Literatura

Resenha de Selva, romance de Paulo Freire

Músico e escritor Paulo Freire lança o livro Selva. Foto: Isabela Senatore

Paulo Freire, músico, compositor e escritor, tem uma extensa e intensa história de trabalho dedicado à música e à cultura popular e lança o romance Selva, pela Bambual editora

A mulher que queria ser árvore

Por João Paulo Cunha | Colaborador

O romance Selva, do músico, compositor e escritor Paulo Freire, traz uma série de questões sobre o papel da arte em diálogo com os impasses do nosso tempo. Neste sentido, vai muito além de uma obra a ser considerada apenas pelas vias do enredo e da forma. Há um forte sentido de cura que parte hoje de todas as formas de cultura, para o qual o livro parece contribuir como uma obra de criação, ao mesmo tempo em que tematiza esse impulso para a necessidade de mudança. Mais que um romance de formação de uma alma, é um livro sobre a transformação de um tempo.

Paulo Freire tem uma extensa e intensa história de trabalho dedicado à música e à cultura popular. Sua relação com Mestre Manelim, violeiro do Norte de Minas a quem se oferece como discípulo depois da leitura epifânica de Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, tem aspectos singulares, pela inversão da via habitual, já que Freire vinha de formação em violão, no país e no exterior e se entrega ao aprendizado com um músico popular, intuitivo, embora extremamente sofisticado em sua criação, técnica e conhecimento da tradição.

Sua atitude vai manifestar respeito à cultura popular, mesmo considerada por muitos como tradicional e congelada no tempo, pela valorização de uma forma de relacionamento que mescla ética e estética, um elo que veio se esgarçando com a primazia do mercado como único parâmetro. O que poderia parecer no primeiro momento a evocação de um mito da transmissão do saber, presente em várias culturas, é, na verdade, a expressão de respeito pela arte viva.

Aprendiz

A maneira como Paulo Freire passou a apresentar o trabalho do violeiro Manelim, em espetáculos, discos e depoimentos, sempre foi muito verdadeira. O mais fácil seria folclorizar o artista, com um olhar compreensivo, mas superior, como se o reconhecimento da qualidade da criação por parte de um artista virtuose com trajetória acadêmica fosse maior que a obra em si. Fugir dessa armadilha condescendente exigiu coragem e humildade. Sem falar na decisão de se entregar verdadeiramente à aprendizagem. Como numa espécie de etnomusicologia pelo avesso, ou, seguindo a inspiração de seu xará, o gesto de um educador que reconhece que precisa ser educado.

Quando passou a integrar a palavra falada em seus espetáculos, o caminho do músico se ampliou. Inicialmente pelo fato de as estórias se interligarem aos temas musicais de forma orgânica, como derivação da narrativa a partir de outros elementos. Em seguida, pelo fato de dar estatuto de arte a um modo de compartilhamento tão natural como o da música, embora menos considerado pelo registro culto. Todos aceitam a expressão “música popular”, mas não é habitual falar em “literatura popular” com o mesmo grau de reconhecimento. Os causos, dessa maneira, são mais que reconstrução de uma mítica e de uma oralidade singular: são um trajeto que conflui com a música para a mesma vereda.

Quebra de expectativas

Talvez por isso, a expectativa em relação ao novo romance de Paulo Freire se dirigisse à verve das histórias orais, da memória coletiva de uma região e da arte de narrar mais visceral, olho no olho, que vem sendo deixada de lado, como certa vez descreveu o “sertanejo” alemão Walter Benjamin no ensaio O narrador. O leitor poderia pensar que seria jogado no mergulho num rio de estórias, conduzido por outros mestres (talvez com Rosa como inspiração maior), que mimetizaria, como nos discos, uma forma de reconhecimento da beleza, dessa vez pela arte da palavra de uma cultura que merecia ser resgatada. Seria um caminho lindo e necessário. Mas, ainda assim, previsível.

Um livro a caminho

O romance, entretanto, se revela como uma surpresa. Uma boa surpresa. Selva é um livro para quem não descansou na loucura, trazendo fórmulas consagradas, ainda que sejam as da recusa. Não se trata de uma fuga, pelo contrário, é um romance a caminho, que provoca e tira a paz. O itinerário da personagem Selva, em sua busca iniciática em direção à vida, a obriga a deixar as certezas de lado. Para contar sua história, Paulo Freire tinha garantia alguma e foi preciso se jogar na estrada. E levar o leitor junto.

