Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Instituto Inhotim apresenta duas novas exposições

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As duas novas mostras temporárias do Inhotim se filiam ao Programa Abdias Nascimento e o Museu de Arte Negra

Patrícia Cassese | Editora Assistente

Inauguradas no último dia 23, no Instituto Inhotim, duas novas exposições temporárias – “Direito à Forma” e “Fazer o Moderno, Construir o Contemporâneo: Rubem Valentim” – dão continuidade ao Programa Abdias Nascimento e o Museu de Arte Negra – lembrando que o primeiro ato teve início em dezembro de 2021. Instaladas, respectivamente, nas galerias Fonte e Lago, as mostras, que ficam em cartaz até o próximo ano, têm curadoria assinada por Igor Simões, nome convidado pelo Inhotim, que trabalhou conjuntamente a Lucas Menezes e Deri Andrade, curadores assistentes do Instituto.

Obras de Rubem Valentim, uma das atrações das novas exposições do Inhotim (Tiago Nunes/Divulgação)
Obras de Rubem Valentim, uma das atrações das novas exposições do Inhotim (Tiago Nunes/Divulgação)

Igor Simões, vale dizer, também responde pela curadoria da exposição “Mestre Didi – Os Iniciados no Mistério não Morrem”, que ocupa a Galeria Praça. Inaugurada em maio, a mostra reúne cerca de 30 obras, pertencentes ao acervo do Inhotim, de Deoscóredes Maximiliano do Santos (1917-2013), o Mestre Didi. “Este ano, estou aqui, como curador convidado do Inhotim, e, assim, tive a possibilidade de pensar este conjunto de três exposições. São iniciativas que ajudam a ampliar a discussão sobre arte afro-brasileira. E isso é algo muito importante para que não tentemos encaixar a produção artística afro-brasileira em um ou outro significado único. Em um ou outro estilo. Em uma ou outra linguagem”, ressalvou, de pronto.

Longo arco de produção

O curador prosseguiu: “A arte afro-brasileira – e aí eu já começo a falar do pressuposto dessas duas exposições – é uma categoria política. Sendo assim, não determina estilos, linguagens específicas. Ela se refere à produção de artistas negros do Brasil”. Trabalhos que, emenda Igor Simões, se conectam a uma outra dimensão: a afro-diaspórica. “Portanto, a arte afro-brasileira traz consigo, desde o princípio, um diálogo da além fronteira do Brasil. Assim, acho que esse trabalho (de entendimento da arte afro-brasileira) passa por compreender também essas figuras – e, aí, estou falando não só de Rubem Valentim ou de Mestre Didi, mas de tantos outros. Logo, para entendermos como a gente assiste, aqui, a algo que definitivamente não começou agora”.

Curadores (na foto, Igor Simões de blazer bege) e integrantes do Instituto Inhotim na apresentação à imprensa (Foto: Patrícia Cassese)

Quando se fala de arte afro-brasileira, salienta Igor, o que está em foco é um longo arco de produção. “E qualquer debate sobre arte brasileira terá de fato que passar pelo pensamento e pela produção de 57% da população deste país” (NR. Segundo o IBGE, 56,1% dos brasileiros se declaram negros, grupo que reúne pretos e pardos/Fonte: Agência Senado)

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Fora de “caixinhas”

A exposição parte da coleção de Rubem Valentim pertencente prioritariamente ao Instituto Inhotim. “Mas, aqui, a gente também tinha um desafio diferente do (que concerne à mostra de) Mestre Didi. É que, quando a gente lida com Valentim, está lidando com um artista cuja obra já foi apresentada em muitas exposições. E em diferentes períodos, seja no Brasil ou fora do país. Então, como encontrar uma chave para pensar não apenas a obra do Rubem Valentim, mas, partindo dela, uma série de reverberações?”, comentou Igor, voltando ao momento do brainstorm da mostra “Fazer o Moderno, Construir o Contemporâneo”.

A primeira dessas chaves, respondeu ele, foi entender que qualquer noção de arte moderna brasileira precisa necessariamente passar pela chamada “experiência do Atlântico”. “E, nesse sentido, mais uma vez, o Rubem Valentim se ergue como um moderno Atlântico por excelência”, destaca Igor. Valentim, volta a salientar o curador, é uma figura chave para a compreensão da arte afro-brasileira. “E, ao mesmo tempo, portanto já me conectando à outra exposição (“Direito à Forma”), (uma figura) para entendê-la como algo múltiplo, multifacetado. Portanto, que não cabe em caixinhas”.

Diálogo

Deste modo, Rubem é o ponto de partida para abordar questões que, afiança Igor Simões, são, nos dias atuais, incontornáveis. “Ele é uma dessas figuras de proa de um debate que se conecta muito com a nossa segunda exposição (que, por sua vez, reúne obras de variados expoentes). Então, para além da figura do Rubem, a gente tem, aqui, a honra de poder trazer diálogos, e nas mais diferentes formas, com outras produções”.

