Literatura

A hipocrisia de um mundo adulto marcado pelo dinheiro e pelo poder em “Meus dias com os Kopp”

Foto: Massimiliano Minocri

“Meus dias com Kopp”, considerado “uma das coisas mais surpreendentes da literatura espanhola dos últimos anos” pelo El País, traz uma prosa leve e afiada

Por Gabriel Pinheiro | Colunista de literatura

O romance de estreia da espanhola Xita Rubert é um daqueles livros onde parece que muito pouco acontece. Virgínia, uma jovem de dezessete anos, narra alguns dias que passou em companhia do pai, Juan, e um casal de amigos intelectuais riquíssimos dele, os Kopp, Sonya e Andrew. Os personagens se encontram em um hotel de luxo poucos dias antes de uma cerimônia de premiação em homenagem ao patriarca Kopp. Com tradução de Elisa Menezes, “Meus dias com os Kopp” é um lançamento da DBA Editora, enviado primeiramente para os assinantes do clube de assinaturas Histórias Irresistíveis, da livraria Dois Pontos.

Poder e possibilidade

Se o romance em poucas páginas já apresenta um olhar aguçado sobre as relações de poder e as possibilidades de existir no mundo permitidas pelo dinheiro, a aparição de um quinto personagem bagunça o conjunto, expondo o desequilíbrio que se esconde sob a aparente normalidade da vida dos Kopp. Uma superfície marcada pela opacidade, que esconde mais do que revela, e que, apesar de uma construção aparentemente sólida, mostra suas rachaduras num exame mais minucioso.

Bertrand é o filho do casal, um homem na casa dos quarenta anos. Ele, que se descreve como “artífice e vítima de seu próprio acidente”, caminha numa fina corda bamba, entre a genialidade e a loucura. Para os pais, ele é apenas um escultor e artista performático e incompreendido. Mas, para a narradora, parece bem claro que ele sofre de algum grave transtorno mental.

Virgínia tem uma percepção perspicaz sobre o mundo que a rodeia. No dia a dia com o casal e o filho, a jovem descortina aquilo que se esconde sob uma vida de aparências. “Meu pai, como eu, tirava proveito dos intercâmbio frívolos, do contato com seres como os Kopp, aquilo nos recuperava, nos reintegrava à sociedade da qual facilmente nos abstraíamos”. O breve romance é rodeado de boas reflexões sobre o poder: o que o dinheiro e uma suposta intelectualidade possibilitam. Essa é a chave para que diversos comportamentos sejam aceitos, sejam normalizados – disfarçados, olha só, como excentricidade. 

Capa de “Meus dias dom Kopp”. Editora DBA.

Leve e afiado

“Meus dias com o Kopp” tem uma prosa leve e afiada. Por vezes, mordaz. É interessante como, longe de um simples julgamento daquilo que observa, Virgínia, a partir desses seus dias com os Kopp, olha para a própria relação com o pai, sobretudo a respeito de questões ligadas à saúde mental. “Ele tinha mais medo do que eu diante do abismo. E não sabia se devia recuar ou pular, atacar ou proteger”. Além disso, Xita Rubert desenvolve um interessante jogo de atração e repulsa entre a adolescente e Sonya Kopp. “Sonya e eu éramos feitas de outra matéria, mas da mesma outra matéria. Por isso, senti antipatia e atração por ela, assim como ela, acho, sentiu por mim”. Sobre aquilo que eu disse no início deste texto, taí um dos meus “tipos” de livros preferidos: aqueles onde, só na superfície, nada ou pouca coisa parece acontecer.

Encontre “Meus dias com os Kopp” aqui.

Gabriel Pinheiro é jornalista e produtor cultural. Escreve sobre literatura aqui no Culturadoria e também em seu Instagram: @tgpgabriel

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Publicado por Gabriel Pinheiro

Publicado em 28/03/23

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