Selva narra a busca de uma mulher pela sabedoria das plantas, pela medicina ancestral que reemerge em meio à crise sanitária contemporânea, pelo acesso à tradição pela experiência direta com os mestres. Uma viagem em direção ao sentido, com os percalços do dia a dia, as dores pessoais, as marcas fortes do contexto social. E os amores. Os signos da vida e da morte se alternam em sua trajetória, que atravessa o tempo e os dramas pessoais e coletivos.

Musicalidade em prosa

Os causos estão lá. A realidade social está presente o tempo todo, em sua crueza e violência. As ambiguidades psicológicas e angústias não dão descanso às personagens. A crença de que falta algo para dar sentido ao mundo calça toda a narrativa. A sabedoria metafísica e espiritual surge na voz das pessoas que costumam não ser vistas. O amor tem seu poder redentor, mas sem qualquer garantia prévia. O poder mostra sua mancha poluidora mesmo sem ser convocado. Em resumo, tudo que se espera de um bom romance realista, psicológico, lírico, popular e político.

A habilidade em tramar os fios, numa linguagem transparente e com encadeamento astuto das estórias, joga sempre com o tempo. Sem pressa. Apresentando aqui o que vai ser retomado lá na frente. Compondo aos poucos o perfil complexo dos personagens mais ricos, como Selva, Luduvina e Teófilo. Há uma musicalidade na prosa, mas que não busca cortar o fluxo mais próximo da fala do dia a dia. No tempo certo, sem o julgamento do narrador a cada passagem, nem as demasias do estilo a se sobrepor à história. Como uma paisagem de vereda: clara, mas com água ao fundo para dar a impressão de um brilho natural a ser decifrado.

Cancioneiro

A música está sempre presente. Alguns versos de canções populares entram em cena para pontuar momentos marcantes da narrativa. Como um recado da terra. Um facho de fogo. Para entrar mais fundo no jogo da intertextualidade, cada capítulo ganha uma trilha sonora própria, em temas originais para viola, que podem ser acessados por código impresso de acesso.

Uma ousadia oportuna foi a decisão de fazer conversar as várias formas de vida, da urbana à tradicional rural, sem qualquer forma de preconceito ou escala de valor. Até mesmo os tabus mais arraigados e silenciados. A cidade não é mais moderna que o meio rural. O sertão não é mais ingênuo que a urbe. As formas de amar, se relacionar, se divertir, ganhar a vida, perder a vida – são todas essas emanações do humano, sem GPS. São espaços existenciais contíguos, que atravessam a mesma temporalidade. O homem é contemporâneo do homem.

Além disso, alguns impulsos dados como superados, como a busca da vida comunitária, a crítica ao materialismo e certa revolta anárquica, não foram varridos do mapa afetivo das pessoas. A crítica da sociedade administrada não é propriedade de uma ideologia política; a capacidade de reação não é patrimônio das instituições convencionais; o humanismo não deriva apenas dos gestos ditos civilizados ou piedosos. Há uma corrente alternativa, vitalista e até meio louca, que parecia adormecida esperando a hora de reativar suas utopias, só que dessa vez com a consciência de seus impasses, sem que isso a proteja dos mesmos descaminhos.

Desertos de mundo em Selva

O amor, o sexo, o corpo, a vida acadêmica, a condução dos negócios, os hippies de ontem e os desalentados de hoje, a busca de realização pessoal, a forma de tratar os velhos, a violência contra a mulher, o tabu da morte, a ambição que destrói e mói os homens, a ecologia e a farsa ecológica, a medicina que mata e despreza o saber ancestral, a peste de ontem e a de hoje – nenhuma dessas questões está resolvida. Selva atravessa esses e outros desertos de um mundo tão orgulhoso como desconhecido; tão poderoso como injusto; tão rico como miserável.

Quando os dilemas se tornam tão críticos que ameaçam ocupar todos os territórios da sensibilidade e da inteligência, parece que a tarefa dada é a da sobrevivência, seja ela física, metafísica ou política. É o que se acompanha na imprensa, na academia, nas redes sociais. No entanto, talvez a forma de apresentar a questão acabe por dirigir as possibilidades de resposta. 

Para sair dessa armadilha é preciso cair na vida. Selva recoloca perguntas muito essenciais e por isso abre outros caminhos para manter acesa a capacidade de reagir. Um compromisso e um gesto de liberdade. Há muito o que fazer antes de merecer a tempestade.

Músico e escritor Paulo Freire lança o livro Selva. Foto: Isabela Senatore
Músico e escritor Paulo Freire lança o livro Selva. Foto: Isabela Senatore
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Publicado por Por João Paulo Cunha | Colaborador

Publicado em 26/08/22

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