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Ocupação celebra Grande Othelo no Itaú Cultural

Mostra reúne mais de 160 peças e ganha mostra de filmes na Itaú Cultural Play.

Macunaíma (1969), de Joaquim Pedro de Andrade

06/12/2025 a 06/12/2025
11:00
Presencial
Gratuito
Itaú Cultural - Avenida Paulista - Bela Vista, São Paulo - SP, Brasil
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A Ocupação Itaú Cultural de fim de ano volta o foco para uma figura central da cultura brasileira. Em 2025, a série encerra o calendário com a Ocupação Grande Othelo, que celebra os 110 anos de nascimento do artista mineiro. A mostra abre ao público em 6 de dezembro, às 11h, no piso 1 do Itaú Cultural, e segue em cartaz até 8 de março de 2026. Paralelamente, a plataforma Itaú Cultural Play estreia, em 5 de dezembro, uma mostra de filmes dedicada ao ator, reforçando a homenagem em duas frentes: no espaço expositivo e na tela.

Ainda nos anos 1980, o cineasta Werner Herzog registrou o impacto que Grande Othelo lhe causou durante as filmagens de Fitzcarraldo, clássico rodado na Amazônia com elenco internacional. Em visita posterior ao Brasil, ele definiu o ator com admiração: “Havia tanta vida naquele pequeno homem! Simplesmente maravilhoso!”. A frase resume o espírito da Ocupação, que apresenta uma personalidade irrequieta, icônica e reconhecida dentro e fora do país.

No Itaú Cultural, o público encontra mais de 160 peças ligadas à trajetória multifacetada de Othelo. Estão reunidos rascunhos e poemas prontos – entre eles Cadê você, Gonzagão?, homenagem a Luiz Gonzaga –, partituras originais dos anos 1940, roteiros, objetos pessoais, cartas, fotografias, indumentárias, agendas de recados e cadernos. Documentos históricos ajudam a contar essa trajetória, como um contrato com a Rede Globo, de 1967, o diploma de cidadão paulistano, de 1978, e troféus, entre eles o Velho Guerreiro, concedido por Chacrinha em seu programa dominical.

Legado, memória e percurso artístico

A exposição também oferece livros, objetos táteis e depoimentos em vídeo, como o de José Antonio Souza Prata, o Pratinha, filho de Grande Othelo. A equipe do Itaú Cultural produziu ainda uma publicação impressa e digital e um site com conteúdos inéditos, ampliando o acesso ao material. A maior parte do acervo vem do Centro de Documentação e Pesquisa da Fundação Nacional de Artes (Cedoc/Funarte), dentro do Programa Funarte Memória das Artes, criado em 2008 para reconhecer, valorizar e preservar a memória das artes no país. Há, ainda, itens dos arquivos da TV Cultura e da TV Globo.

“Esta Ocupação reconhece a relevância da memória na consolidação do direito às artes neste país”, afirma Maria Marighella, presidenta da Funarte. “É por meio da difusão de acervos que instituições e agentes podem promover o acesso à cultura e se comprometer, de maneira compartilhada, com a reconstituição da história de todos nós”, conclui.

Concepção e curadoria da ocupação

A concepção, realização, curadoria e projeto de acessibilidade são do Itaú Cultural, com consultoria da pesquisadora Deise de Brito, projeto expográfico de Kleber Montanheiro e desenho técnico de Lígia Zilbersztejn. “As exposições que compõem a série Ocupação Itaú Cultural têm justamente esse papel de difundir – e assim preservar – a memória dos nossos artistas cuja influência atravessa gerações”, explica Galiana Brasil, gerente do Núcleo de Curadorias e Programação Artística do Itaú Cultural, que assina a mostra. Ela destaca ainda: “A trajetória de Grande Othelo é marcada pelo racismo, que mantém sua estrutura perversa inclusive nos espaços em que a equidade deveria prevalecer”, observando que, apesar disso, “sua genialidade predominou e ele se tornou uma das figuras mais emblemáticas no imaginário cultural brasileiro, com reconhecimento dentro e fora do país. Estamos muito felizes em oferecer esta Ocupação ao público.”

A mostra destaca facetas pouco conhecidas, como a atuação de Othelo na organização da classe artística. Um documento de 26 de setembro de 1961 registra o convite para assumir a vice-presidência da Associação Brasileira de Atores Cinematográficos. O espaço central da exposição remete a uma praça carioca dos anos dourados, com direito a banca de revistas. Uma sala estilizada de cinema exibe trechos de filmes como Também somos irmãos (1949), de José Carlos Burle; Amei um bicheiro (1952), produção da Atlântida com argumento de Jorge Dória; Assim era Atlântida (1974), de Carlos Manga; e Carnaval no Fogo (1949), de Watson Macedo, no qual Othelo contracena com Oscarito e do qual restou apenas um trecho, preservado e exibido na Ocupação.

Trajetória de Grande Otelo

Nascido em Uberlândia (MG), em 1915 – ou 1917, segundo alguns registros –, Sebastião Bernardes de Souza Prata começou a carreira ainda criança, em 1923, em um circo. Primeiro, adotou o nome Pequeno Otelo. Mais tarde, passou a assinar Grande Othelo, ele próprio incluindo o “h”, grafia que está em sua lápide. Ao longo da vida, somou 103 atuações nos palcos, mais de 100 filmes e 42 gravações em discos. Atuou no teatro de revista entre as décadas de 1930 e 1950, gênero que misturava música, humor, crítica social e variedades. Ingressou na Companhia de Comédia e Variedades Sarah Bernhardt e, depois, na Companhia Negra de Revistas, marcada pelo humor e pela crítica social. Assim, abriu caminho para artistas negros no teatro de revista e colaborou para fortalecer a presença de artistas afro-brasileiros na cena cultural nacional.