A mostra “Fazer o Moderno, Construir o Contemporâneo” foi construída com obras de Rubem Valentim (Salvador, 1922 – São Paulo, 1991) a partir da década de 1950, caso de algumas pinturas. Mas o visitante também poderá ver relevos, objetos e emblemas serigráficos, até registros da construção do “Marco Sincrético da Cultura Afro-Brasileira”, monumento em concreto de mais de oito metros de altura, erguido na Praça da Sé, em São Paulo, em 1978. A exposição agrega, ainda, trabalhos de outros artistas que, na visão da curadoria, apresentam, no trabalho, interseções com o fazer artístico de Rubem Valentim. Assim, ampliando os debates que a exposição propõe.

Interseções

“Aqui, na Galeria Lago, a gente tem em diagonal, por exemplo, o trabalho da Rosana Paulino e o do Jaime Laureano, que trazem a discussão sobre essas categorias da história da arte brasileira. Geometria tropical… Outras leituras para o que nós chamamos de concreto ou não concreto”, explana Igor Simões. “E, ao mesmo tempo, (temos a oportunidade de) poder trazer, junto às obras do Rubem, as de artistas como Jorge dos Anjos… Pensar que geometria também pode ser como a obra de Allan Weber, a fotografia de uma lona de baile funk que abre um caminho inteiro para pensar outras formas”.

Ele também cita o trabalho de Froiid, “que traz uma série elementos, como, por exemplo, uma outra leitura para o cavalete de cristal, um display icônico da arte brasileira”. “Então, acho que são muitas, as questões que se abrem aqui”. Não menos importante, Igor também falou sobre a presença do artista plástico, jornalista, editor, escritor, poeta e compositor Bené Fonteles, hoje com 70 anos. “A gente teve a honra de, nesta exposição, poder contar com o trabalho dele, que é uma figura indispensável para qualquer debate sobre o Rubem Valentim. Seja pelo profundo conhecimento que tem, seja pela parceria ao longo de uma vida inteira”. Os curadores também ressaltaram parcerias que viabilizaram a mostra, como as firmadas com o Museu de Arte da Pampulha (MAP), o Museu de Arte Contemporânea da USP (MAC USP) e o Museu de Arte Moderna da Bahia.

Jorge dos Anjos

Presente à visita da imprensa às novas exposições do Inhotim, o mineiro Jorge dos Anjos contou que as obras de autoria dele presentes em “Fazer o Moderno, Construir o Contemporâneo: Rubem Valentim” foram pensadas “para de fato dialogar” com o legado do artista homenageado. “Eu bebo na mesma fonte na qual o Rubem Valentim bebia. A fonte é a mesma. Então, (no caso dele, Jorge) são duas esculturas. Na área externa, uma que se chama Exu, e, no espaço interno, a Casa de Exu. Assim, toda a relação da forma, dos sentidos, a materialidade… Tudo remete a essa fonte primeira, que é a busca e a expressão dessa africanidade. Dessa herança africana, que vem também ligada à religiosidade e à construção”, pontua.

Uma das obras de Jorge dos Anjos que integram a mostra “Fazer o Moderno, Construir o Contemporâneo” (Foto: Patrícia Cassese)

Bené Fonteles

Ao Culturadoria, Bené Fonteles, também presente à visitação das novas mostras no Inhotim, realizada na última sexta-feira, comentou que “Fazer o Moderno, Construir o Contemporâneo” traz, como espinha dorsal, um diálogo muito interessante com os artistas contemporâneos. “Que, por sua vez, podem nem estar querendo dizer que têm afinidades com o Rubem Valentim, mas não importa. No meu caso, apesar de toda a intimidade com ele – nossa parceria começou em 1977 – o meu trabalho (referindo-se mais especificamente às obras de sua autoria que estão agora expostas na Galeria Lago, como parte da mostra) tem a ver com as telas que ele deixou em branco”. Fonteles faz um parênteses: “Como se sabe, Valentim deixou 250 telas em branco, porque ainda queria fazer arte”.

Assim, Bené Fonteles foi presenteado pelos herdeiros com algumas dessas telas que seriam usadas pelo artista em trabalhos futuros. “E, daí, eu fiz, por exemplo, uma grande instalação, na Estação Pinacoteca, em São Paulo. E ainda outros trabalhos, que entraram em algumas exposições. E agora estão aqui esses dois trabalhos (no Inhotim). Isso porque as telas dele me evocavam alguma coisa que eu tinha que dar prosseguimento com o meu próprio trabalho. Assim, evoca (Valentim) no espírito, nas coisas que a gente conversou durante décadas. Eu acho que, aqui, alguns artistas têm uma história de forma, ou de certa intenção conceitual, mas não importa isso. Penso que o fato de quererem, pela vontade deles, estar aqui, para esse diálogo com o legado de Rubem Valentim, já é uma prova de que a coisa dele (de Valentim) continua, né? Ou seja, por vezes é mais uma inspiração do que uma influência”, analisa.

