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O renascimento do Nu Metal: por que um gênero musical considerado morto está voltando à vida?

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Ostentando nomes gigantescos como Linkin Park, Slipknot, System of a Down e Korn, o Nu Metal está reconquistando cada vez mais espaço no imaginário popular.

Por Caio Brandão | Repórter

O panorama cultural do final dos anos 90 e início dos anos 2000 já é visto quase como um folclore global. Nesse período, a internet ainda engatinhava, estabelecendo os primeiros sites e aplicativos que tomariam de assalto um lugar no cotidiano das pessoas, como o MSN, Orkut, ICQ, entre outros.

Ostentando nomes gigantescos como Linkin Park, Slipknot, System of a Down e Korn, o Nu Metal está reconquistando cada vez mais espaço no imaginário popular.
Chester Bennington, vocalista do Linkin Park falecido em 2017 - Foto: Christina Radish/Redferns

Simultaneamente, também acontecia um boom de popularidade de programas que permitiam aos usuários baixar músicas de um jeito, digamos, duvidoso. Napster, eMule, LimeWire, 4Shared, era praticamente infinita a quantidade de opções disponíveis para ter, de graça, discografias inteiras de artistas populares na época.

Sendo assim, o consumo de música estava sendo completamente reinventado, e, nesse contexto, surgia o Nu Metal. Piercings na cara, cabelos tingidos, roupas largas e uma sonoridade revolucionária fizeram com que o gênero tivesse um apelo chocante, perfeito para as novas gerações que clamavam por algo inédito.

A identidade única

Decifrar as particularidades do Nu Metal enquanto gênero musical é como olhar para dentro de um caleidoscópio: nada faz muito sentido, o caos é completo, mas é justamente essa a graça. Sendo assim, elementos que não eram, necessariamente, íntimos ao metal, começaram a ser assimilados pelas bandas do estilo.

Conjuntos como Linkin Park e Limp Bizkit não tinham pudor nenhum ao incorporar o rap nos respectivos trabalhos, erguendo nomes como Mike Shinoda e Fred Durst como pilares do movimento. Em contrapartida, Slipknot e Deftones apresentavam vocais melódicos e suaves em meio às guitarras distorcidas e linhas de bateria frenéticas. 

Somando a tudo isso, existiam bandas como Korn, cujo vocalista, Jonathan Davis, tinha como marca registrada o hábito de balbuciar palavras ininteligíveis durante as músicas, conquistando uma legião de fãs. Tudo isso configurou uma forma de se expressar que é, acima de tudo, extremamente autêntica. 

Estabelecimento na cultura pop

Claro que toda essa irreverência transcende o puramente musical. Como já havia dito antes, a estética visual do gênero era tão icônica quanto a estética sonora. Influenciada por filmes como Matrix, bem como o streetwear típico dos rappers dos anos 90, a moda que permeia os clipes e capas de álbum era única e foi de enorme importância para o estabelecimento do estilo. A união de todos esses elementos gerou um verdadeiro marco cultural.

Não era incomum ver de trailers de filmes até trilhas sonoras de videogames tendo o Nu Metal como protagonista. Todos os times de marketing possíveis sabiam do poder que residia ali, era como se o gênero fosse um sinônimo de engajamento, tamanha a influência no mainstream. Aquilo já tinha ultrapassado o status de um mero derivante do metal, se tornando uma subcultura completa.

Contudo, ao longo dos anos, o Nu Metal perdeu fôlego, sendo considerado obsoleto, brega, irrelevante. Várias bandas como The Strokes, Arctic Monkeys e Cage The Elephant começaram a conquistar a nova geração, oferecendo uma sonoridade completamente diferente, muito menos brutal, mas, ainda assim, contagiante. Esses artistas eram vistos como o meteoro que extinguiria os dinossauros do metal, e, por muito tempo, essa perspectiva parecia irrefutável.

Porém, o tempo provaria que não era bem assim que as coisas aconteceriam.

A volta dos que não foram

Mesmo que a indústria musical parecesse concordar com ideia de que o Nu Metal era coisa do passado, o avanço da tecnologia permitiu que algumas lógicas fossem subvertidas. A complexidade das redes sociais e fóruns de internet escalou em um ritmo alucinante, permitindo que pessoas se conectassem com muita facilidade.

