Exposição

Mostra “Deslocamento” reúne trabalhos de Carlos Barroso

Obra de Carlos Barroso, que pode ser vista na Casa do Jornalista (Carlos Barroso/Divulgação)

O artista, poeta e jornalista Carlos Barroso reúne trabalhos recentes em exposição em cartaz na Casa do Jornalista

O deslocamento é uma característica intrínseca à faceta artista plástico do também jornalista e poeta Carlos Barroso. No caso, em um sentido particular: “O de deslocar objetos do cotidiano para a esfera da arte, assim como para a poesia”, explica ele. “Portanto, posso usar, por exemplo, um tubo de construção como base para um trabalho artístico. Ou um backlight, que é aquele tipo de (suporte de) propaganda que a gente vê, por exemplo, em lanchonetes – aliás, no qual os sanduíches aparecem muito mais bonitos do que os que te são entregues (no balcão ou na mesa)”.

Outros materiais vêm de pronto à mente do artista, na conversa com o Culturadoria: uma prosaica lata de lixo ou, tal qual, um rádio adquirido em ferro velho (“todo arrebentado”). E mais: “(reproduções objetuais) de cérebros ou vidros de remédios homeopáticos”, enumera ele. Tudo isso, a partir de pequenas intervenções norteadas pela mente de Barroso, vai sendo ressignificado – e virando arte. E são alguns desses trabalhos que Carlos Barroso apresenta na mostra “Deslocamentos”, atualmente em cartaz na Casa do Jornalista.

Segunda chance

A exposição, vale lembrar, chegou a ser montada no ano passado, em outro espaço, mas acabou tendo sua trajetória interrompida. Carlos Barroso relembra o episódio. “No caso, eu fui selecionado por um edital público”. No entanto, vídeos de movimentos da extrema direita começaram a circular lançando uma série de acusações – entre elas, a de que a mostra teria um “caráter herege”.

“Acredito que usaram isso porque estávamos às vésperas das eleições”, argumenta Carlos Barroso, referindo-se ao pleito que definiu o novo presidente do país, assim como os governadores, senadores, deputados federais se deputados estaduais. “E a verdade é que não havia nada de agressão ali. Aliás, eu inclusive tenho formação cristã. Só que o artista é um iconoclasta. Assim, pratica a dessacralização. Michelangelo, por exemplo, foi criticado por sua Criação de Adão, no Vaticano. Na verdade, todos os artistas, desde a pré-história, quando ainda se desenhava nas rochas, eram atacados”.

“Descorpo”

Um das obras que foi atacada por fundamentalistas, lembra Barroso, está agora na mostra da Casa do Jornalista: “Descorpo”. “São três cérebros em tamanho anatômico. Primeiramente, um com uma viseira de burro, um antolho. Aliás, um parêntesis: eu acho tão linda, a palavra antolho. Já outro cérebro está em uma gaveta, com uma gravatinha borboleta. E o terceiro, que deu mais polêmica, é um cérebro em cima de um daqueles manequins de loja, com uma lingerie e um seio falso. E, ainda, com uma estola de padre, que, por sua vez, eu consegui em uma igreja, como doação. Essa instalação deu muita polêmica. Mas é uma das que as pessoas mais gostam”.

Obra “History”, de Carlos Barroso, que também está na exposição na Casa do Jornalista (Carlos Barroso/Divulgação)

Outra obra que ele diz gostar muito (“mas, na verdade, eu gosto de todas, são como filhos”), é “History (História)”, cuja foto aparece acima. “É uma tampa – com essas inscrições: ‘History’ de um lado e ‘História’ do outro – que gira na lata de lixo”.

Opiniões

Professor de jornalismo da Universidade Federal de São João del-Rei, Jairo Fará entende que a exposição de Carlos Barroso é um marco para o Sindicato dos Jornalistas, no que diz respeito à luta pela democracia, pela arte e pela liberdade. “É uma oportunidade muito boa. Eu conheço o trabalho dele há anos e o vejo cada vez mais amadurecido, mais profundo. A exposição é uma oportunidade para a reflexão sobre questões contemporâneas e, ainda, para a sensibilização para a arte. Porque a verdade é que a arte acaba sendo a grande saída. Assim, a grande salvação num mundo cada vez mais cheio de opressões e de inseguranças. Então, a arte acaba sendo essa oportunidade de transcender as coisas duras da vida e as distopias presentes na atualidade”.

Outro trabalho que pode ser visto na Casa do Jornalista (Carlos Barroso/Divulgação)

Ele entende que o trabalho de Carlos Barroso consegue levar todas essas questões para a reflexão, mas sem perder o lirismo, a irreverência. “Sem perder essa coisa que é muito presente na arte conceitual, que é a busca pela experimentação e por novas linguagens, por novos suportes, novas formas de arte”. Já a poeta, ensaísta e professora (de Literatura, na UFMG) Vera Casa Nova opina: “A obra de Carlos Barroso apresenta uma pluralidade de signos. Signos esses, ideológicos, que apontam para um sistema de representação decadente. Entre instalações ready-made, objetos variados e poemas visuais, o poeta se inscreve entre os melhores da contemporaneidade. Ver essa exposição é estar ligado ao que se deve criticar no mundo onde habitamos”.

Outros materiais

Ao falar da apropriação de materiais achados ao acaso, Carlos Barroso faz uma ressalva. “Não é só deslocar o objeto para a arte, é também procurar estética, e muitas vezes voltada para uma visão social, mas sem ser panfletário. Porque a gente viveu aqui, no Brasil, um período muito difícil. Aí eu lembro do Cildo Meireles, que, durante o regime militar, distribuía notas de dólar com frases carimbadas contra a ditadura. Eu me lembro de Bertold Brecht, que durante o nazismo, também fez uma obra social. Num período desses, da vida, o artista não pode ficar preso numa redoma de vidro”.

Com essa pontuação, ele diz que usa “todo e qualquer” material. “Aquela peça de medir o óleo do carro, bonequinhos de totó… A obra ‘Obscurantismo’, por exemplo, é feita com pedaços de tronco de árvore, que achei na rua, após uma poda da prefeitura. E por aí afora”.

Serviço

“Deslocamentos” – Mostra de obras de Carlos Barroso
Quando. Até o dia 2 de outubro
Casa do Jornalista (avenida Álvares Cabral, 400, Centro)
Entrada franca

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Publicado por Carol Braga

Publicado em 25/09/23

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Obra de Carlos Barroso, que pode ser vista na Casa do Jornalista (Carlos Barroso/Divulgação)