Manifesto

Com relação ao legado deixado por Rubem Valentim, Bené Fonteles destaca que, na opinião dele, trata-se de não menos que um dos sete artistas mais importantes de toda a história da arte brasileira “a partir de Tarsila Amaral”. “Ele deixa um marco, um legado incrível, e quando você lê o manifesto ‘Ainda que Tardio’ compreende muito bem. Como se sabe, ele é o único artista brasileiro que fez um manifesto'”, salienta Bené Fonteles, na conversa com o Culturadoria no Inhotim.

“Assim, ele deixou uma coisa muito bem delineada do que é o pensamento dele sobre uma ‘arte brasileira universal’. O design, a riscadura brasileira, que alguns artistas, de certa forma, estão fazendo. Mas ele não era xenófobo, e nem eu sou. Veja, não se pode pensar que exista uma arte brasileira. Não existe arte brasileira, nem africana, nem americana, nem europeia. Existe artista. E ele tinha consciência disso. Assim, deixa, no seu manifesto, isso também explicitado”. Ao fim, Fonteles situa: “E assim, eu acho que (a mostra no Inhotim) é uma iniciativa muito feliz, com esses diálogos. Mais que feliz, é oportuna”.

Froiid

O artista e curador Froiid mostra, em “Fazer o Moderno, Construir o Contemporâneo”, o trabalho “Boi de Piranha”, que traz o subtítulo “The Guanabara’s Reveille”. Vale lembrar que o artista mineiro já havia feito uma série baseada no Jogo do Bicho, em 2021, que, por seu turno, se chamava “Boi de Piranha – Brazilian Zodiac”. Ambas se relacionam com os 25 animais do tradicional jogo brasileiro. “E ela também estabelece um diálogo com algumas outras coisas que me interessam, como, por exemplo, a tradição construtivista, geométrica, da arte brasileira. Especificamente pensando como essas tradições se reverberam até hoje, na arte contemporânea. Brincando com esse modernismo, que foi uma proposta de trazer esse trabalho em diálogo com o legado de Rubem Valentim”, diz Froiid.

Froiid e, ao fundo, os quadros que formam a obra “Boi de Piranha -The Guanabara’s Reveille” (Foto: Patrícia Cassese)

Do mesmo modo que na obra anterior, citada, aqui, ele volta a usar a tipografia vernacular dos caminhões. “Assim, feitas por dois pintores de carrocerias de caminhão”, explica Froiid. No mesmo espaço, há, ainda, um dispositivo, influenciado pelo cavalete da arquiteta Lina Bo Bardi (1914-1992). “Esse que é um tradicional dispositivo expográfico. E, aqui, acontecerá o seguinte: a cada dia, pela manhã, haverá o sorteio Alvorada. E a partir do resultado (ou seja, de acordo com o bicho sorteado), o trabalho é modificado (com a retirada do quadro relativo ao animal sorteado, que, assim, é colocado em destaque no dispositivo). Assim, a expografia sofre uma alteração a cada dia, a partir de um resultado externo que, por sua vez, influencia o conjunto”.

O jogo do bicho como referência: na foto, a placa ausente corresponde ao animal sorteado no Alvorada (Foto: Patrícia Cassese)

“Direito à Forma”

Mais de 30 artistas participam da coletiva “Direito à Forma”, novidade no Inhotim. São eles:

Composição de Luana Vitra para a mostra “Direito à Forma”, em cartaz no Inhotim (Tiago Nunes/Divulgação)

André Vargas, Antonio Tarsis, Ayrson Heráclito, Ana Cláudia Almeida, André Ricardo, Castiel Vitorino
Brasileiro, Cipriano, Edival Ramosa, Edu Silva, Emanoel Araujo, Eneida Sanches, Iagor Peres, Isa do
Rosário, Igshaan Adams, Helô Sanvoy, Jabulani Dhlamini, Juliana dos Santos, Lucia Laguna, Luana
Vitra, Marcel Diogo, Mestre Didi, M0XC4, Mulambö, Rommulo Vieira Conceição, Siwaju Lima, Rubem
Valentim, Raquel Gerber, Rebeca Carapiá, Sônia Gomes, Tadáskía, Thiago Costa e Yhuri Cruz.

Nada menos que 60 trabalhos estão em exposição na Galeria Fonte (Foto: Patrícia Cassese)

Ao todo, foram selecionados 60 trabalhos, entre eles, o vídeo-documentário “Ori” (1989), de Raquel Gerber, sobre a historiadora, ativista do pensamento negro e intelectual Beatriz Nascimento.

Serviço

“Fazer o Moderno, Construir o Contemporâneo: Rubem Valentim” – Galeria Lago (eixo Rosa). Até setembro de 2024.

“Direito à Forma” – Galeria Fonte (eixo Amarelo). Até março de 2024.

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