Literatura
Os corações perdidos: Novo livro da autora de “Pequenos incêndios por toda parte”
Celeste Ng autora de Os corações perdidos Foto Kieran Kesner
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Celeste Ng autora de Os corações perdidos Foto Kieran Kesner
Em “Os corações perdidos”, Celeste Ng cria distopia envolta em mistérios sobre um filho que busca entender o desaparecimento da mãe num contexto de ataques à população oriental no país.
Por Gabriel Pinheiro | Colunista de literatura
O jovem Bird Gardner tem 12 anos. Ele vive em um diminuto dormitório na universidade onde o pai trabalha como bibliotecário. Nem sempre as coisas foram assim. Faz três anos que sua mãe, a poetisa sino-americana Margaret Miu, desapareceu sem deixar rastros. Para qualquer um que o questione, o pai insiste para que o garoto diga que não possui mais nenhum vínculo com ela. É mais seguro assim. “Os corações perdidos” é o novo romance de Celeste Ng, lançado pela Intrínseca, com tradução de Fernanda Abreu.
Em uma realidade distópica, os Estados Unidos alcançaram o fundo do poço política, econômica e socialmente. A chamada “Crise” deixou um rastro de desemprego, escassez, fome e insegurança no país. Tal cenário levou à instituição, pelo governo, da PACT um conjunto de leis que visam a defesa dos valores e da cultura do país. Qualquer semelhança, por exemplo, com o MAGA, o slogan trumpista “Make America Great Again”, não é mera coincidência. “Prometemos proteger os valores norte-americanos. Prometemos tomar conta uns dos outros”.
Se, num primeiro momento, a PACT deixou a impressão de que a normalidade voltaria pouco a pouco ao país, extraoficialmente, este projeto identificou um inimigo central, comum aos “verdadeiros” norte-americanos, como o principal responsável por sua ruína econômica: a China. O que leva a uma escalada de preconceito e consequente violência sem precedentes à toda comunidade oriental ali presente. Sobretudo entre as inúmeras medidas da PACT estão o banimento de livros considerados anti patrióticos e a retirada da guarda dos filhos de qualquer pessoa que se oponha à nova realidade do país, instaurando um clima de desconfiança, medo e denuncismo. E os principais alvos são justamente as obras de origem asiática e aquelas famílias compostas por pessoas com descendência, traços físicos e culturais ou um simples sobrenome de origem oriental.
Bird não possui nenhuma notícia sobre a mãe. Um dia havia uma mãe. Até que noutro ela já não existia. Quando uma misteriosa carta, composta apenas por um simples e enigmático desenho, chega às suas mãos, o garoto acredita que Margaret pode ser a remetente. Ele busca, então, respostas para o seu desaparecimento, descobrindo muito mais do que aquilo que acreditava saber, até então, sobre ela, o pai e, sobretudo, o país no qual nasceu e é oficialmente um cidadão, ainda que, para muitos, os sutis traços herdados da mãe digam o contrário.
O novo romance de Celeste Ng é um reflexo do tempo em que é escrito. Se traz uma distopia com personagens e acontecimentos dentro do campo ficcional, não surpreende a autora escrevê-lo dentro de um contexto sintomático, onde tivemos Donald Trump como presidente norte-americano e a pandemia da covid-19 – duas molas propulsoras para um aumento significativo, para não dizer explosivo, da xenofobia contra cidadãos orientais nos EUA. E não apenas lá.
Em “Os corações perdidos”, a autora constrói um romance sólido, de trama bem amarrada e intrigante, com um dedicado desenvolvimento de seus personagens centrais, que assombra justamente por, a cada página virada, se mostrar tão próximo da realidade. Quando os versos de um livro de poesia se tornam símbolos do movimento de resistência e misteriosas intervenções artísticas de guerrilha balançam a frágil normalidade de uma comunidade, Celeste Ng nos mostra o poder desestabilizador – de consensos, de certezas e, por fim, do totalitarismo – da arte.

Encontre “Os corações perdidos” aqui
Gabriel Pinheiro é jornalista e produtor cultural. Escreve sobre literatura aqui no Culturadoria e também em seu Instagram: @tgpgabriel (https://www.instagram.com/tgpgabriel)
Publicado por Gabriel Pinheiro
Publicado em 23/03/23