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Tremembé: entre o crime e a sobrevivência, vale a pena assistir?

A produção do Prime Video revisita crimes famosos e provoca reflexões sobre poder, desejo e sobrevivência dentro da prisão. Um retrato incômodo da vida após a culpa.

Tremembé | Foto: Stella Carvalho

Lançada pelo Prime Video, Tremembé revisita crimes que marcaram o país. Mas a série não se limita à reconstituição dos fatos. O interesse aqui está no depois: em como essas pessoas, todas conhecidas nacionalmente por atos brutais,  vivem, se relacionam e tentam continuar sendo quem são dentro da prisão.

A trama se passa na Penitenciária II de Tremembé, conhecida como “a prisão dos famosos”. Lá estão Suzane von Richthofen, Elize Matsunaga, Anna Carolina Jatobá e os irmãos Daniel e Christian Cravinhos. O crime é o que define cada um deles. Ou seja, é o motivo da condenação e o peso que jamais deixará de existir. Ainda assim, o que a série mostra é como a individualidade resiste, mesmo em um ambiente que tenta padronizar e silenciar. São personalidades tão marcadas que encontram brechas para se afirmar e continuar existindo entre os muros da penitenciária.

Desejo, poder e a vida que pulsa dentro do cárcere

É interessante ver como a série de ficção lida com a energia do desejo. Não há cenas explícitas, nem exploração do corpo. O que há é uma tensão constante que atravessa os personagens, seja ela afetiva, psicológica, às vezes silenciosa. Essa energia revela as dinâmicas de poder e a necessidade de afeto em um lugar onde o contato humano é raro e vigiado. Na ala feminina e na masculina, surgem casais improváveis, marcados por solidão e pela tentativa de sentir algo vivo no confinamento.

Entre os homens, como Christian Cravinhos (Kelner Macêdo) e Luka (João Pedro Mariano), o desejo aparece como fuga, um modo de continuar humano. Esses relacionamentos são cheios de camadas. Tem carência, companhia, reconhecimento. O prazer é apenas a superfície de um sistema emocional muito mais profundo.

Já na ala feminina, a série constrói um triângulo tenso entre Suzane von Richthofen (Marina Ruy Barbosa), Sandrão (Letícia Rodrigues) e Elize Matsunaga (Carol Garcia). Aqui, o amor está muito mais ligado à proteção do que ao prazer. O afeto funciona como estratégia de segurança e pertencimento em um ambiente hostil. Amar, nesse contexto, é sobreviver.

Elenco, direção e um tom que evita o sensacionalismo

Outro ponto que sustenta a força da série é o elenco. Tremembé é uma daquelas produções em que o espectador demora alguns minutos para identificar os atores — um mérito. Marina Ruy Barbosa (Suzane), Carol Garcia (Elize), Bianca Comparato (Anna Carolina Jatobá), Felipe Simas (Daniel Cravinhos), Kelner Macêdo (Christian Cravinhos), Letícia Rodrigues (Sandrão), Lucas Oradovschi (Alexandre Nardoni) e Anselmo Vasconcelos (Roger Abdelmassih) interpretam figuras reais sem recorrer à caricatura.

A direção de Vera Egito e o roteiro assinado por Ulisses Campbell, Juliana Rosenthal, Thays Berbe e Maria Isabel Iorio mantêm a tensão em um tom contido, sem excessos, mas sempre incômodo. A ficção e o real se misturam em um ritmo que evita o sensacionalismo e convida à observação — o olhar é duro, mas nunca gratuito.

O humano que resiste, o corte que frustra

Há, talvez, uma tentativa de apresentar um olhar menos moralista sobre quem cometeu crimes. Ainda assim, o delito continua sendo o que define o destino dessas pessoas, dentro e fora da prisão. Tremembé não absolve ninguém. O que a série faz é deslocar o foco: mostra o que se faz com o erro depois da condenação. A penitenciária se torna o cenário onde o humano resiste — às vezes pela fé, às vezes pelo corpo.

Apesar da densidade dos temas, a série deixa uma sensação de interrupção. Com apenas cinco episódios, Tremembé termina de forma abrupta, quase cortada. O espectador é deixado em suspensão, como se o mergulho naquelas histórias tivesse sido interrompido no meio.

E, afinal, vale assistir?

Vale, desde que se vá com a expectativa certa. Tremembé não entrega uma narrativa redonda nem um final satisfatório. O que ela oferece é incômodo e tensão constante. Vale pela observação humana, pela direção precisa e por transformar o cárcere em um espelho do nosso próprio desejo de julgar, vigiar e entender.

Mais do que entretenimento, Tremembé é um retrato daquilo que preferimos não ver: a vida que continua, mesmo dentro da culpa.

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Publicado por Carol Braga

Publicado em 12/11/25

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Tremembé | Foto: Stella Carvalho