Literatura
Viaje dentro de casa: 5 livros para conhecer mais o Brasil
Foto Priscila Natany
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Foto Priscila Natany
Quando não se pode viajar, o melhor remédio é ler. Para te ajudar, selecionamos 5 livros para conhecer melhor o Brasil.
Por Helena Tomaz | Assistente de conteúdo
De Oiapoque ao Chuí, são milhares de histórias, povos e culturas que fazem o Brasil ser o que é. Para te ajudar a conhecê-lo, portanto, selecionamos 5 livros que contam histórias diversas sobre o país.
“A mãe da mãe de sua mãe e suas filhas” traz uma premissa desafiadora: contar as histórias de mulheres de diversas gerações de uma mesma família. Consequentemente, retratando, como pano de fundo, um pouco da história do Brasil, desde o descobrimento.
O interessante da obra de Maria José Silveira é perceber como, com o passar das gerações, começamos a esquecer as nossas origens. Muitas vezes, conhecemos ou ouvimos falar sobre os nossos avós ou, no máximo, bisavós. Não é raro, no entanto, que sequer saibamos o nome dos que vieram antes deles.
O livro mostra como essas histórias vão sendo apagadas. Ao mesmo tempo, aponta que muitas vezes, mesmo sem nos darmos conta, trazemos características dos nossos antepassados. Assim, percebemos como trejeitos, habilidades e personalidades podem se repetir ao longo das gerações, como nossas histórias se cruzam com as daqueles que nos precederam.
É importante pontuar, no entanto, que, apesar de também contar histórias de mulheres negras e indígenas, o livro é narrado a partir de um ponto de vista majoritariamente branco.
Assim, por vezes a autora retrata trechos da história do Brasil, como a invasão portuguesa ou o período de escravidão, de maneira mais tradicional, sem considerar que a personagem retratada provavelmente teria vivido tais experiências de forma diferente.

“Um certo capitão Rodrigo” é um excelente representante da literatura do sul do país. É daqueles que valem ser lidos e relidos, um clássico – por vezes esquecido – da literatura nacional.
Na trama, o forasteiro capitão Rodrigo Cambará chega a Santa Fé, um vilarejo quieto e pequeno do Rio Grande do Sul. O jeito insubordinável do – um tanto quanto cafajeste, vale dizer – personagem incomoda o povo da vila.
No entanto, o incômodo acaba sendo em vão, pois logo ele se casa com Bibiana Terra, uma mulher de família simples, porém tradicional, de Santa Fé. Com isso, finca de vez as raízes na cidade.
O romance de Erico Verissimo configura apenas um dos capítulos de “O continente”, episódio que, por sua vez, integra a trilogia “O tempo e o vento”, uma saga épica pela história do Brasil e do Rio Grande do Sul. A série conta a história da família Terra-Cambará ao longo de 200 anos de sua formação, entre 1745 e 1945.
A história, aliás, foi adaptada para as telas duas vezes: a primeira, em 1971, com Tarcísio Meira na pele do protagonista. Na segunda, no filme lançado em 2012, o papel foi vivido por Thiago Lacerda.
É impossível falar de literatura brasileira contemporânea sem citar um livro que praticamente já nasceu clássico: “Torto Arado”. O primeiro romance de Itamar Vieira Jr. foi publicado no Brasil pela Editora Todavia após vencer o Prêmio Oceanos, uma das maiores láureas da literatura em língua portuguesa, em 2020.
O romance conta a história de Bibiana e Belonísia, duas irmãs que vivem em uma comunidade rural do sertão baiano. Ainda muito jovens, uma delas é vítima de um grave acontecimento, que faz com que uma dependa da outra para sempre, criando uma relação de simbiose.
Ao mesmo tempo em que narra a história das irmãs, “Torto Arado” reflete um Brasil rural, do passado e, também, do presente. A temporalidade do livro, aliás, é algo à parte: ao longo de toda a narrativa, é praticamente impossível definir com precisão em que época ela se passa. Com esse recurso, Itamar Vieira Jr. só nos mostra, mais uma vez, como, apesar de tão antigas, essas narrativas continuam tão vivas e reais.
Desde seu lançamento, em 2019, “Torto Arado” vendeu mais cópias do que qualquer exemplar de literatura nacional contemporânea até então. O livro reuniu fãs – que se autodenominam “Torto Araders”. Diante de tamanho sucesso, a história está sendo adaptada para o formato de série pela HBO e virou música na voz de Rubel, em um álbum que comentamos aqui.

