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Sigrid Nunez escreve sobre Virginia Woolf e sagui de estimação
"Mitz: A sagui que não teve medo de Virginia Woolf" narra o feliz encontro entre a escritora, seu marido e uma sagui
Capa: Talita Hoffmann/Editora Instante)
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"Mitz: A sagui que não teve medo de Virginia Woolf" narra o feliz encontro entre a escritora, seu marido e uma sagui
Capa: Talita Hoffmann/Editora Instante)
Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura
Era só uma quinta-feira qualquer em 1934. O casal Leonard e Virginia Woolf dirigiram até Cambridge para visitar Victor e Barbara Rothschild. Na residência do casal amigo, um encontro inesperado irá transformar o cotidiano de Leonard e Virginia. Um pequeno animal, de poucos centímetros. Um esquilo? Ou rato ou um filhote de gato? Era uma sagui, Mitz. Foi amor à primeira vista entre o pequeno animal e Leonard. “Mitz: A sagui que não teve medo de Virginia Woolf” é um romance de Sigrid Nunez, lançado pela Editora Instante com tradução de Carla Fortino.
Tem leituras que são encantadoras. Sem dúvidas, este breve romance biográfico de uma sagui é um desses casos. Sigrid Nunez reconstrói — com boas doses de ficção — o cotidiano familiar de dois dos maiores intelectuais britânicos do século XX e sua pequena companheira sagui. Se recorre a ficção para reimaginar a trajetória de Mitz — inclusive as agruras que o pequeno animal deve ter sofrido desde o seu tráfico ilegal em, suspeita-se, terras brasileiras até o lar confortável e tomado por livros do casal Woolf — Sigrid também se baseia em documentos. Diários, cartas e memórias dos Woolf, por exemplo, registraram a chegada da sagui em Bloomsbury, o lar do casal, e o relacionamento afetuoso traçado ali.
Pelo olhar de Mitz, acompanhamos momentos-chave não só da vida pessoal e do trabalho de Leonard e Virginia Woolf. Numa Europa prestes a adentrar numa guerra que mudará os rumos da história, mergulhamos na angústia do casal frente à ascensão do nazismo na Alemanha, antevendo os resultados trágicos para todo o continente — o que seria confirmado em poucos anos. Nesse sentido, numa passagem o casal viaja à Alemanha e vê o efeito do nazismo e o recrudescimento do discurso antissemita em voga ali. A presença de Mitz na viagem acaba sendo fundamental para a resolução de uma delicada situação frente aos nazistas nesse momento pré-Segunda Guerra Mundial. “‘Contamos a você como a sagui nos salvou de Hitler?’, Virginia se lembraria (com sua habitual tendência ao exagero) em uma carta a um amigo escrita vários meses depois.”
Se a sombra da guerra se impõe cada vez mais, Mitz também testemunha um período fervilhante do pensamento e da cultura britânica, presenciando encontros do Grupo de Bloomsbury — nome dado a um grupo de escritores, filósofos e artistas ingleses que se reuniam frequentemente entre 1907 e 1930. “Um mundo em declínio, talvez; mas, ainda assim, um mundo em que se podia ouvir Eliot, Forster e Virginia discutindo James Joyce.”
Em suma, “Mitz: A sagui que não teve medo de Virginia Woolf” é um delicioso mergulho na intimidade e no processo criativo de Leonard e Virginia Woolf, um casal para quem os livros eram a verdadeira trincheira — pela qual valia a pena lutar. Frente à guerra, aos traumas, aos problemas mentais e à morte, um pequeno primata inspirou o afeto no lar dos Woolf — um afeto que, assim, se mostra presente em cada página desse romance inspirado de Sigrid Nunez.
Encontre “Mitz: A sagui que não teve medo de Virginia Woolf” aqui.
Gabriel Pinheiro é jornalista e crítico de literatura. Escreve aqui no Culturadoria e também em seu Instagram: @tgpgabriel.
Publicado por tgpgabriel
Publicado em 13/03/26