Este conteúdo também está no portal UAI ↗
Arte Popular

A força criativa do Vale do Jequitinhonha chega a Paris

Artesãos do Vale do Jequitinhonha levam cerca de 150 obras a Paris e apresentam ao mundo a força criativa, a identidade e a ancestralidade da região.

Artistas do Vale do Jequitinhonha vão representar Minas em Paris. Foto: Carol Braga/Culturadoria

Cerca de 150 obras de artesãos de quatro comunidades mineiras serão apresentadas em setembro na Paris Design Week. A participação amplia a circulação internacional da produção do Vale e coloca em evidência uma tradição que combina ancestralidade, identidade e novas possibilidades de mercado.

O artesanato do Vale do Jequitinhonha ganha uma nova frente de circulação internacional em setembro de 2026. Cerca de 150 esculturas produzidas por artistas de quatro comunidades da região serão apresentadas na Maison & Objet, em Paris, uma das principais feiras internacionais de design, decoração e arquitetura. A participação integra a programação da Paris Design Week.

A presença mineira na capital francesa vai além da exposição das peças. Ou seja, o projeto coloca em evidência um processo recente de valorização do artesanato brasileiro, que aproxima a produção tradicional do circuito do design, das galerias e do mercado internacional sem dissociá-la de sua origem.

Internacionalização do Vale do Jequitinhonha

Na Maison & Objet, de 10 a 14 de setembro, os trabalhos serão apresentados a compradores, galeristas, arquitetos, designers, curadores e formadores de opinião de diferentes países. Cinco artesãos acompanharão a programação em Paris: Anísia Lima, Alice Costa, Adriana Xavier, Andréia Andrade e Augusto Ribeiro. Eles representam comunidades que integram um processo de fortalecimento da identidade territorial e de ampliação dos mercados para a produção do Vale.

Sebrae Minas e Governo de Minas Gerais, por meio da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico, promovem a iniciativa em parceria. O trabalho integra uma estratégia de internacionalização que vem sendo construída a partir da qualificação dos artesãos, do fortalecimento da identidade territorial e da abertura de novos mercados.

Mas há uma questão que antecede a internacionalização: o que diferencia o artesanato do Jequitinhonha em um ambiente que reúne produções de dezenas de países? “Identidade, acima de tudo. Não existe nada parecido no mundo”, afirma Marco Aurélio Pulchério, curador da exposição na Maison & Objet.

Identidade como diferencial

Pulchério acredita que a presença da produção artesanal brasileira pode funcionar como elemento de surpresa no mercado externo. Apesar do reconhecimento conquistado no Brasil, segundo ele, o artesanato do país ainda tem circulação internacional restrita.

Sendo assim, a seleção para Paris procura mostrar também a diversidade dessa produção. Como o curador destaca, as tradicionais bonecas estão presentes, mas dividem espaço com esculturas e peças utilitárias que incorporam novas formas e usos.

Então, para Marco Aurélio, inovação e tradição não são conceitos opostos nesse processo. “Há inovação e identidade. Uma mistura de fatores que me dá a certeza desse sucesso”, afirma.

O ponto ajuda a compreender uma transformação mais ampla vivida pela arte popular brasileira. Trabalhos antes associados principalmente ao artesanato regional passaram a ocupar galerias, exposições, projetos de design e coleções, ampliando tanto a circulação quanto o valor econômico.

Essa valorização, no entanto, não significa que o público tenha “descoberto” essa produção recentemente. Pulchério chama atenção justamente para o risco dessa interpretação. “Eu não ‘descobri’ o artesanato do Vale do Jequitinhonha; ele já existia, eu apenas o descobri para mim.”

A frase desloca o significado da chegada a Paris. O reconhecimento internacional amplia o alcance da produção, mas não inaugura a relevância.

Uma história construída por gerações

A dimensão contemporânea do artesanato do Jequitinhonha também está diretamente ligada à transmissão de conhecimento entre gerações. Técnicas e repertórios desenvolvidos principalmente por mulheres continuam sendo apropriados e transformados por filhos, netos e novos artistas.

Augusto Ribeiro, de Santana do Araçuaí, integra a delegação que seguirá para Paris. Seguidor de Dona Izabel Mendes da Cunha, uma das principais referências da cerâmica do Vale, ele levará uma versão da “Noiva”, imagem emblemática criada originalmente pela artista.

Para Augusto, a ancestralidade explica parte da força da produção atual. Dona Izabel também recebeu conhecimentos de mulheres que vieram antes dela e produziam panelas e outros objetos de barro.

A geração contemporânea parte desse legado, mas não se limita a reproduzi-lo. Assim, cada artista incorpora referências próprias, criando novas ramificações para uma tradição construída coletivamente.

