, anseios e até os pensamentos. O diferencial nessa obra é tentar contar e entender o que se passava na cabeça de um homem considerado fundamental na história da crença da humanidade.
Na época do lançamento, 1991, o livro foi tão polêmico que chegou a ser censurado, o que causou até a mudança de Saramago de cidade. No entanto, acredita-se que a censura foi, também, por causa da posição política, já que saramago sempre se declarou comunista.
Esse é um dos livros mais conhecidos de José Saramago. Ele conta a história de uma epidemia de cegueira sem precedentes que se espalha por uma cidade causando o caos. Entretanto, trata-se de uma cegueira “branca”, na qual as pessoas veem tudo branco como leite. A obra é, definitivamente, uma reflexão sobre empatia. O autor provoca no leitor o mix de sensações que passam pela tristeza, medo, raiva, alegria, ansiedade e até pelo nojo. É também um convite à reflexão sobre o mundo contemporâneo.
O próprio José Saramago classificou o livro como “terrível”, sofrido para escrever. Sendo assim, o que você pode esperar é um livro arrebatador em diversos sentidos. Ele também ganhou uma versão para o cinema dirigida por Fernando Meirelles.
De volta aos assuntos bíblicos, Caim foi o último livro publicado por Saramago ainda vivo. Na obra, se volta ao Antigo Testamento, explorando desde a história do Jardim do Éden até o dilúvio. Para isso, narra o que houve depois de Caim matar Abel. Após fazer um pacto com Deus, ele inicia uma jornada rumo ao Éden. Para construir a história, o autor refaz passagens da Bíblia sob outra perspectiva, assim como fez em O evangelho segundo Jesus Cristo. Tudo isso, assim como em outros livros, é escrito com a veia que beira o humor e estilo consagrado de José Saramago.
Assim como O evangelho, Caim foi muito criticado pela Igreja Católica. Mesmo assim, só em Portugal, foram vendidos mais de 70 mil exemplares nos primeiros dez dias de lançamento.
Publicado por Carol Braga
Publicado em 29/05/20