Teatro

Vestido de Noiva: a obra-prima de Nelson Rodrigues pela visão vanguardista de Ione de Medeiros e o Grupo Oficcina Multimédia

Vestido de Noiva. Foto: Netun Lima

Vestido de Noiva, do Grupo Oficcina Multimédia, fica em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil de BH de 26 de maio a 26 de junho

Por Carol Braga

Aos 80 anos de vida e com mais de 45 anos de carreira somente no Grupo Oficcina Multimédia, a diretora Ione de Medeiros chegou à uma conclusão. “Já fiz muitas coisas subjetivas. Agora eu quero que todo mundo entenda”, diz às vésperas da estreia da nova montagem da companhia. Vestido de Noiva faz temporada no Teatro II do Centro Cultural Banco do Brasil entre 26 de maio e 26 de junho, sempre às 19h. 

Nelson Rodrigues escreveu Vestido de Noiva na década de 1940. É um marco na história do teatro brasileiro e, segundo Ione, até hoje um grande desafio a quem se propõe a encená-la. Para a diretora, uma das grandes forças dessa história é o fato de o texto ser atemporal pois o dramaturgo explora a questão do inconsciente. 

A peça conta a história de Alaíde, uma mulher que acaba de ser atropelada e está em uma mesa de cirurgia, entre a vida e a morte. “Quem está falando é uma pessoa que está totalmente em coma e não tem noção da realidade. Ela está reconstruindo aí, não tem repressão, não tem censura. Então, os desejos vêm à tona”, explica Ione. 

Narrador em Vídeo

A história do GOM com Vestido de Noiva é longa. O projeto nasceu antes da pandemia, logo após a circulação de Boca de Ouro, também de Rodrigues. No entanto, pelo fechamento de todas as atividades, a peça foi interrompida. Ione de Medeiros e os atores do GOM, então, começaram a fazer uma versão em vídeo, que também não foi finalizada. Sendo assim, a peça em cartaz no CCBB-BH mescla experiências de todos os processos. 

“Na pandemia, cada um na sua casa, a gente fez uma uma versão em vídeo dos três atos. Agora juntamos tudo. Então, o vídeo está dialogando com a cena que é uma coisa que eu gosto muito, mas é a primeira vez que eu estou fazendo”, conta Ione. 

Em sintonia com o propósito – e o desejo – de que todos entendam, os personagens do vídeo são narradores/mediadores da trama. Apesar do uso do audiovisual, Ione ressalta: “A peça é ator e texto”. Vestido de Noiva sempre foi desafiador para criadores e público pelo fato da história ser narrada em três tempos (ou dimensões) distintas.

Vestido de Noiva. Foto: Netun Lima

Elenco

Seis atores estão em cena em Vestido de Noiva. São eles: Camila Felix, Henrique Torres Mourão, Jonnatha Horta Fortes, Júnio de Carvalho, Priscila Natany e Victor Velloso. Como é tradição nas montagens do Multimédia, eles se revezam nas cenas entre personagens masculinos e femininos, sem qualquer distinção. 

Todos os elementos de cena são frios e, assim, fazem menção ao ambiente de hospital. São os próprios atores que manipulam mesas e cadeiras desenhando, a cada cena, um novo cenário em diálogo com a tela e a projeção. 

“O texto de Nelson Rodrigues precisa ser muito bem falado porque ele é corriqueiro. Então, isso para não se transformar em uma tragédia e não banalizar tem que ser muito bem falado”, aponta Ione de Medeiros. Para ela, a principal complexidade da peça é o fato de não ser uma narrativa linear. “Ela passa do sonho, da alucinação para a memória, para a realidade”. 

Madame Clessi

De todas as personagens, Ione de Medeiros não esconde a admiração que tem por Madame Clessi, uma fantasma. Antiga prostituta de luxo, ela foi assassinada por um jovem amante em 1905. Durante os delírios do acidente, a protagonista se encontra com Clessi, que morou na casa da onde os pais de Alaíde e Lúcia viveram com os pais. 

Apesar de estar explícito no texto de que Clessi era uma prostituta, Ione se encanta com o fato de não existir alusão direta à sexo. “Quem é a Madame? É uma psicóloga, uma confidente. É uma orientadora, é uma amiga. Uma mulher à frente do tempo, que significa liberdade”. 

Vestido de Noiva. Foto: Netun Lima
Vestido de Noiva. Foto: Netun Lima

História 

A primeira montagem de Vestido de Noiva, em 1943, dirigida por Zbigniew Ziembinski desempenha um papel fundamental na história do teatro brasileiro. A peça marcou a ruptura estética e temática no panorama teatral do país. Com uma estrutura inovadora, entrelaçando três planos narrativos, e abordando questões profundas como a sexualidade reprimida, o inconsciente e a complexidade da condição humana, Vestido de Noiva desafiou as convenções tradicionais do teatro brasileiro da época. 

A direção de Ziembinski acrescentou camadas de simbolismo e intensidade à obra, tornando-a um marco artístico e uma referência para as gerações futuras. Essa montagem, também, evidenciou a importância do texto de Nelson Rodrigues, colocando-o como um dos grandes dramaturgos do Brasil. 

Atualidade

Quando fala sobre a própria montagem, Ione de Medeiros não demonstra expectativas. “Eu sempre me incluo na possibilidade de erro, porque eu arrisco. Sempre acho que pode ser bom e pode não ser. Mas a arte é isso”, diz. Para ela, por exemplo, usar vídeo na encenação tem sido um desafio. 

Segundo ela, Boca de Ouro, a montagem anterior, era fácil de transportar. “Aí eu falei, mas por que eu vou fazer esse teatro tão confortável? Quero vídeo”, conta. Buscar novos caminhos para a encenação é uma constante na carreira de Ione. Ela dirigiu 23 montagens do Oficcina Multimédia, um grupo criado como espaço de experimentação de linguagens. Desde a fundação, a companhia tem como princípio investigar a multiplicidade das informações na encenação, a diversidade das referências para as montagens. Por isso, ouvir Ione de Medeiros falar é sempre uma aula de teatro. 

“Eu sempre me incluo na possibilidade de erro, porque eu arrisco. Sempre acho que pode ser bom e pode não ser. Mas a arte é isso”

Amor ao teatro

Apesar de nutrir um amor profundo pelo teatro, um desejo de sempre fazer diferente, a diretora conta que quando a pandemia estourou e impactou drasticamente todas as atividades artísticas ela chegou a pensar que nunca mais faria teatro. “Primeiro o governo que a gente tinha, não tinha verba, não tinha espaço”. Ou seja: realmente um cenário bem complicado. 

Mas tudo mudou com a aprovação do projeto de Vestido de Noiva no edital do Centro Cultural Banco do Brasil. Depois de Belo Horizonte, a peça vai para São Paulo (17/08 a 24/09), Rio de Janeiro (04 a 29/10) e Brasília (09/11 a 03/12).

Serviço | Vestido de Noiva

De 26 de maio a 26 de junho de 2023, sempre de sexta a segunda-feira

Horário: sempre às 19 horas

Teatro II do Centro Cultural Banco do Brasil Belo Horizonte – CCBB BH | Praça da Liberdade, 450 – Funcionários, Belo Horizonte – MG
R$30 (inteira) / R$15,00 (meia-entrada)

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Publicado por Carol Braga

Publicado em 25/05/23

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Vestido de Noiva. Foto: Netun Lima
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Vestido de Noiva. Foto: Netun Lima

Apoiadores: Lei Rouanet, Instituto AngloGold Ashanti, UNIBH, AngloGold Ashanti, Ministério da Cultura