Dia do Artista Plástico reacende debate sobre o que é arte
Trajetória do pintor mineiro Quim, ex-carroceiro e autodidata, reforça discussão sobre reconhecimento, arte popular e espaço no circuito contemporâneo
Foto: Fernanda Sá Motta
Trajetória do pintor mineiro Quim, ex-carroceiro e autodidata, reforça discussão sobre reconhecimento, arte popular e espaço no circuito contemporâneo
Foto: Fernanda Sá Motta
O que define o que é arte? A pergunta volta ao debate no Dia do Artista Plástico, celebrado no Brasil em 8 de maio. Em um cenário cada vez mais aberto a trajetórias fora da formação acadêmica tradicional, artistas autodidatas e populares ampliam presença em museus, galerias e grandes exposições.
É nesse contexto que ganha destaque a trajetória do pintor mineiro Joaquim Dimas Fidelis, o Quim. Ex-carroceiro, ele começou a pintar em 2017 e hoje apresenta sua primeira exposição individual no Parque do Palácio, em Belo Horizonte.
Mais do que um debate filosófico, a definição do que é arte também interfere diretamente em quem alcança reconhecimento institucional. Historicamente, o circuito de artes plásticas no Brasil operou por filtros ligados à classe social, território e acesso à formação acadêmica. Durante décadas, cursos de artes visuais permaneceram concentrados em grandes capitais e voltados, principalmente, para públicos de classe média e alta.
Nos últimos anos, no entanto, esse cenário começou a mudar. As três últimas edições da Bienal de São Paulo — a 34ª (2021), a 35ª (2023) e a 36ª (2025) — ampliaram a presença de artistas indígenas, negros, autodidatas e representantes da arte popular. Além disso, as equipes curatoriais também passaram a refletir trajetórias e origens mais diversas.
Em 2024, a Bienal de Veneza, sob curadoria do brasileiro Adriano Pedrosa, levou ao circuito internacional a mostra “Estrangeiros em Toda Parte”, dedicada a artistas migrantes, indígenas e criadores fora dos circuitos formais. Paralelamente, nomes como Heitor dos Prazeres, Maria Auxiliadora e Chico da Silva vivem um processo de revalorização no mercado de arte.
A trajetória de Quim acompanha esse movimento de revisão do circuito artístico. Sem formação acadêmica, o artista construiu sua linguagem a partir da própria experiência de vida. Natural do distrito de Nelson Sena, em São João Evangelista, no interior de Minas Gerais, ele chegou a Belo Horizonte em busca de trabalho e atuou como carroceiro antes de iniciar na pintura.
Suas obras se organizam em campos de cor distribuídos em faixas horizontais, com elementos repetidos que remetem à memória e à observação cotidiana. “Eu começo a pintar sem saber o que vai aparecer, é como se a imagem fosse se formando sozinha”, descreve o artista.
Para o colecionador e apreciador de arte popular Rildo Faria, esse tipo de produção integra uma tradição consolidada. “A expressão popular está muito ligada aos modos de fazer, ao conhecimento que não vem da formação acadêmica, mas da vivência e da prática. É uma produção que se constrói a partir do repertório cultural de quem faz, muitas vezes aprendida na repetição, na observação e na transmissão entre gerações. Não é uma arte improvisada, mas uma linguagem que se organiza com consistência a partir da experiência”, afirma.
A exposição “Quim: Inconsciente Preciso”, apresentada pela Papazoglu Galeria até 7 de junho de 2026 no Parque do Palácio, reúne pinturas construídas a partir da relação intuitiva com cor, memória e imaginação. Sem desenho prévio, Quim trabalha com a tela no colo e mistura tintas diretamente sobre a superfície.
“Quim nos convida ao encantamento do simples e à sedução do cotidiano esquecido. Sua pintura constrói uma coreografia delicada entre memória, cor e imaginação, onde a ingenuidade se afirma como potência”, afirma a curadora Sarah Ruach.
O Dia do Artista Plástico foi oficializado no Brasil em 1950 em homenagem ao nascimento do pintor José Ferraz de Almeida Júnior. Formado pela Academia Imperial de Belas Artes e pela École Nationale Supérieure des Beaux-Arts, em Paris, ele ficou conhecido por colocar trabalhadores rurais e figuras populares no centro de suas telas.
Hoje, o reconhecimento institucional da arte popular também aparece em políticas públicas. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC), homologada em 2017, orienta o ensino de arte a incluir manifestações populares e saberes tradicionais. Já o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), por meio do Decreto nº 3.551/2000, reconhece os “modos de fazer” como patrimônio cultural imaterial.
Para o galerista Costantino Papazoglu, diretor da Papazoglu Galeria, o trabalho de Quim traduz essa mudança. “Existe uma precisão estrutural que não depende necessariamente de uma formação acadêmica. O que vemos é um domínio construído pela prática, capaz de sustentar uma linguagem própria e autêntica dentro da produção contemporânea”, afirma.
Segundo ele, a escolha de Quim para abrir a programação da galeria também simboliza uma posição institucional. “Desde aquele primeiro momento, compreendi que estava diante de uma obra que não precisava ser construída — ela já existia com verdade e consistência. Escolher o Quim para inaugurar a programação da Galeria Papazoglu é uma declaração de princípios: acreditamos na força da autenticidade e na potência da arte que nasce da experiência vivida”, completa.
Publicado por Ilana Penido
Publicado em 07/05/26