Enquanto os outros livros listados até aqui retratavam o Brasil por meio da ficção, “Quarto de Despejo” traz a realidade vivida na pele da própria autora.
Neste diário, escrito nos anos 1960, Carolina Maria de Jesus compartilha um pouco de seus dias como catadora de papel, mãe solo de três filhos e moradora da favela do Canindé, em São Paulo. A realidade apresentada no livro, apesar de ter sido documentada há quase 50 anos, permanece absolutamente atual. Não é para menos: em 2022, após quase 10 anos fora do mapa da pobreza, o Brasil voltou a aparecer na lista.

Apesar dos trechos que relatam uma realidade duríssima, marcada pela pobreza, pela violência e pela fome, é impossível o leitor não ser afetado pela beleza da escrita de Carolina. Apesar da falta de reconhecimento, Carolina Maria de Jesus foi, sim, uma das maiores autoras brasileiras.
Em 2021, a Companhia das Letras começou a publicar a obra completa da escritora. O primeiro lançamento foi de “Casa de Alvenaria – volume 1: Osasco”. A história narra, também em forma de diário, os meses em que Carolina morou em Osasco, após deixar a favela do Canindé.
O podcast “História Preta” também está lançando, com um episódio por semana e apuração impressionante, a temporada “Carolina”, sobre a biografia da escritora.
Ler “Nunca Houve Um Castelo” é embarcar em uma viagem para o Rio de Janeiro. O romance foi escrito por Martha Batalha, mesma autora de “A vida invisível de Eurídice Gusmão”. Esse primeiro livro, aliás, foi adaptado para o cinema e conta com Fernanda Montenegro e Gregório Duvivier no elenco.
A história de “Nunca Houve Um Castelo”, se inspira em fatos da realidade para construir uma narrativa ficcional. O livro começa em terras distantes, na Suécia, ainda no século XIX.
Na trama, Brigitta e Johan Jansson – cônsul sueco que, de fato, existiu e morou no Brasil – se mudam para terras tupiniquins em função do trabalho dele. Recém chegados, eles decidem construir sua casa em um bairro (até então) vazio e afastado do movimento carioca: Ipanema.
Na trama, Johan Edward Jansson – cônsul sueco que, de fato, existiu e morou no Brasil – e a esposa, Brigitta, se mudam para terras tupiniquins por razões profissionais. Recém chegados, decidem construir a casa em que vão morar em um bairro que, à época, localizava-se afastado do movimento carioca: Ipanema.
Conforme a narrativa avança, a moradia, que ficou conhecida como “Castelinho de Ipanema”, vê as mudanças da cidade. Ela acompanha Ipanema se tornar centro da boemia carioca, o leitor vê as gerações da família Jansson se sucederem.
Assim, a autora cria um paralelo interessante entre as mudanças geracionais que acompanham uma família e as transformações de uma cidade. O livro termina só na década de 1980, o que, portanto, permite ao leitor acompanhar as mudanças políticas e sociais que avassalaram o país naqueles últimos anos da história.
Da Ditadura Militar até a epidemia de HIV, Martha Batalha conduz o livro com o mesmo humor ácido e atento que havia apresentado em “A vida invisível de Eurídice Gusmão”.
Publicado por Helena Tomaz
Publicado em 07/04/23