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Anita Malfatti: o estopim da Semana de 22

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Conheça mais sobre a história de Anita Malfatti que, sem querer, acabou participando de um dos movimentos mais expressivos da arte brasileira

Por Maria Clara Lacerda | Culturadora

“Eu pinto aspectos da vida brasileira, da vida do povo”, dizia a artista que sempre defendeu o fazer da arte popular brasileira. Anita Malfatti tem um posto incontestável na história da arte do Brasil.

Uma palavra marca a vida de Anita: inquietude. Considerada uma das pintoras mais renomadas da arte brasileira, parece até simbólico que Anita tenha nascido e falecido em anos marcantes para a história do país. 

Ela tentava encontrar o próprio estilo e fazer a própria arte. Viajou o mundo para se aprimorar e, de fora, trouxe a primeira demonstração do que era o Modernismo.

Quem foi Anita?

Paulista e, se vale dizer, sagitariana, Anita Catarina Malfatti nasceu junto da República brasileira, em 1889. Filha do engenheiro italiano Samuel Malfatti e da pintora Betty Krug, Anita passou grande parte da vida transitando entre as vontades conservadoras da família e do Brasil da época e o vanguardismo que conheceu pelo mundo.

Por conta de uma má formação congênita na mão e no braço direito, Anita precisou desenvolver o uso da mão esquerda desde bem cedo para escrever e pintar.

Na adolescência, escolheu a pintura como forma de expressão, assim como a mãe, Betty Krug. “Foi com as tintas dela que comecei a fazer um pouco de pintura”, contou ao jornal A Gazeta, em 1955.

Estudos da artista

Vale lembrar que a artista não vivia em condições tão abastadas, ainda no Brasil. Primeiramente, trabalhou como professora de desenho para ajudar no sustento da família. Conseguiu ir para a Europa como acompanhante de uma senhora que levava as filhas para estudar música na Europa.

Naquela época, todo artista estudava em Paris. Mas Anita não era qualquer artista. Ela embarcou para Berlim com vinte anos, onde estudou na Academia Imperial de Belas Artes. Sendo assim, foi na Alemanha que começou a se aproximar de movimentos vanguardistas a partir da orientação de pintores independentes. 

Com o início da guerra, Anita voltou ao Brasil. Fez a primeira exposição intitulada Exposição de estudos de pintura Anita Malfatti. Pouco depois, em 1915, embarcou para os Estados Unidos para concluir os estudos de arte.

Antes de chegar a Nova York, onde estudou na Independent School Of Art, a paulista fez uma viagem à Ilha de Monhegan para se encontrar com Homer Boss, um futuro professor. Lá, incentivada pelo “pintor filósofo” e mentor, Anita colocou em prática os traços de modernidade que havia aprendido na Alemanha. Dessa maneira, pintou quadros como Rochedos e o famoso O Farol.

A aproximação de Anita com as vanguardas europeias foi o pontapé para a polêmica exposição de 1917, a primeira mostra de arte moderna do país. “Achei que era natural e mesmo necessário. Apenas não tomei aquilo como uma revolução e nem imaginei o que ia causar mais tarde”, contou também ao A Gazeta. 

O pontapé do modernismo

Apesar da falta de intenção da pintora, a repercussão da Exposição de pintura moderna Anita Malfatti foi grande. Anita contou com o apoio de colegas, chamou a atenção de curiosos e outros artistas, conseguindo até vender algumas obras. Apesar disso, os traços modernos não foram muito bem compreendidos pelo público.

A grandeza foi tanta que Monteiro Lobato questionou se a mostra se tratava de um caso de ‘paranóia ou mistificação’. Publicada no Estado de São Paulo, a crítica rodou o país e acabou atrapalhando as vendas da exposição de Anita. Inclusive, alguns dos quadros chegaram a ser devolvidos pelos compradores.

Para a época, os quadros de Anita geraram estranheza e incomodaram os conservadores da época. O artigo alegava que Anita estava sendo extravagante, levada por modismos europeus. A partir daí, cresceu uma vontade de responder aqueles que tanto defendiam a Arte Acadêmica.

Anita, ao lado de Tarsila do Amaral, Oswald e Mário de Andrade, além de Menotti Del Picchia, fazia parte do Grupo dos Cinco. Sendo assim, ao lado de produções dos outros quatro artistas, vinte obras de Anita foram selecionadas para uma exposição no Teatro Municipal de São Paulo, que aconteceu em 1922: a tal Semana de Arte Moderna

A corda bamba entre o tradicional e o moderno

Apesar do papel incontestável como modernista, Anita não mais pintou com a mesma liberdade característica de seus quadros da exposição de 1917. Além da crítica social, que fez com que a artista limitasse seus traços, ela temia também a crítica da família, amante das artes à moda tradicional.

É consenso crítico que Anita mudou a forma de pintar. Sendo assim, acabou aderindo, mesmo que não completamente, à uma arte mais acadêmica. Continuou pintando por muitos anos, mas nenhuma obra trouxe a mesma radicalidade e ruptura daquelas apresentadas em 1917.

Um bom simbolismo do confronto interno e externo que Anita viveu em sua arte e sua vida, foram as duas relações mais fortes que acompanharam a artista. A primeira e, sem dúvidas, a mais longa, foi com a mãe – artista e defensora da Arte Acadêmica. A segunda foi com seu companheiro da Semana de 22, Mário de Andrade.

Pós 1922

Premiada com a bolsa do Pensionato artístico de São Paulo, Anita saiu do país em 1923. Tendo Paris como destino, a artista ficou em terras francesas por cinco anos, onde continuou produzindo arte, mas se dedicando mais a desenhos de traços finos e mais delimitados. 

Quando retornou a São Paulo, em 1928, o trabalho de Anita já era visto com outros olhos. Considerada como uma grande artista, a pintora já era reconhecida pela influência no Modernismo brasileiro. Dessa maneira, vendeu bastante e despertou interesse.

No mesmo ano, Anita começou a lecionar desenho na Universidade Mackenzie, onde se formou pela primeira vez, e lá ficou até 1933. Posteriormente, a artista também foi responsável por aulas de história da arte.

Nas pinturas quase pós-modernistas, Anita trazia uma arte mais simplista, ainda que com as cores fortes, sua característica mais marcante. Ainda assim, através de suas paisagens e retratos, como ela mesma dizia, era capaz de “interpretar a alma popular”, com seu talento incontestável.

Fim honroso

Anita Malfatti foi reconhecida em vida. Um ano antes de morrer, foi convidada de honra na Bienal Internacional de Arte de São Paulo. Assim, também ganhou com uma sala especial.

Anita faleceu em novembro de 1964, outro ano marcante para a história brasileira. A artista, diretamente responsável pelo crescimento da expressão modernista do país, deixou um trabalho sensível, com identidade forte e uma contribuição desmedida à arte brasileira.

Diário de Anita por Keiny Andrade. Foto: Folhapress
Diário de Anita por Keiny Andrade. Foto: Folhapress

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