Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Inhotim inaugura duas exposições temporárias na Galeria Praça

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No espaço fechado da galeria do Inhotim, a potência única de Mestre Didi é salientada, enquanto o vão central acolhe obra da jovem artista Mônica Ventura

Patrícia Cassese | Editora Assistente

Em um movimento de expansão do Programa Abdias Nascimento e o Museu de Arte Negra, que começou a ser implementado no final de 2021, com previsão de seguir até o ano que vem, o Instituto Inhotim inaugurou no último sábado, dia 27, em sua sede, em Brumadinho, duas novas exposições temporárias, ambas situadas na Galeria Praça. São iniciativas que se conectam ao eixo central de forma orgânica, por trabalharem questões afins.

Mônica Ventura no Inhotim
Mônica Ventura no Inhotim

Desta forma, o vão central da Galeria Praça acolhe a impactante obra “A Noite Suspensa ou O que Posso Aprender com o Silêncio” (foto abaixo), de Mônica Ventura (artista nascida em São Paulo, em 1985).

Já a galeria propriamente dita recebe a exposição “Os Iniciados no Mistério Não Morrem”, que tem como principal chamariz (mas não o único, vale frisar) 26 obras do artista baiano Deoscoredes Maxilimiano dos Santos, o Mestre Didi (1917-2013).

“A Noite Suspensa”

No primeiro caso, a artista visual e designer paulistana Mônica Ventura dá continuidade a seu trabalho em grandes escalas – o vão da Galeria Praça, no Inhotim, tem cinco metros de pé direito e o trabalho quase alcança o teto – com uma obra que combina duas formas. De largura, são nove metros.

No chão, a base de terra, como ela mesma confirmou à imprensa, que visitou as obras em uma première, na sexta-feira, assemelha-se a uma Yoni, forma que remete ao feminino. O termo, em sânscrito, refere-se a noções de “passagem divina” ou “fonte de vida”.

Já a escultura remete a Lingam, símbolo fálico que, portanto, remete ao masculino. A composição das duas formas, por seu turno, faz referência a Shiva Lingam, síntese das energias do universo. “E também a geração da vida, não necessariamente seja (por parte de) homem ou mulher, mas em uma noção mais expandida”, diz a artista.

Na contramão de um trabalho “evidente”

Curador assistente do Inhotim, Lucas Menezes, que acompanhou o desenvolvimento da obra de Mônica Ventura, ressaltou um aspecto inovador da obra: o uso da terra em sua feitura. “Portanto, uma matéria orgânica, o que é muito distinto de muitas coisas que a gente já produziu. Isso é novo, surge de algo novo, que é algo deste projeto, deste programa e da presença desta artista”, apontou ele.

Menezes frisou que a obra da artista traz, intrínseco, um caráter enigmático e polvilhado por um certo mistério. “Definitivamente, é uma obra a ser descoberta. Não é um trabalho evidente, ‘dado’. A Mônica trabalha muito nessa chave de atiçar a curiosidade. Atiçar esse corpo também que dança, que se movimenta com a obra”.

Adentrar espaços institucionais

Mônica Ventura ponderou que, enquanto artista, estar ali, no Inhotim, por meio de sua obra, também é uma continuidade de um posicionamento profissional por ela adotado. “Que é o de adentrar espaços institucionais com meu corpo e com a minha obra”. E, neste processo, acrescentou, também levar consigo outras vozes “que têm narrativas similares à minha”. “Acho que não venho sozinha”, observa ela.

Sobre a escolha da terra como um dos materiais precípuos de seu trabalho, a artista situou: “Não só no Inhotim, mas também em (no estado de) Minas, há todo um histórico das serras, da mineração”. A escolha recaiu sobre usar a terra local, mas foi necessário aprender a trabalhá-la de maneira direcionada, correta. “Comprei esse desafio e a equipe que me acompanhou também entrou comigo. Ao fim, acho que a gente conseguiu desenvolver um trabalho bem bonito. Estou bem feliz, na verdade”, confessou.

Mestre Didi, do modo como era necessário

Se Mônica trabalhou mais diretamente com Lucas Menezes, a mostra de Mestre Didi foi pensada por Igor Simões, curador convidado do Inhotim neste ano de 2023. Esta, aliás, é a primeira exposição que leva sua curadoria – são três previstas para o ano.

Doutor em Artes Visuais-História, Teoria e Crítica da Arte – PPGAV-UFRGS, e atualmente pós-doutorando em História da Arte pelo MAC-USP, Igor foi convidado pelo Inhotim em março deste ano – portanto, o tempo para colocar a exposição de Mestre Didi em pé foi curto.

