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Marcos Catarina: ouro de Minas

Marcos Catarina em show. Foto de Isa Fotos

Cantor e compositor belo-horizontino, Marcos Catarina leva adiante legado musical de sua família

Por Raulino Júnior I Participante do Projeto Culturadoria em Rede

“Pai e mãe/ Ouro de mina/ Coração/ Desejo e sina/ Tudo mais/ Pura rotina…”. Os primeiros versos da canção “Sina”, composta por Djavan e lançada em 1982, no disco “Luz”, traduzem, com precisão, o início da história musical do cantor e compositor Marcos José Catarina, de 48 anos. 

Filho caçula do casal José Delfino Catarina e Efigênia dos Santos Catarina, desde pequeno, vivia a música nas reuniões promovidas pela família. O pai, um bamba, tocava pandeiro, violão, e gostava de cantar moda caipira; a mãe, que fora Rainha da Marujada, em Conselheiro Lafaiete, preparava os banquetes e cantarolava, enquanto a turma fazia um verdadeiro show na sala de casa. 

A música era rotina no cotidiano dos Catarinas. Tanto que, dos oitos filhos (Paulo José Catarina, Ivanete Catarina, Vanderli Catarina, Waldecy Catarina, Ivone Catarina, Maria de Lourdes Catarina, Ivânia Catarina e Marcos), três seguiram a sina: Ivânia, Vanderli (artisticamente, Vander Lee) e o próprio Marcos. 

Os dois primeiros, infelizmente, pegaram “um trem para as estrelas”, respectivamente, em 2015 e 2016. Marcos segue a fazer sua música e a levar adiante o legado artístico da família. 

Formado em História da Arte, pela Universidade Federal de Minas Gerais, e em Música, no curso livre oferecido pela Bituca – Universidade de Música Popular, o artista tem mais de 20 anos de carreira profissional, e já se apresentou em grandes palcos do Brasil e do mundo. 

“Toquei naquele grande teatro de Manaus [o Amazonas], no Clube do Choro, em Brasília, no Palácio das Artes, no Chile, em Lima e em Cusco (Peru)”, conta.

Primeiros passos

Marcos nasceu e se criou no bairro Olhos d’Água (no passado, conhecido como Mutuca), em Belo Horizonte. Hoje, mora em Lagoa Santa. A primeira vez que se apresentou foi num botequim, ainda na infância. 

“A plateia eram os cachaceiros do boteco onde meu pai estava”, ri. E emenda: “Eu era uma criança de menos de cinco anos de idade, usava um eixo de bicicleta como microfone e imitava o Sidney Magal”. 

Depois dessa passagem, e de trilhar outros caminhos, decidiu viver, de fato, de música. Iniciou a carreira profissional em 2001, mas, ainda assim, não se sentia seguro como músico. 

“Busquei me aperfeiçoar no violão. Fui estudar na Bituca, pois precisava aprender. Nós sofremos muita discriminação já, por sermos pretos. O Brasil é um país extremamente preconceituoso, mas há muito preconceito, também, com gente incompetente, e eu me sentia incompetente para a música”. 

Na Bituca, aprendeu com mestres como Gilvan de Oliveira (violão), Ian Guest (harmonia), Babaya (canto) e Felipe Moreira (piano).

Obra artística

Em 2010, Marcos colocou na praça o primeiro resultado de seus estudos e da dedicação à música: o EP “Todo Rio Tem In Cantos” (escrito exatamente assim). Lançado apenas em meio digital – mais especificamente nas plataformas MySpace e SoundCloud –, o trabalho tinha canções em que predominavam a temática da água, o que justifica o nome. 

O EP nasceu para, literalmente, documentar as canções do artista, que, por um problema no computador, perdeu composições que tinha feito ao longo de quase dez anos: “Eu tinha certa resistência em mostrar minhas coisas. Já compunha há muito tempo, mas demorei muitos anos para começar a revelá-las. Uma vez, meu computador estragou e perdi centenas de canções. Era o trabalho de mais ou menos dez anos, e me lembrava de pouca coisa. Recuperei apenas resquícios, que estavam em minha cabeça. Foi uma lição para mim! Comecei a gravar essas  primeiras músicas, que resultaram no EP”.

