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Persuasão ensina o que não fazer na adaptação de um clássico

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Persuasão, protagonizada por Dakota Johnson, mira em um tom descontraído e acaba acertando no jocoso, conseguindo deixar a obra de Jane Austen parecendo algo desinteressante

Por Maria Lacerda | Culturadora 

Fãs de romances de época podem até ser atraídos pela promessa da nova versão de ‘Persuasão’, lançada pela Netflix. A adaptação da obra de Jane Austen promete um clima mais descontraído e moderno, ainda dentro da estética regencial, mas só decepciona quem tinha qualquer tipo de expectativa com a produção. 

A adaptação tem dois pontos altos: a direção de fotografia, que não tem nada inovador, mas agrada aos olhos; e o uso do casting cego, assim como Bridgerton, desconsiderando a etnia e cor da pele dos autores. Apesar disso, muito arroz com feijão seria necessário para conseguir fazer jus à obra original.

Persuasão. Dakota Johnson em novo filme de Jane Austen.  Foto: Netflix/Reprodução
Persuasão. Dakota Johnson em novo filme de Jane Austen. Foto: Netflix/Reprodução

A história de Persuasão

O último livro completo escrito por Austen e lançado postumamente, em 1818, conta a história de Anne Elliot – interpretada por Dakota Johnson na adaptação. Fruto de uma família rica, a jovem é persuadida a desistir do grande amor, um homem pobre e sem títulos, em nome de convenções sociais da época. 

Tudo muda quando, anos depois, o casal se reencontra. Antes um mero marinheiro, Frederick Wentworth, papel de Cosmo Jarvis, é agora um capitão abastado e respeitado. Enquanto isso, a família de Anne está falida e precisa deixar Londres para morar na cidade de Bath, alugando a mansão para a família do militar.

As emoções de um reencontro, de um amor proibido e dos ressentimentos guardados pelos dois lados é suficiente para render uma história de muita paixão e drama. Austen o fez na versão original, filmes anteriores também conseguiram repetir a dose, mas a nova adaptação não convence com um relacionamento que tem mais picuinhas do que química.

De quebra, o filme consegue decepcionar até no momento mais marcante da obra. Ou seja, a carta que Wentworth escreve para Anne admitindo que ainda a ama. “Você transpassa minha alma; sou metade agonia, metade esperança… Não tenho amado ninguém, apenas você”, uma das declarações mais marcantes da literatura conseguiu ficar apagada na adaptação.

Renovação do clássico

Saindo do tom mais “bucólico” da escrita de Austen, o longa tenta se conectar com o público através de quebras da quarta parede. Apesar disso, as frases modernas da personagem de Dakota Johnson deixam um tom jocoso e desinteressante. 

Parece que o longa tenta mirar em Fleabag, mas sequer acerta em algum lugar. O resultado? Quem assiste fica com a sensação de que cada ator recebeu uma orientação diferente sobre o período histórico em que o filme se passa.

Os cenários e figurinos são capazes de levar o telespectador à Inglaterra do século XVIII. Apesar disso, menções favoráveis ao exército francês – que lutava contra o país na época – mostram que o cuidado com a ambientação foi superficial, só na imagem, desconsiderando um período vivido pela autora original.

Revisitar clássicos definitivamente não é um problema, nem modernizá-los. Filmes como ‘As Patricinhas de Beverly Hills’ e, recentemente, ‘Fire Island’ se conectam com a obra de Austen de uma forma inesperada, mas bem aplicada. O que mostra que o problema não é a linguagem moderna e sim a execução.

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