Obras de Mestre Didi expostas na Galeria Praça, no Inhotim

No caso, para a execução em curto tempo, contribuiu o fato de as 26 peças que levam a assinatura de Mestre Didi e que estão na mostra pertencerem ao acervo do Inhotim. “No entanto, a gente parte dessas 26 peças, mas nós não queríamos uma exposição apenas delas”.

A intenção, diz ele, era aproveitar a oportunidade para de fato falar mais dessa figura de artista, intelectual, pensador, tradutor, educador, sacerdote. “E de uma maneira na qual todas essas dimensões se conectassem dentro do espaço expositivo”, adiciona Igor.

Imagens e documentos

Assim, além das obras de Mestre Didi – que, cumpre frisar, formam um conjunto que assoberba o visitante -, há documentos e imagens do acervo da Sociedade de Estudos da Cultura Negra no Brasil (SECNEB) cedidos pela cantora e bailarina Inaicyra Falcão, uma das filhas do intelectual e artista. Há, ainda, outros trabalhos, que se relacionam com a obra do artista. São criações de Rubem Valentim e Ayrson Heráclito, além da videoarte Ijó Mimó (2019).

Aos profissionais de imprensa presentes na visita ao Inhotim, Igor lembrou que o título da exposição parte de uma canção fúnebre entoada no enterro de um Ojé, sacerdote da tradição Egungun. “Neste canto se diz que os iniciados no mistério não morrem. De alguma maneira, essa frase foi uma síntese para olhar o determinado mistério que a figura do Mestre Didi ocupou – e ocupa – dentro da cultura brasileira”.

E esse mistério, prosseguiu Igor, está profundamente relacionado não só com as questões que o próprio Abdias Nascimento (1914 – 2011) discutia, como na atuação de um grupo formado por expoentes que estão, emendou, pensando um projeto de Brasil.

Escuta seletiva

No caso, Igor se refere a nomes como os da professora, filósofa e antropóloga Lélia Gonzáles ou da historiadora, poeta e ativista Maria Beatriz Nascimento, para citar dois exemplos. Que se somam a outras vozes que, ao longo do tempo, foram vítimas do que Igor chama de “escuta seletiva”, provocada pelo fato de vivermos em um país estruturalmente racista.

“Costumo dizer que essas vozes, não é que foram apagadas ou silenciadas. Nunca houve apagamento ou silenciamento no pensamento e na arte produzidos por estes homens e mulheres. O que houve foi uma escuta seletiva”, analisa o curador convidado.

Sendo assim, prossegue Igor, um dos objetivos da exposição é colocar um ponto final nesta escuta seletiva e, assim, posicionar Mestre Didi “como o artista que ele é”.

No geral, Mestre Didi utiliza, em suas obras, materiais como búzios, contas, tiras de couro e sementes

“Um artista que não cabe apenas numa definição de arte brasileira, mas que pode ser pensado num dimensão afro-diaspórica. Portanto, se conectando com essa experiência cultural que vem do Atlântico”.

“Nos últimos anos”? De forma alguma

No que tange ao material documental que está na exposição das obras de Mestre Didi no Inhotim, Igor Simões ressalta que as imagens, por exemplo, que o mostram junto a tantos pensadores e artistas, tão potentes qual e tal, reunidos, são importantes para a compreensão de que nada do que está acontecendo agora, enfatiza, seja minimizado pelo uso de expressões como “nos últimos anos” ou “recentemente”.

Ele se refere às fotografias em que Mestre Didi aparece não só ao lado de Abdias Nascimento, como de nomes como Lélia Gonzáles, Rubem Valentim ou Guerreiro Ramos.

“Na verdade, este projeto de Brasil que é apresentado a partir do pensamento e da poética desses homens e mulheres, ele tem uma longa história. E é um pouco dela que vamos ver aqui. É importante dizer que não é uma exposição sobre o mistério do Mestre Didi. É uma iniciativa para definitivamente desfazer qualquer mistério, qualquer dúvida, do lugar desse artista na arte brasileira”, crava Igor.

Paisagem sonora

A exposição “Os Iniciados no Mistério Não Morrem” tem, ainda, em seus créditos, os nomes de Deri Andrade, como curador assistente, e Rosa Sousa, como assistente curatorial.