Fora do país

Dois anos depois, contemplado por um edital, foi tocar na Europa, e participou de um festival na Bélgica. Na ocasião, caiu em si, e percebeu que não tinha nenhum produto físico de carreira, pois tudo estava apenas nas plataformas digitais de música à época. 

Aquilo o incomodou: por que, até então, não lançara um disco? Quando retornou ao Brasil, gravou o CD “Entre Canções”, lançado em 2014, fruto de uma campanha de financiamento coletivo. 

O nome faz alusão a um verso da música “Salve linda canção sem esperança”, de Luiz Melodia. “Ela resume bem o disco, pois era um apanhado de canções de várias épocas. Eu chamo essa ‘amarra’ de ‘entre canções’. Cada uma é de um jeito, e teria um disco à parte. Elas não conversam entre si. Essa era a ideia do disco: músicas que tinham ganhado festivais pelo Brasil, em épocas diferentes. Uma reunião de canções, uma coletânea. Gosto muito desse disco”.

Depois que mudou a perspectiva sobre a própria carreira, Marcos resolveu gravar um disco por ano. Em 2015, sai seu terceiro trabalho, com planos de lançamento em 2016. Contudo, o projeto teve que ser adiado, devido à morte de Vander Lee. 

O lançamento só aconteceu no ano seguinte, também por meio  de uma campanha de financiamento coletivo. O CD abriu muitas portas ao cantor, que, em 2018 e 2019, fez turnê em Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro. 

Leve

E por que foi batizado de “Leve”? 

“As coisas estavam muito pesadas naquele tempo. Em 2015, tinha perdido minha irmã, Ivânia, e lidar com o luto não é leve. Então, o leve era um vir a ser, uma proposição espiritual. Queria que a vida fosse mais leve. Tinha uma companheira, com quem não fui casado, mas a gente era namorado há mais de dez anos, e estávamos rompendo o relacionamento. Em 2016, Vander Lee faleceu. Dois anos de bastante luto e muito intensos. ‘Leve’ era para ser o antídoto do peso que vivia”.

Em 2019, ao sentir a exigência do mercado por produtos audiovisuais, começou a investir em videoclipes. “Custei a arrumar dinheiro para gravar um disco. Quando consegui, já não valia mais. O CD estava amarrado ao audiovisual”. 

Foi assim que, uma vez mais, criou uma campanha de financiamento coletivo para gravar o DVD “Marcos Catarina 10 anos”, lançado em 2020. Os dez anos do nome se referem à trajetória fonográfica do artista, que teve início em 2010. Em 2023, lançou singles e pretende gravar mais um disco.

Vander Lee

“Vander Lee é Vander Lee. Quando fala ‘Vander Lee’, já diz muita coisa. A palavra ‘Vanderli’ já quer dizer muita coisa”, interrompe Marcos, ao ouvir a afirmativa de que, numa entrevista com ele, é impossível não falar de seu irmão. 

O cantor e compositor marcou a música popular brasileira, com obras carregadas de romantismo, poesia, e um olhar apurado sobre as coisas do Brasil.  Vander Lee morreu no dia 5 de agosto de 2016, aos 50 anos, vítima de um ataque cardíaco. 

Assim, indagado sobre lembranças pessoais e profissionais marcantes da convivência com o irmão, Catarina elenca duas passagens: o fato de Vander Lee ter mudado, momentaneamente, de time, e um conselho que recebeu no início da carreira. 

“Ele era goleiro de futebol e foi jogar no clube rival ao que torcia, o Atlético. E eu sou cruzeirense. Teve uma época em que ele virou cruzeirense. Ou seja: era atleticano, tornou-se cruzeirense, e voltou a ser atleticano. Coisa de adolescente, que muda, e a gente chama de vira-folha. Certo dia, brinquei com ele, já um atleticano convicto, que ficou muito irado, pois, nessa época, já fazia certo sucesso na cidade: era amigo do Reinaldo [José Reinaldo de Lima], craque da seleção brasileira e do Atlético. Eu estava numa festa, e comentei com os amigos que Vander Lee teve uma passagem pelo Cruzeiro. Ele ficou muito chateado e passamos um tempão sem nos falar”. 