Desse modo, nichos foram formados, e o Nu Metal está inserido nisso. Fãs do gênero, por meio desse processo, perceberam que ele não estava tão morto quanto imaginavam, e ali, mesmo que fosse extremamente embrionário, começava o renascimento.

Consequentemente, essa escola musical começou a dar as caras nesses sites, gradualmente popularizando músicas que já eram queridinhas dos fãs mais engajados. Atualmente, não é raro ver TikToks com versões remixadas de hits do Deftones, como “Be Quiet and Drive (Far Away)” e “Rosemary”. Jacoby Shaddix, vocalista do Papa Roach, também entrou nessa onda ao colaborar com o rapper e criador de conteúdo Jeris Johnson para reimaginar o hit lendário “Last Resort”. O remix já conta com cerca de 10 milhões de visualizações no YouTube.

O revival da moda Y2K que vem acontecendo também intensificou esse resgate, já que ela é atrelada ao Nu Metal. Dito isso, vale notar que essa relação se expande para outros universos midiáticos populares no início do milênio. 

Desenterrando o Woodstock 99

A Netflix e a HBO impulsionaram esse processo ao disponibilizarem os documentários “Desastre Total: Woodstock 99”, e “Woodstock 99: Peace, Love and Rage”, respectivamente. O festival em questão foi notório pelo line-up com várias bandas do estilo, bem como pelas cenas dignas de um filme pós-apocalíptico que se sucederam no evento.

Os longas reacenderam um debate sobre a cultura do Nu Metal em decorrência dos registros presentes ali. Nesse sentido, os documentários mostraram uma apropriação desse subgênero como veículo de atitudes criminosas. Inúmeras denúncias que iam desde incêndios propositais, até estupros dentro das dependências do Woodstock 99, emergiram.

Assim, é claro que se criou um estigma. Porém, os movimentos de reivindicações sociais, na época, não tinham as mesmas proporções que têm hoje. Desse modo, esses eventos caíram no esquecimento apenas alguns anos após o fim do festival. A reputação do Woodstock ficou extremamente manchada, é verdade, mas não houve muito esforço para combater a cultura “frat boy” que havia se infiltrado no Nu Metal e sido escancarada no evento.

Todavia, a repopularização do estilo trouxe novamente à tona essa discussão. Tanto veteranos quanto novatos da cena construíram um esforço conjunto para derrubar o estereótipo negativo que havia se instalado anos atrás. Esse processo transformou o ambiente em algo muito mais inclusivo e convidativo, fazendo com que a bolha fosse furada de uma vez por todas.

A reinserção no cenário musical

Assim, vários artistas contemporâneos resgataram alguns elementos típicos do estilo, como as cantoras Poppy, Rina Sawayma e Grimes. Além disso, bandas como Code Orange, Vein.fm e Tetrarch, por exemplo, também modernizam o gênero e criam novas perspectivas. Tendo isso em vista, o Nu Metal está mudando de cara e chegando a mais pessoas do que nunca, trazendo de volta os que já eram familiarizados e fidelizando novos fãs. 

Simultaneamente, várias das bandas lendárias dentro dessa cultura ainda estão em atividade. Deftones, Korn, Limp Bizkit, Slipknot, além de outros nomes gigantes, contam com lançamentos recentes. Ademais, como parte da comemoração de 20 anos do clássico álbum “Meteora”, Linkin Park disponibilizou singles inéditos, incluindo “Lost”. O clipe já soma impressionantes 43 milhões de visualizações no Youtube.

Tal processo foi traduzido por um tweet da conta “Crazy Ass Moments in Nu Metal History”, ou “Momentos Malucos na História do Nu Metal” em tradução livre, um dos maiores porta-vozes da cultura (sim, esse é realmente o nome da conta). A página trouxe à tona um dado importante. Desde que o Google começou a registrar as atividades feitas no site, o termo “Nu Metal” teve o maior pico de buscas desde 2004 em abril deste ano. 

Tradução: De acordo com o Google Trends, o interesse no Nu Metal ultrapassou o último pico registrado em 2004, quando o Google começou a registrar as buscas.

Portanto, o renascimento do gênero é uma realidade. A quantidade de estilos musicais famosos é gigantesca, o que faz com que a cultura permaneça em um nicho. Dito isso, o nicho expande mais e mais, reconstruindo a relevância e restaurando a notoriedade de um estilo que, alguns anos atrás, estava morto para muitos. 

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