“A ancestralidade é o que permite que a gente esteja onde está hoje”, explica Augusto. Para ele, o percurso foi construído por muitas mulheres que avançaram até onde puderam e permitiram que as gerações seguintes pudessem ir além.

A continuidade também aparece como questão econômica. Manter jovens ligados ao artesanato depende de demonstrar que o conhecimento transmitido pelas famílias pode oferecer perspectivas concretas de trabalho e renda.

O artesanato do Jequitinhonha como possibilidade de futuro

Esse é um dos aspectos que Pulchério considera mais relevantes na internacionalização. Para ele, chegar a Paris também pode alterar a percepção dos próprios jovens do Vale sobre a atividade desenvolvida por suas famílias.

“Acho muito importante o papel do jovem dentro dessa cadeia, entendendo que o que a avó dele fez lá atrás funciona para ele hoje em dia também”, afirma.

A questão não é apenas preservar uma tradição. É permitir que continuar no artesanato seja uma escolha profissional possível diante de outras alternativas de trabalho.

“Entender que continuar sendo um artesão é importante para ele é fundamental”, completa o curador.

A trajetória de Anísia Lima ajuda a dimensionar essa transformação. Artesã de Campo Alegre, ela começou a trabalhar com o barro aos oito anos, observando a mãe. Uma de suas primeiras peças foi um pequeno fogão a lenha, levado pela mãe para a feira de Capelinha.

Durante muito tempo, a comercialização ficou concentrada nas feiras locais. Hoje, segundo Anísia, cerca de 80% da renda de sua família vem do artesanato.

A chegada a Paris representa uma escala que gerações anteriores dificilmente poderiam prever. “O sonho das nossas avós era ver o nosso artesanato expandir. Mas acho que elas não imaginavam tanto”, disse durante a apresentação do projeto.

Da feira local ao mercado internacional

A internacionalização é parte de um processo de estruturação comercial desenvolvido há mais de duas décadas na região. O Sebrae Minas informa que atualmente atende cerca de 120 artesãos do Vale do Jequitinhonha.

Em 2019, foi criado o projeto Identidade e Origem, voltado à valorização dos elementos culturais do território. Em 2021, surgiu a marca Território Vale do Jequitinhonha.

Segundo dados divulgados pelo Sebrae, as ações de valorização do saber local, qualificação e acesso a mercado contribuíram para um crescimento médio de 30% no faturamento dos participantes. Aproximadamente R$ 2,5 milhões foram movimentados em vendas nos últimos anos.

O movimento mostra como cultura e economia estão diretamente relacionadas nesse território. O artesanato preserva conhecimentos e referências culturais, mas também sustenta famílias e cria possibilidades de permanência nas comunidades.

Por isso, a circulação internacional interessa não apenas pelo reconhecimento simbólico. Ela pode, por exemplo, aumentar o valor agregado das peças, ampliar compradores e inserir os produtores em circuitos comerciais aos quais dificilmente teriam acesso individualmente.

O Vale em dois espaços de Paris

Além da Maison & Objet, o artesanato do Jequitinhonha ocupará outro endereço durante a Paris Design Week. A Ricardo Fernandes Gallery recebe, de 8 a 18 de setembro, a exposição “A Terra Modelada pela Arte – Vale do Jequitinhonha”.

Com curadoria do galerista Ricardo Fernandes, a mostra amplia a presença dos trabalhos para além do ambiente comercial da feira. A proposta é aproximar a produção do Vale do circuito de galerias, curadores e instituições culturais.

A participação nos dois espaços coloca o artesanato em interlocução com mercados diferentes e amplia as possibilidades de circulação após setembro.

Para Augusto Ribeiro, a presença em Paris deve servir justamente para abrir novos caminhos. Ele define os artistas que viajam como “sementes do Vale do Jequitinhonha”, capazes de gerar novas oportunidades a partir dessa experiência.

É uma definição que também ajuda a colocar a internacionalização em perspectiva. Paris não é o ponto em que a arte do Jequitinhonha passa a ter valor. É uma nova etapa de circulação de uma produção que construiu identidade, repertório e importância econômica dentro do próprio território.

Agora, o desafio é fazer essa história alcançar novos públicos sem perder justamente aquilo que a tornou reconhecível: sua origem.

Inscreva-se no nosso canal no WhatsApp

Participe do nosso canal no Whatsapp e receba as novidades em primeira mão!

QUERO PARTICIPAR
Inscreva-se no nosso canal no WhatsApp

Publicado por Carol Braga

Publicado em 20/08/26

Compartilhar nos Stories

Você também vai gostar de

Apoiadores: Lei Rouanet, Instituto AngloGold Ashanti, UNIBH, AngloGold Ashanti, Ministério da Cultura