Profissionalmente, Vander Lee falou algo importante a Marcos no início de carreira, em 2001: o artista tem que ter história. “Hoje, olho para meus vinte anos e vejo que tenho história. Muita história”, orgulha-se, ao complementar, ainda, que, pelo fato de o pai ter morrido quando ele próprio era muito novo, Vander Lee assumiu tal lugar. 

Marcos Catarina (de óculos) e Vander Lee ao lado. Arquivo Pessoal cedido pelo cantor.

Cenários

Para Marcos, a música brasileira da atualidade é rica: “Nunca teve tanta coisa bonita. Em Belo Horizonte, acontecem uns saraus e fico impressionado com o tanto de gente muito jovem que faz música tão consciente, contundente”. 

Porém, quando se trata da indústria da música, o cantor é bastante crítico. “Nesse ponto de vista, a gente vive um momento terrível, e já há muitos anos. O que a indústria absorve? Tem muita gente, muito boa, fazendo boa coisa e tem muita coisa, muito ruim, sendo divulgada”. 

Segundo o músico, isso sempre foi assim, desde que nasceu. “Naquela época, já tinha muita coisa enlatada. Nos anos 1990, muito ruim foi propagada. Nos anos 2000, também. Só que a proporcionalidade, hoje, é maior de coisas pouco legais que se difundem. Sobretudo, naquilo que a gente pode chamar de cultura de massa”. 

Nesse sentido, o artista critica o sucesso de “Caneta azul”: “Acho triste que pessoas se identifiquem com aquilo. O público achar graça disso é sinal de grande esvaziamento”, comenta Marcos, ao considerar que a falta de investimento em educação e a situação socioeconômica do país potencializam tais comportamentos. “O medo do novo, hoje, é muito grande. Ninguém arrisca mais. A Elis lançou um monte de gente. Hoje, uma cantora do nível dela faz regravação. Buscar o autor é importante”, completa.

Música mineira

Sobre a música mineira da atualidade, destaca o papel dos coletivos. “Estou muito ligado nos coletivos. Em BH, há um coletivo chamado Margem, de cantautores negros. São uns caras muito legais, que fazem um som legal”, comenta. 

Marcos cita outro coletivo, de meninas, Negras Autoras, também de BH: “Todas são potências individuais, mas, ao se juntar, ninguém segura. Acho que os coletivos são o novo caminho. Uma galera que, além de fazer música, aprendeu a produzir o espetáculo, ir atrás de recursos, fomentar editais. Acho que a música preta brasileira está no melhor momento e eu queria destacar isso na música mineira. Temos, aqui, Sérgio Pererê, Maurício Tizumba, um mestre antigo, mas sempre contemporâneo”. 

Mil e uma funções

Em relação às mulheres, o artista destaca que há vozes bastante interessantes em Minas Gerais. “Poderia citar minha sobrinha, Laura Catarina, como grande cantora. Não uma promessa, mas uma realidade. Não por ser minha sobrinha, filha do meu irmão, Vander Lee, mas por ser uma artista bastante competente. Há Bárbara Barcellos, que canta Clube da Esquina maravilhosamente bem, e participou, com Bituca, do espetáculo ‘Semente da terra”. Tem muita gente na música mineira! Gente muito boa, na cena independente, que faz música com dignidade”, comemora.

Assim, Marcos fala cheio de mineiridade e sabe que ele próprio é um tesouro dessa música, que pulsa e é repleta de poesia. É um artista solo e de coletivos. No carnaval, põe o bloco na rua, atraindo milhares de românticos, loucos pela musicalidade que vem do berço de sua família. 

E ele segue com shows e tributos em homenagem ao irmão. Já foi modelo, participou de óperas, de teatro musical e ainda tem vontade de atuar em cinema. É, sem dúvida, multifacetado. 

“Eu sou o cara de mil e uma funções. Isso me alimenta muito. Fico mais feliz como cantor, como gente e vou seguindo. Essa coisa de fazer a mesma coisa sempre me incomodou. Acho pouco fazer a mesma coisa”, arremata, por fim.

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Publicado por Carol Braga

Publicado em 19/07/23

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