Os curadores Deri e Igor, durante visitação às obras de Mestre Didi

E, ainda, a colaboração de Reibatuque. “Um artista aqui, da região, que ajudou a construir uma das surpresas que o visitante vai encontrar na primeira sala da exibição”, diz Igor.

Reibatuque, artista de Brumadinho que também participa da exposição dedicada a Mestre Didi

A mostra traz, ainda, uma paisagem sonora assinada, entre outros, por Edivaldo Belagi. Ele e colegas procuraram recriar sonoridades da Sociedade Cultural e Religiosa Ilê Asipá do culto aos ancestrais Egun, fundada por Mestre Didi em Salvador, em 1980.

Olhar para outras culturas

Instada a falar sobre os elementos que a conduziram na criação de sua obra, Mônica Ventura volta ao passado para lembrar que, pensando na herança afrodiaspórica, em algum momento de sua pesquisa, resolveu ir atrás da sua ancestralidade. “Quase que imaginando ela, como seria. Porque a gente sabe que, no Brasil, há uma falha de memória. E essas informações ancestrais foram negadas”.

Neste processo, ela dirigiu seu olhar a outras culturas, movimento que ecoa na obra que traz referências aos zangbetos, espíritos ancestrais cultuados em algumas religiões no Golfo do Benim, responsáveis pela proteção e afastamento de males. “Então, vou olhar muito para Benim, que tem práticas de culto aos ancestrais”. Não só. Igualmente aos praiás, elementos da cosmologia Pankararu, povo originário brasileiro cujo território tradicional se encontra próximo ao Rio São Francisco.

O curador Igor Simões e a artista Mônica Ventura, em explanação a jornalistas

Ambas as culturas se valem, em cerimônias específicas, de um tipo de máscara de corpo inteiro confeccionada em palha. Quem ocupa aquele corpo, como assinala o material explicativo, persiste como incógnita: ele observa, mas não pode ser observado. “E aí, eu faço uma apropriação desse olhar. Uma imaginação de seres que estão aqui para nos observar, mas que também permitem que a gente os observe. Assim, há um jogo, de quem observa quem”.

Ntanga

Ao fim, Mônica falou, ainda, do trabalho do arquiteto Rodrigo Campos, que a auxiliou a desenvolver peças em taipa, fixadas nas paredes do entorno do vão da Galeria Praça, em Inhotim. “Trata-se de um processo construtivo para o qual é preciso um pilão. Você vai compactando a terra em camadas, mas é preciso fazer uma receita que leva cimento, cal, areia e água”.

Mônica salienta ser um processo muito preciso. “Tem que estudar a terra local, fazer uma investigação para encontrar a fórmula adequada”.

Assim, foram criadas as placas que parecem flutuar no espaço da Galeria Praça. “Foi um desafio. E eu também quis trazer uma simbologia bem sutil, que, na verdade, já aparecia em alguns trabalhos anteriores. Aqui, eu trago a palavra Ntanga, que, na verdade, é um verbo (em Bantu, do Congo)”.

Mônica lembra que, em alguns de seus artigos, a poeta, ensaísta e acadêmica Leda Maria Martins descreve o verbo como a ação de escrever e dançar ao mesmo tempo. “Algo que, dentro da nossa construção de sociedade, a brasileira, porém, a gente, na verdade, não consegue bem compreender”, lamenta.

“Aqui, não existe essa palavra e, na verdade, nem essa ação. Mas o que quis foi olhar para essas culturas ancestrais e tentar descobrir novas maneiras de compreensão. Pra mim, o ato de escrever e dançar ao mesmo tempo evoca uma relação de emoção e razão”, sentencia.

Em tempo

Vale lembrar que o Programa Abdias Nascimento e o Museu de Arte Negra do Instituto Inhotim está, atualmente, no terceiro (“Sortilégio”) de seus quatro atos previstos.

Em “Sortilégio”, o foco é na produção de Abdias como pintor, e na centralidade que as religiões afro-diaspóricas ganham em sua produção. A ocupação segue até 2024.

Serviço

Mestre Didi – “os iniciados no mistério não morrem”
A noite suspensa ou o que posso aprender com o silêncio

Onde. Galeria Praça (G3), Instituto Inhotim
Informações gerais
Horários de visitação Inhotim: de quarta a sexta-feira, das 9h30 às 16h30, e aos sábados, domingos
e feriados, das 9h30 às 17h30.
Entrada: R$ 50 inteira (meia-entrada válida para estudantes identificados, maiores de 60 anos
e parceiros). Crianças de até cinco anos não pagam entrada.

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