Literatura

Em novo romance, Stefano Volp investiga masculinidade violenta em dinâmicas familiares

“Santo de casa”, publicado pela Record, retrata reencontro familiar após a morte do patriarca

Stefano Volp FOTO Victor Vieira

Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura

“Na rua um santo, em casa o diabo”. Duas faces de uma mesma moeda. Ou, melhor, duas faces de um mesmo homem. Pai, marido, amigo, vizinho. Todos esses papéis cabiam a Zé Maria, um querido morador de uma pequena comunidade brasileira. O dom da cura pelas plantas parecia emanar das mãos do homem. Mas, essas mesmas mãos de cura, eram mãos de fúria. Sobretudo no corpo combalido da companheira de toda uma vida. “Santo de casa” é o novo romance de Stefano Volp, publicado pela Editora Record.

Reencontro familiar

Um velório cheio de amigos e vizinhos, mas vazio de família. É assim que o corpo deste pai de família é recebido no ritual fúnebre que precede o enterro, a despedida final. Zé Maria sofreu um repentino e fatal ataque de uma onça, numa região cercada pelo verde da natureza e também por aquilo o que se esconde, se camufla neste cenário. Com a morte do pai, três irmãos — Alan, Alex e Betina — retornam à casa da família. Uma casa ocupada, agora, apenas pela mãe, Rute. O reencontro deste pequeno núcleo familiar sob um mesmo teto causa fissuras em sentimentos represados há muito tempo. Morte e esquecimento não são sinônimos.

“quando o seu filho mais novo te perguntou o que a senhora sentia agora que o pai dos seus filhos tinha morrido, você disse nada. nada? como pode não sentir nada por alguém que passou a vida inteira ao seu lado e terminou a vida rasgado pelos dentes de um bicho.”

Luto, trauma e masculinidade tóxica

“Santo de casa” é um romance sensível sobre o luto, o trauma familiar e uma masculinidade tóxica e violenta que segue presente sob diferentes contextos, especialmente quando pensamos em dinâmicas familiares. Acompanhamos a lenta desintegração de uma família frente ao medo e uma violência que é tanto física quanto simbólica, num ciclo vicioso, marcado pela repetição de padrões e comportamentos. 

Stefano Volp constrói um retrato genuíno de uma realidade comum, numa escrita reflexiva e marcadamente poética, mergulhando no íntimo de cada peça deste quebra-cabeça doméstico. Longe de um olhar maniqueísta para relações familiares marcadas pela violência doméstica, o escritor constrói personagens profundamente humanos, no íntimo dos quais persistem tanto o medo, a mágoa e o arrependimento, quanto o amor e um afeto que ultrapassa justificativas ou explicações. 

Encontre “Santo de casa” aqui.

Gabriel Pinheiro é jornalista e crítico de literatura. Escreve aqui no Culturadoria e também em seu Instagram: @tgpgabriel (https://www.instagram.com/tgpgabriel)

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Publicado por Carol Braga

Publicado em 17/02/25

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