Pintura, música e autoconhecimento
Desenho de Denise Maria, aluna do Atelier Marcos Lima
Desenho de Denise Maria, aluna do Atelier Marcos Lima
Por meio de técnicas e práticas relacionadas à psicologia, expressões artísticas tornam-se grandes aliadas do controle à ansiedade
Por Tiago Rodrigues I Participante do Projeto Culturadoria em Rede
“A poesia, a música ou uma pintura não salvam o mundo, mas salvam o minuto. Isso é suficiente”. Ao citar a poeta portuguesa Matilde Campilho, trago à tona o termo “arteterapia”, atividade em que as expressões artísticas auxiliam em processos de cura – alternativa a quem procura se sentir melhor, interna e externamente, diante dos males da vida.
Em um charmoso pedaço de rua em Belo Horizonte, atrás do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), no bairro Funcionários, fica o espaço cuja energia “te puxa para dentro”. Trata-se do Atelier Marcos Lima, nome do professor e fundador da escola de pintura e desenho que usa abordagem voltada à arteterapia.
Aos 52 anos, Marcos explica que o intuito é ensinar a técnica aos aprendizes, para que consigam se expressar com mais clareza, e com estilo próprio. Para ele, o processo é mais importante que o resultado. Qualquer um pode aprender em seu tempo, sem se sentir pressionado. Além disso, o dom não é fator preponderante para as manifestações artísticas.
Com três décadas e meia de trabalhos como pintor, desenhista e professor, Marcos usa a arteterapia para levar os alunos ao autoconhecimento: “Aqui, a gente quer sair do terapêutico convencional, e quer trabalhar a pessoa de dentro para fora. Você se conhece por meio da arte, junto à técnica, conseguindo, de fato, se expressar”, esclarece.
A faixa etária dos estudantes varia entre 13 e 90 anos. Muitas são pessoas que, quando jovens, não tiveram chance ou tempo de aprender a desenhar ou pintar. Contudo, destaca Marcos, o Atelier também é procurado por quem deseja tratar de síndrome do pânico, hiperatividade, ansiedade ou depressão.
Por estar no espectro autista, uma aluna da escola não emitia palavras, nem se relacionava com a turma. Com o passar do tempo, tudo mudou. “Quando chegou aqui, ela não nos olhava nos olhos. Agora, já fez duas exposições individuais, conta piada para todo o atelier, e se transformou em outra pessoa, alegre e divertida”, comemora Marcos.
Antes mesmo de as pessoas ousarem seus primeiros traços, as paredes coloridas convidam os presentes a entrar em estado de meditação artística. Por todos os lados, há quadros com distintos estilos e técnicas de pintura – o que inclui uma representação da Monalisa, retratos de personalidades, colagens e muito mais.
“São três horas de aula. Há meditação diante do desenho e da pintura que os alunos desejam realizar. É preciso concentração. Assim, deixam de focar nos problemas externos e se dedicam à obra diante deles”, explica o professor.
Dentre as dinâmicas propostas, Lima exalta a “hora do chá”, quando todos se reúnem para degustar a bebida e ler mensagens uns para os outros. É uma espécie de terapia em grupo, para trocar experiências, sem julgamento, e estreitar os laços de amizade.
Diante da popularidade de programas de inteligência artificial, o artista faz um paralelo com a época em que a máquina fotográfica surgiu, ameaçando o trabalho dos pintores. “Não podemos abandonar as tecnologias do mundo. Quando bem aplicada, ela é muito bacana. O problema está no uso excessivo”, defende Marcos.
A seu ver, muitos não entram nas redes sociais por pensar que lá está repleta de bobagens. “Mas tem muita arte e coisa boa. Procure páginas, artistas e matérias edificantes e entre em sintonia com essas pessoas”, reforça, ao enfatizar, porém, que, durante a aula, o celular deve ficar bem guardado, ou ser usado para fins de estudo.
