Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura
“Os armários vazios” começa com a cena de um aborto. Uma jovem estudante narra a experiência traumática com uma fazedora de anjos e uma sonda que permanece introduzida em seu corpo, enquanto ela retorna às aulas – com se nada estivesse acontecendo. “Que coisa é essa, exatamente? Só sei que está morrendo pouco a pouco, se apagando, se afundando nas bolsas inchadas de sangue, humores que escorrem… E a coisa vai embora. Pronto.” A estudante reflete sobre a falta de uma literatura acerca dessa experiência brutal. “Eu leria, leria mil vezes de novo. Os livros não falam nada sobre isso. Uma bela descrição de uma sonda, uma transfiguração da sonda…”
Ela é Denise Lesur, uma filha da classe operária francesa, cujos pais são donos de um pequeno mercado-café. Nesse sentido, a possibilidade de um filho aos 20 anos arruinaria seus planos de ascender de sua classe social por meio dos estudos – e de um distanciamento de suas origens. Quem escreve em minúcias a experiência de Denise Lesur é a francesa Annie Ernaux. “Os armários vazios” é a estreia na literatura da laureada com o Nobel de Literatura. Publicado originalmente em 1974, o romance ganha publicação no Brasil pela Fósforo Editora, com tradução de Mariana Delfini.
Ruptura e aproximações com o estilo que a consagrou
Annie Ernaux escreveria sobre sua experiência com o aborto – quando ele ainda era criminalizado na França – em “O acontecimento”, em 2000. Além disso, também escreveria sobre relações familiares e de classe em obras como “O lugar” (1983) e “A vergonha” (1997). Mas, se nestes trabalhos posteriores, a autossociobiografia tão característica da autora é marcada por uma escrita sóbria, mais objetiva, ainda que lidando com assuntos tão íntimos, seu trabalho de estreia apresenta uma marcante ruptura em relação ao estilo que a consagrou.
Nesse sentido, “Os armários vazios” é marcado pela voz febril de sua narradora, no monólogo interior que se aproxima do fluxo de consciência, quanto mais mergulhamos no discurso inquietante e visceral de Denise Lesur. Embora se diferencie fundamentalmente na forma, essa estreia literária já apresenta várias das sementes que floresceriam nos anos seguintes na obra de Annie Ernaux: a relações entre classe e poder, a condição feminina, as interseções entre o íntimo e o coletivo e o direito ao próprio corpo.
Classe social, vergonha e o desejo de escapar
Ao longo do romance, a protagonista retoma memórias de infância, reconstruindo o tortuoso caminho que a levou até ali, o tempo presente. Assim, acompanhamos a descoberta da vergonha – de suas origens, de seus pais, de sua classe social –, a descoberta da própria sexualidade, a descoberta do estudo como possibilidade de rompimento com certa condenação a uma condição social. Se há a vergonha, há o afeto, num jogo doloroso, que foge de qualquer maniqueísmo. Denso, “Os armários vazios” é a possibilidade de (re)descobrir uma das maiores autoras do nosso tempo.
Encontre “Os armários vazios” aqui.
Gabriel Pinheiro é jornalista e crítico de literatura. Escreve aqui no Culturadoria e também em seu Instagram: @tgpgabriel.
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