Ele integrou a fase áurea do Cinema Novo e do Cinema Marginal. Orson Welles, para quem atuou em It’s All True, nunca finalizado, o considerou o maior ator da América Latina. Parceiro de nomes como Oscarito, Josephine Backer, Bibi Ferreira, Ruth de Souza, Watusi, Nath King Cole e tantos outros, Grande Othelo atingiu um de seus pontos altos em Macunaíma (1969), de Joaquim Pedro de Andrade. Em suas entrevistas, nunca se afastou do debate racial. Em 1987, no programa Roda Viva, da TV Cultura, denunciou o preconceito racial e criticou a ideia de democracia racial como falácia. Na ocasião, destacou que seu sucesso individual não eliminava a discriminação vivida pela população negra. Mantinha, ainda, relações com figuras como Abdias Nascimento, do Teatro Experimental do Negro, também já homenageado pela série Ocupação.

Mostra de filmes na Itaú Cultural Play revisita clássicos

Em diálogo direto com a exposição, a Itaú Cultural Play lança, em 5 de dezembro, uma mostra especial de filmes estrelados por Grande Othelo. A plataforma gratuita de cinema brasileiro reúne sete longas de épocas e gêneros variados, que evidenciam a versatilidade do ator, do drama à comédia.

Entre os destaques está Rio, Zona Norte (1957), de Nelson Pereira dos Santos, em que Othelo interpreta Espírito, sambista talentoso que revisita a própria vida depois de cair nos trilhos da Central do Brasil. Criativo e explorado por um músico erudito e por um empresário que rouba seus sambas, o personagem luta para viver de sua arte enquanto sobrevive de pequenos bicos. O filme é considerado uma das grandes obras do cinema brasileiro e oferece um retrato profundo da cultura dos morros cariocas.

Humor e parceria com Oscarito

A veia cômica surge em títulos como Carnaval Atlântida (1952), de José Carlos Burle, comédia carnavalesca que mistura samba, mambo, jazz e música romântica. Othelo vive Miro, faxineiro de estúdio que tenta filmar a história de Helena de Troia ao lado do colega Piro. A dupla se envolve em confusões ao lado do Professor Xenofontes, papel de Oscarito, marcando uma das célebres parcerias entre os dois atores.

Em Matar ou correr (1954), de Carlos Manga, Othelo e Oscarito interpretam Cisco Kada e Kid Bolha, vigaristas que derrubam o pistoleiro Jesse Gordon em City Down, cidade do Velho Oeste. O feito leva Kid Bolha ao posto de xerife, até que o bandido foge da prisão. A chanchada, uma das mais conhecidas da Atlântida, parodia o western norte-americano, em especial Matar ou Morrer (1952), e reforça a química da dupla.

Dramas, alegorias e crítica social

A mostra traz, ainda, Jubiabá (1987), de Nelson Pereira dos Santos, baseado em romance de Jorge Amado. No longa, Othelo interpreta Jubiabá, pai de santo e líder comunitário que acompanha a trajetória de Antônio Balduíno, menino negro e órfão que se torna lutador e líder grevista em uma Salvador dos anos 1930 marcada pelo racismo e pela desigualdade.

Macunaíma (1969), de Joaquim Pedro de Andrade, também integra a seleção. Adaptação do clássico de Mário de Andrade, o filme apresenta o “herói de nossa gente” como um “herói sem nenhum caráter”. Ele sai da floresta rumo à cidade grande em busca da muiraquitã, amuleto perdido, e enfrenta o vilão Venceslau Pietro Pietra.

Outro título presente é Também somos irmãos (1949), de José Carlos Burle, drama social em que um viúvo adota quatro crianças, duas negras e duas brancas. A aparente harmonia cede espaço à emergência do racismo nas relações familiares e sociais. O longa é reconhecido como precursor na discussão do tema no cinema brasileiro e conta com atuação dramática marcante de Grande Othelo como Miro.

Por fim, o público pode rever Lúcio Flávio, o passageiro da agonia (1977), de Hector Babenco. A obra narra a trajetória do assaltante de bancos que expôs à imprensa um grande esquema de corrupção policial no Rio de Janeiro. O filme, baseado em romance de José Louzeiro, se tornou um dos títulos mais vistos do cinema brasileiro. Nessa história de roubos, fugas e prisões, Grande Othelo dá vida a Dondinho, personagem que conhece o protagonista desde menino.

Serviço

Ocupação Grande Othelo
Período: De 6 de dezembro de 2025 a 8 de março de 2026.
Visitação: terças-feiras a sábados, das 11h às 20h; domingos e feriados das 11h às 19h).

Mostra de filmes em homenagem a Grande Othelo.
Estreia em 5 de dezembro na Itaú Cultural Play.

Mais informações no site Itaú Cultural e no Instagram @itaucultural.

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Publicado por juniodecarvalho

Publicado em 04/12/25

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Ocupação celebra Grande Othelo no Itaú Cultural

Mostra reúne mais de 160 peças e ganha mostra de filmes na Itaú Cultural Play.

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Apoiadores: Lei Rouanet, Instituto AngloGold Ashanti, UNIBH, AngloGold Ashanti, Ministério da Cultura