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“Você tem que ser pessoa e não peça de algoritmo”: Teresa Cristina fala sobre samba, IA e novo disco

Prestes a se apresentar no Festival de Cultura Popular, em Ouro Preto, a sambista reflete sobre a crueldade dos algoritmos, detalha seu tributo a Zeca Pagodinho e anuncia a urgência para lançar seu novo disco autoral

Teresa Cristina | Foto: Leo Aversa

A terceira edição do Festival de Cultura Popular transforma ruas, praças e palcos em espaços de partilha. O evento será entre os dias 19 e 24 de maio, com programação gratuita. As atividades ocupam os distritos de Glaura e Antônio Pereira, em Ouro Preto, e Cachoeira do Brumado, em Mariana. A cultura se manifesta como experiência viva, cotidiana e profundamente brasileira neste cenário. É com esse forte gancho que a cantora Teresa Cristina desembarca em Minas Gerais.

A artista é uma das atrações deste sábado, 23 de maio. Ela apresenta o show dedicado ao álbum Jessé, as canções de Zeca Pagodinho, no distrito de Glaura, lugarejo que fica a 80 km de Belo Horizonte. 

Teresa revela estar ansiosa e curiosa para conhecer o distrito. A apresentação, no entanto, vai muito além do entretenimento. Trata-se de um forte ato de resistência cultural. Em entrevista exclusiva, a cantora lamentou a marginalização do samba em grandes eventos. Frequentemente, os festivais priorizam a MPB, pagando cachês mais altos e oferecendo tratamentos superiores a esses artistas. “O samba chega como se fosse o primo pobre”, desabafa a sambista.

Essa exclusão nos palcos reflete um mercado musical cada vez mais adoecido. A compreensão sobre o que é cultura popular precisa ser urgentemente revista. Hoje, vivemos realidades distópicas onde o gosto e o sucesso são ditados pela imposição das máquinas.

A crueldade dos algoritmos e a ditadura dos 46 segundos

Os algoritmos de recomendação não têm nada de abstratos. Eles operam com uma matemática impositiva que muitas vezes escraviza os músicos. Teresa relata uma experiência recente vivida durante uma turnê no interior de São Paulo. Ao chegar a um bar para descansar, notou que a televisão tocava apenas música sertaneja em looping na calçada. Ao pedir para diversificar o som, ouviu que o dono proibia a execução de samba no local.

A resposta da artista foi imediata. Ela e sua banda de mulheres iniciaram um pagode acústico ali mesmo, batendo palmas na mesa. A luta, contudo, segue desleal. Os sambistas não contam com as mesmas “armas” mercadológicas, como bares tocando suas canções ininterruptamente. Para a cantora, nem o realismo fantástico da clássica novela Saramandaia consegue dar conta de retratar essa violenta distopia digital. O avanço da inteligência artificial piora o cenário. A IA apenas copia o que já existe, cabendo aos verdadeiros criadores a missão de inventar o inédito humano.

Outro sintoma grave dessa distopia contemporânea é a imposição de “músicas em pílulas”. A artista relatou profundo choque ao descobrir que as canções de um show recente da cantora Shakira duravam em média apenas 46 segundos. Trata-se de um formato direto para viralizar no TikTok. Para Teresa Cristina, ninguém deve ser definido por uma faixa tão curta, pois o verdadeiro álbum precisa contar uma história inteira.

A estética do “possível” em Jessé e a urgência do disco autoral

Foi justamente para contar histórias densas que a sambista lançou o álbum “Jessé” em janeiro, show que ela apresenta em Minas. O projeto reverencia a obra de Zeca Pagodinho. Com novos arranjos de Pretinho da Serrinha, o disco exalta a genialidade ofuscada do Zeca compositor. A parte visual também funciona como um manifesto contundente. A estética da capa une ícones como o filtro de barro e o tapete de fuxico a um majestoso figurino afrofuturista.

De acordo com a cantora, a intenção foi retratar a verdadeira alma do subúrbio carioca. Para a Teresa, o filtro de barro representa a arquitetura do “possível” nas residências do Brasil. A imagem traz a lembrança nostálgica do “quintal de caquinho” e da convivência na rua, hábitos que a violência foi nos roubando de forma invisível.

Com o disco rodando o país, a artista agora volta toda a sua energia criativa para um novo passo. Seu aguardado álbum 100% autoral chegará ao público entre agosto e setembro. Dois singles saem agora entre maio e junho para cumprir exigências burocráticas do Grammy. Cantar as próprias melodias trouxe uma enorme libertação emocional. “Todo medo, insegurança, covardia que eu senti já veio e já foi. O que eu sinto agora é uma urgência”, confessa a artista.

O pacto invisível e a programação do Festival

Como a arte sobrevive a essa avalanche comercial? A resposta está exclusivamente na força da conexão humana. O maior desafio atual da cultura popular brasileira é firmar um “pacto invisível” de valorização entre o artista e seu público. As pessoas precisam se recusar a ser apenas peças operacionais de um algoritmo. É fundamental comparecer fisicamente aos shows e consumir materiais de forma consciente para manter a cultura viva.

O Festival de Cultura Popular surge exatamente como o palco perfeito para selar esse compromisso. O evento convida o público a se desconectar das telas e viver as ruas de Minas Gerais. 

Confira abaixo a programação completa do festival:

Terça a quinta-feira, 19 a 21 de maio – Ouro Preto

  • 13h às 17h – Oficina Pedagogias Brasileiras do Ritmo, Museu Boulieu

Quinta-feira, 21 de maio – Ouro Preto

  • 19h às 21h – Palestra “O Espírito do Samba”, Casa da Ópera

Sexta-feira, 22 de maio – Glaura

  • 18h – Abertura da feira gastronômica e de artesanato
  • 19h30 – Samba em Revista, com Manu Dias

Sábado, 23 de maio – Glaura

  • 12h às 22h – Feira gastronômica e de artesanato com DJs
  • 13h às 14h – Apresentação musical resultado da oficina
  • 14h30 às 15h30 – Cortejo Unidos da Boa Viagem
  • 16h30 às 18h – Dona Zélia do Prato convida Herança Ancestral
  • 19h30 às 20h45 – Teresa Cristina

Sábado, 23 de maio – Cachoeira do Brumado

  • 16h às 17h – Espetáculo “Eh Boi”, Grupo Kabana

Domingo, 24 de maio – Antônio Pereira

  • 11h às 12h – Espetáculo “Eh Boi”, Grupo Kabana
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Publicado por Carol Braga

Publicado em 19/05/26

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