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Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Por que eu gostei tanto do podcast “Praia dos Ossos” e acho que todo mundo deveria ouvir?

Produção da Rádio Novelo reconstitui o assassinato de Ângela Diniz em oito episódios que nos fazem ir além do crime em si e refletir sobre a sociedade brasileira

Por Carol Braga

24/11/2020 às 09:05

Publicidade - Portal UAI
Foto: Rádio Novelo / Divulgação

Bastaram segundos. O som da caminhada. O tom da conversa. O barulho do mar. Pronto. Poucos minutos de áudio e já estava totalmente entregue a Praia dos Ossos, minissérie em podcast idealizada e apresentada por Branca Vianna. É uma produção da Rádio Novelo, uma empresa especializada no formato, com sede no Rio de Janeiro.  Se você for como eu, apaixonada por podcasts, deveria ficar de ouvido atento ao que eles produzem. 

A produção reconstitui o assassinato de Ângela Diniz. Sim, aquela socialite que morreu em Búzios. A pantera de Minas, como era chamada, foi morta a tiros em dezembro de 1976 por Doca Street em uma casinha na Praia dos Ossos, em Búzios. Daí o nome. Quem é mineiro, mesmo que de outra geração, já soube disso.

O projeto é uma aula de jornalismo, de pesquisa e de investigação. Não é curto. São oito episódios, cada um com cerca de uma hora de duração. Vale cada minuto. Além do crime em si, aborda o comportamento da época, a tradicional família mineira, o julgamento, o patriarcado, o feminismo e a diferença de classes. Enfim, levanta discussões que ultrapassam a personagem protagonista. Praia dos Ossos faz refletir sobre as transformações – ou não – da sociedade brasileira nos últimos 40 anos. Se todo ouvinte chegar ao final dos cerca de 480 minutos pensando, bingo!

True crime

Praia dos Ossos é um digno representante nacional de um gênero de podcasts que fez o formato explodir nos Estados Unidos. É conhecido como true crime, ou seja, são narrativas sobre crimes reais acompanhadas de um processo de investigação jornalística. Uma longa investigação, diga-se de passagem. As pesquisas começaram em janeiro de 2019 e o projeto estreou em outubro de 2020. 

Não podemos dizer que Praia dos Ossos seja pioneiro no gênero no Brasil. Mas, na minha opinião, tem uma característica que me fez dar mais ouvidos a ele do que aos colegas: o tom da fala. Não vou nem chamar de locução. Está mais para uma conversa. Sabe aquela voz que quase te hiptontiza? Pois é.

Podcast na essência

Podcast não é rádio, gente. E por mais que também reconstitua uma situação, não estamos falando de um documentário. Entender a particularidade do formato e explorar ao máximo suas potencialidades é um dos méritos de Praia dos Ossos. O projeto sabe usar o áudio e a imaginação do ouvinte a seu favor. Por exemplo, cochichos, passos, chamadas de telefones não atendidas, tudo vira elemento. 

O tom de voz da apresentadora Branca Vianna contribui muito para isso. Ela fala de uma maneira tão próxima que nos faz sentir cúmplices daquela jornada. Ah, tem isso também. Branca passa a impressão de que não é apenas um trabalho jornalístico tratado com distanciamento. É uma investigação que importa e tem a acrescentar à nossa sociedade de hoje. É uma missão e assim nos faz embarcar com ela. Ela não esconde: foi um trabalho bastante complexo.

Roteiro

Mas não adiantaria de nada ter 80 horas de gravação, cerca de 50 entrevistados se não houvesse um bom roteiro. E ele não é assinado por uma pessoa, mas uma equipe. Pode reparar: não vai ter uma fala que sobre. Os trechos das entrevistas parecem ter sido milimetricamente escolhidos para compor um quebra-cabeças gigantesco. Cada fala é associada a uma trilha sonora original que contribui milimetricamente para criar climas, ressaltar tensões e daí por diante. Claro que para se fazer isso precisa de gente, muita gente. 

Proposta transmídia 

O site oficial do projeto reúne o material da pesquisa. Isso dá ao projeto uma aura transmídia. Ou seja, há uma expansão do conteúdo. A narrativa dos podcasts se complementa com fotos, textos e outros elementos que fizeram parte da vida de Ângela Diniz e de todos os envolvidos no tema principal do projeto. 

Assim, Praia dos Ossos é mais uma prova de que jornalismo bem feito também precisa de profissionais competentes. Flora Thomson-DeVeaux fez a pesquisa mas também participou, junto com Paula Scarpin, do tratamento do roteiro elaborado por Aurélio de Aragão e Rafael Spínola. Isso mesmo: tem um time de quatro roteiristas. Isso sem contar nas equipes de criação, captação, divulgação. Ao final de cada episódio, dedique alguns minutos para conferir a ficha técnica. É chocante! 

Bom, depois de tantos adjetivos, nos resta mesmo parabenizar cada um da equipe. Que mais podcasts assim apareçam na nossa podosfera.

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