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Círculo de Poemas: A fluidez da água em três lançamentos de poesia
Círculo de Poemas A fluidez da água em três lançamentos de poesia - Fotos Estúdio Ophelia, Mayara Barbosa, Deanna Dent
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Círculo de Poemas A fluidez da água em três lançamentos de poesia - Fotos Estúdio Ophelia, Mayara Barbosa, Deanna Dent
Três volumes de poesia recém lançados pelo Círculo de Poemas trazem a água como elemento fundamental de criação.
Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura
Os três trabalhos carregam, ainda, uma série de questões e reflexões sobre as existências (e as resistências) de cada um dos poetas, que nos apresentam olhares profundamente íntimos para as próprias histórias. Escrevo abaixo sobre os livros em questão, dicas que, posso apostar, ampliarão (e muito) o seu olhar, caso você decida mergulhar nestas páginas.
Natalie Diaz abre “Poema de amor pós-colonial” com a seguinte epígrafe de Joy Harjo: “Estou cantando uma canção que só pode nascer após se perder um país”. Natalie é uma mulher indígena norte-americana da etnia Mojave. Sabemos o quão insuficiente é a noção de país – com os limites, fronteiras que a encerram – para dizer de tudo o que os povos originários perderam e seguem sendo usurpados. Mas, essa é uma chave importante para mergulharmos no rio textual que Diaz nos entrega nesse belo conjunto de poesias, vencedor do Prêmio Pulitzer, com tradução de Akira Kuana.
“Poema de amor pós-colonial” olha para a cosmogonia Mojave, o conhecimento passado geração após geração de uma população que resiste apesar de. Apesar da poluição dos rios norte-americanos, “Você acha que a água esquecerá o que fizemos, o que continuamos a fazer?”. Apesar do genocídio nunca interrompido: “Somos americanos, e somos menos de 1 por cento dos americanos. Fazemos melhor negócio morrendo pelas mãos da polícia do que existindo”. Sozinha em um quarto de hotel em Manhattan, a escritora sabe que é a única mulher indígena no oitavo andar daquele ou de qualquer outro hotel: “Como pode um século ou um coração girar se ninguém pergunta, Para onde foram todos os indígenas?”
Natalie é rio, é água, é uma cobra cascavel, é uma mulher indígena. O que ela não é: a visão romanceada pelos brancos do ser-indígena. Ela não é uma mulher “vermelha”, termo pelo qual a população é historicamente nomeada. Afinal, ela nos diz: as únicas pessoas vermelhas que já conheceu são turistas brancos que passaram tempo demais sob o sol. “Mas é difícil, não é? Não performar o que eles dizem sobre nossa tristeza, quando estamos sempre tão tristes”.
A água é outra chave fundamental para a leitura deste conjunto de poemas. Como disse, Natalie Diaz é água, é um rio que corre. “Digo rio como um verbo. Um acontecimento. Está se movendo comigo neste exato momento”. Assim, ela pergunta: “Se digo, Meu rio está desaparecendo, também quero dizer, Meu povo está desaparecendo?”. Mas a água aqui é também desejo, é fluido, é um corpo em busca de outro corpo. “Naufragarei o profundo canal que dobra as dunas de areia de tuas ancas, até o molhe das tuas coxas // Em tuas mãos sou um navio que chega, um barco vazio, disposta a ser timão ou timoneira, atracada, presa — acorrentada e preenchida.”
Se um rio corre dentro da poeta, ele também corre em seu texto. Natalie Diaz não busca aqui a rima, a rigidez das formas fixas. Como água, ela procura a fluidez. Que o rio que corre dentro de si e por cima da terra onde pisa, corra também ao longo das páginas que escreve. Em poemas ora breves, ora longos – ocupando diversas páginas -, ora em versos, ora em contundentes relatos em forma de prosa. Neste precioso conjunto poético, Natalie Diaz imagina um mundo pós-colonial onde a prerrogativa seja o amor.
“Vamos aonde há amor,
ao rio, de joelhos debaixo d’água
doce. Eu a puxo quatro vezes,
até estarmos confluentes.
Somos rearranjadas.
Eu lavo a seda e o lodo dela de minhas mãos —:
agora a quem eu parto, eu parto limpa,
eu parto boa para a viagem.”
Encontre “Poema de amor pós-colonial” aqui

