Literatura
Stephen King olha para os EUA sob Trump em “Não pisque”
Novo romance do mestre do horror é um lançamento da Editora Suma.
Stephen King (Foto Dick Dickinson)
Literatura
Novo romance do mestre do horror é um lançamento da Editora Suma.
Stephen King (Foto Dick Dickinson)
Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura
A Regra de Blackstone, um princípio jurídico clássico, diz que “é melhor que dez culpados escapem do que um inocente sofra”. Nesse sentido, é uma clara defesa da importância da proteção de inocentes frente à condenações injustas. No novo romance de Stephen King, “Não pisque”, um serial killer propõe uma doentia interpretação dessa máxima do direito. E se inocentes fossem punidos pela morte desnecessária e injusta de outro inocente? Em suma, um olhar tortuoso para a ideia de justiça que faz sentido numa mente atormentada. “Eu vou matar treze inocentes e um culpado. Assim, os que causaram a morte do inocente vão sofrer. Isso é um ato de REPARAÇÃO”. “Não pisque” é um lançamento da Editora Suma com tradução de Regiane Winarski.
No centro de “Não pisque” está Holly Gibney, a grande personagem do escritor norte-americano nesta última década – e favorita dos leitores. Gibney surge como coadjuvante na trilogia “Mr. Mercedes”, onde, progressivamente, ganha peso e importância do primeiro ao último romance. Até, enfim, ser protagonista de suas próprias histórias – com este novo livro, já se somam mais três romances e um conto, além da trilogia inicial.
A cada livro, nos aprofundamos mais na construção de Holly Gibney, uma personagem complexa e repleta de camadas. Em resumo, ela é uma mulher com diferentes dificuldades em situações sociais, portadora de TOC e, possivelmente, ligada à alguma área do espectro autista. Além disso, em associação, é perspicaz em suas deduções, de olhar atento, extremamente observadora e com uma memória implacável. Logo, Gibney é uma candidata perfeita à detetive genial. Em “Não pisque”, King coloca as habilidades de Holly à prova mais uma vez, numa trama que corre em duas direções que, inevitavelmente, se contaminam.
Neste novo romance, um serial killer assassina pessoas inocentes, escolhidas aleatoriamente. Para ele, é um ato de reparação pela condenação de um homem acusado injustamente de pedofilia – e morto na prisão. Junto de cada corpo, a polícia encontra um papel: nele, o nome de alguém ligado à condenação. Por exemplo, os nomes dos jurados convocados para o julgamento e do promotor – no total, ele promete, serão quatorze mortos. Além disso, correndo numa trama paralela, acompanhamos uma jovem liderança feminista que é jurada de morte por um perseguidor misterioso durante a turnê de divulgação de seu novo livro. Pouco a pouco, Holly Gibney se vê entrelaçada entre as duas tramas, cujos criminosos são desconhecidos pelas vítimas, pelas autoridades e pela detetive particular.
“Não pisque” é um novo mergulho de King no suspense policial e do thriller, numa construção realista, sem os elementos sobrenaturais caros à sua obra. Assim, a ameaça aqui está pura e simplesmente no ser humano – um mal que, muitas vezes, é mais assustador do que aquele sobrenatural.

Em suma, King toca em questões profundamente humanas como a culpa, a vingança, a violência e a justiça. Num retrato cristalino da sociedade contemporânea norte-americana – mas também de um certo fenômeno global – o escritor analisa diferentes fenômenos. Nesse sentido, estão em pauta pontos como cultura do cancelamento, o extremismo religioso e o direito da mulher sobre o próprio corpo. O autor debate, ainda, os perigos do entrelaçamento entre política e religião e os riscos à democracia. “Não pisque” traz uma clara crítica aos Estados Unidos sob regime trumpista. Mais um thriller de virar as páginas com uma das protagonistas mais cativantes da obra de Stephen King.
Gabriel Pinheiro é jornalista e crítico de literatura. Escreve aqui no Culturadoria e também em seu Instagram: @tgpgabriel
Publicado por tgpgabriel
Publicado em 08/07/25