É bom esclarecer que Marcos Lima não realiza terapias como profissional da psicologia. Contudo, por meio de estudos e informações obtidas com Myrthes, psicóloga e esposa do professor, ele moldou um formato de aproximação e atenção para com os alunos. Em casos mais complexos, chega a indicar acompanhamento psicológico ao aprendiz de arte.
A empreendedora e artista Denize Maria Souza (Instagram: @dmsart1), de 51 anos, é aluna do Atelier Marcos Lima desde 2019. Ela chegou ao local em busca de “autoconhecimento, para acalmar a mente, que andava muito acelerada”.
Antes de conversar com a artista, pude observar-lá pintando. Meticulosa, ela acrescentava, lentamente, uma série de detalhes à obra. A figura representada por Denize é uma mulher com cabelos longos e vermelhos. Na verdade, são raízes. E os braços têm a forma de galhos de árvore. “Estou fazendo um oráculo para as mulheres. De acordo com o que for desenvolver na pintura, escrevo, na tela, qual foi meu sentimento no processo”, detalha.
A cada pincelada, ela parece comemorar com o olhar. “Toda vez em que termino um trabalho, fico surpresa com o que fiz. É uma transformação, que sinto por dentro”, afirma, ao concluir com um conselho: “A arte, na minha vida, significa um processo terapêutico de consciência e calmaria. Por isso, indico a arteterapia, principalmente, para quem se sente perdido. Esse processo te reconecta à vida”, completa.
Se pensarmos bem, não é novidade que a arte seja usada como modo de expressão, desde o tempo das cavernas. Um compositor, por exemplo, pode descrever, na letra da canção, de maneira consciente ou não, um sentimento. Talvez, ele não conseguiria expressar tudo aquilo de outra forma, senão na música.
Quem nunca se pegou a pensar numa canção que tão bem nos descreve? Para explicar a relação entre arte e psicologia, a psicoterapeuta Bárbara Luiza, de 26 anos, pós-graduanda em musicoterapia, compartilha uma reflexão do psicólogo belarusso Lev Vygotsky.
“A arte tem a potencialidade de ser um instrumento ligado à psicologia pela via da criatividade, da ressignificação, da transformação e apreensão de sentido, e, também, da interpretação”, ressalta a profissional, ao enfatizar que não se pode ignorar o fator cultural e de convívio desse ser. Isso influencia a maneira de consumir e produzir arte, campo do qual a psicologia se aproxima com lentes de aumento.
Barbara produz, nas redes sociais, conteúdos voltados à musicoterapia, com diálogo aberto aos seguidores. Logo mais, deseja trabalhar nessa área. A profissional tem objetivos terapêuticos com pacientes, principalmente com crianças do espectro autista, campo do qual pôde se aproximar durante a graduação.
“A partir do momento em que o musicoterapeuta reconhece a conexão entre a música e a emoção, pode escolher o melhor método e usar esse laço para promover mudanças positivas no bem-estar”, esclarece a psicoterapeuta. Vale destacar que tal método pode ser utilizado em hospitais, escolas, asilos e clínicas, durante qualquer fase da vida.
Para ilustrar melhor, Bárbara enfatiza que a musicoterapia não ensina a fazer música ou a tocar instrumentos: “Pode fazer isso, também, mas acho importante que cada área se responsabilize por tal esclarecimento. A musicoterapia é uma abordagem terapêutica, que usa a música como ferramenta”.

Bárbara Luiza reforça a importância da arte, em sua vida, como algo que está intrinsecamente ligado à própria existência do ser humano. E desabafa: “A musicoterapia ainda está distante da grande massa, tanto pela falta de investimento e de apoio político, quanto de organização, por parte dos profissionais da área, para levá-la para além das clínicas privadas”.
Segundo ela, ações voltadas à arteterapia deveriam ser mais debatidas e valorizadas, principalmente no âmbito político. “São áreas que precisam ser reconhecidas, pois não recebem o apoio devido. Torna-se, então, um tipo de psicoterapia segregada, elitista. Por isso, nós, profissionais da área, deveríamos nos comprometer a revelar, às pessoas, esta ótima opção de autoconhecimento”, conclui.
Publicado por Carol Braga
Publicado em 05/09/23