“Rio pequeno”, novo volume de versos do poeta Floresta, apresenta um conjunto sólido e pungente de poemas. Nos versos, o escritor (re)constrói a própria história e existência, num gesto onde a potência poética e a potência política andam lado a lado. “foi com medo nos olhos/ foi assim que eles me olharam/ com medo e saliva espumando/ nos cantos da boca/ com medo e sangue nos olhos.”
“na herança da serventia/ nasci supostamente menina/ com dois quilos e meio/ todo mirradinho e cabeludo/ chorei muito quando vim ao mundo”. Floresta escreve sobre aquilo que supostamente foi. Escreve também sobre a forma do verbo que insistentemente o ataca, é maligna, cruel: “a forma do verbo/ que me nomeia/ é assassina/ a forma do verbo/ em terceira pessoa/ que me coloca enquanto/ outra forma/ que me pinta como outra”.
Nos versos de “Sincretizado”, Floresta remonta seus dois nascimentos. O primeiro, “dos interiores cansados da mãe”. Na segunda vez em que nasceu – “finalmente descolado de deus/ homem branco suspeito” – é quando ele nos diz, finalmente, ter aprendido a enganar a morte, “todas elas/ que os outros/ aqueles outros/ escreveram pra mim.”
Com sua caneta bic, Floresta reescreve a própria história. Nos diz que a desobediência civil é justamente “não estar agora/ onde eles queriam”. E onde eles queriam que um corpo que transiciona estivesse? Na inexistência. O poeta expõe em suas linhas os olhares – ou os desvios dos olhares – de terceiros: “eu falo sério quando digo vocês correm de mim se não os pés os olhos correm nas laterais ou correm de cima a baixo meu desconforto os peitos soltos na camiseta já não aguentam tanta vigília”.
Floresta incorpora, por vezes, a ancestralidade que o precedeu. Criado por mulheres, mãe e avó, o poeta descortina em suas vivências uma força de resistência: “eu sou a minha avó/ que calejou mão/ trabalhando na roça/ cansou de passar fome e sei lá mais o quê/ ao lado do marido/ largou o homem/ e veio pra são paulo/ com três filhos nas costas”.
“Rio pequeno” é um livro que transborda urgência. Seus versos fluem como as águas de um rio da memória, que caminha da infância à vida adulta, do lugar de origem ao lugar conquistado e construído no agora, apesar das forças contrárias. E ele alerta: “eu disse/ eu não mordo/ mas cuidado/ daqui eu sinto o cheiro/ do seu medo.”

A água estava na baía da Guanabara, onde explodiram bombas na Revolta da Armada, que Ambrosina escutava, alarmada, de seu quarto em um velho sobrado. É a ligação entre mãe e filha, primordialmente, no ventre, até o parto, uma explosão líquida. A partir do caráter fluido – maleável como a água – da memória, a poeta carioca Aline Motta mira o passado e (re)constrói as trajetórias de mulheres que vieram antes de si em “A água é uma máquina do tempo”, seu novo livro de poema.
Ao dizer das mulheres que configuram sua imagem de família e ancestralidade, Aline parece dizer ainda mais: tantas outras experiências negras no Brasil, seja do passado, seja do presente. Este gesto de olhar para a própria linhagem familiar expõe o quanto vivências íntimas de violência racial, que atravessam décadas, séculos, são compartilhadas por outras famílias, por outras mulheres.
“Discutir racismo na minha família era como entrar naquela parte do mar em que não dá mais pé. Se fosse chamado pelo nome, o equilíbrio familiar se quebraria, e a corrente nos levaria à deriva.”
Ambrosina foi sua tataravó, morta, oficialmente, pela tuberculose em 1894. “Mas a história que contam é que morreu de susto por causa de bombas na baía de Guanabara, durante a Revolta da Armada”. Aos 13 anos, Michaela, filha de Ambrosina, foi violentada por um homem adulto. Recortes de jornais da época diziam que a menina era de “família pobre mas honrada”, e que o criminoso estaria disposto a reparar o crime cometido – crime de defloramento – se casando com a criança. “Mas o que deixou Ambrosina mesmo sem ar foi saber que a única solução para aquela desonra era lutar para que a sua filha se casasse com quem a tinha violentado. Entre o melhor e o certo, a escolha era cumprir a lei”.
Muitas décadas depois, Aline Motta nos diz sobre a mãe. Sobre a ausência materna. Em uma reflexão pungente e sensível sobre o luto, a autora revela uma relação marcada pelo descompasso, pelo sentimento de incompreensão entre filha e mãe. “Eu só poderia me tornar o que sou sendo desobediente, em contínua ruptura. Mais velha, pude fugir de fato da intimidade do convívio procurando um exílio. (…) Devo a você a ansiedade da perfeição, não há conserto quando se falta uma peça.”
Nesta (re)construção de seu grupo familiar, a artista faz uso dos mais variados registros e materiais, como fotografias, recortes de jornais, páginas de diário e agenda, trechos literários e documentos oficiais. Assim, Aline desenvolve uma poética muito única, onde texto e imagem, memória e fabulação se embrenham, se diluem. Seu trabalho com recursos e materiais tão diversos me remeteu imediatamente à obra de Valêncio Xavier.
“A água é uma máquina do tempo” é uma investigação pessoal sobre o passado, suas fraturas e ausências, e o caráter fabulador da memória. Em um instigante trabalho de montagem, Aline Motta, ainda, incorpora em sua poética os mais variados materiais, resultando numa obra que nos toca por, além de sua franqueza, sua singularidade.
Encontre “A água é uma máquina do tempo” aqui

Gabriel Pinheiro é jornalista e produtor cultural. Escreve sobre literatura aqui no Culturadoria e também em seu Instagram: @tgpgabriel (https://www.instagram.com/tgpgabriel)
Publicado por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura
Publicado em 13/12/22