Literatura

Marcia Tiburi é a convidada do Sempre um Papo desta terça-feira

A escritora, filósofa e artista Marcia Tiburi, que lança sétimo romance (Arquivo Pessoal)

De volta ao Brasil, depois de um período na Europa, Marcia Tiburi lança o romance “Com os Sapatos Aniquilados, Helena Avança na Neve”

Patrícia Cassese | Editora Assistente

Um “thriller feminista nem um pouco conciliador”. É assim que “Com os Sapatos Aniquilados, Helena Avança na Neve”, o novo romance da escritora, filósofa e artista Marcia Tiburi, é apresentado no material de divulgação da obra enviado à imprensa pela editora que o publica, a Nós. Nele, prossegue o texto, Marcia Tiburi “alegoriza o turbilhão de violências vivido pelas mulheres de todas as épocas e lugares, lançando um olhar impiedoso para as grandes instituições garantidoras do extermínio das mulheres: a família, a igreja, a polícia, isto é, o patriarcado e seu truculento projeto de poder”.

Mas, que fique claro, claríssimo: apesar do tema espinhoso, ela faz questão de frisar que não se trata de um livro pessimista. Ao contrário. “É um livro sobre a violência contra as mulheres, mas, ao mesmo tempo, não é um livro sobre pessimismo, mas, sim, sobre potencialidades”, esclarece Marcia ao Culturadoria, em entrevista feita por vídeo.

A capa do livro, que foi lançado pela Editora Nós (Editora Nós/Divulgação)

Marcia Tiburi, diga-se, acaba de voltar ao Brasil, após os anos passados na Europa. E, assim, sua agenda de compromissos profissionais de pronto passou a ser preenchida com as sessões de lançamentos da obra. Depois de Porto Alegre, onde assinou exemplares no Espaço Cultural Macunaíma; a escritora fez a sessão de autógrafos na Megafauna, em São Paulo (em evento que contou com a presença da atriz Mel Lisboa). Agora, é a vez da capital mineira. Nesta terça-feira, Marcia Tiburi participa do projeto Sempre um Papo. O bate-papo com Afonso Borges terá início às 19h30, no Teatro José Aparecido de Oliveira, na Biblioteca Pública Estadual de Minas Gerais. Na sequência, ela vai autografar os exemplares.

A trama de “Com os Sapatos Aniquilados, Helena Avança na Neve” acompanha a história da brasileira Helena, que passa a viver em Paris, no apartamento de Chloé.

Confira, a seguir, trechos da entrevista concedida por Marcia Tiburi ao Culturadoria.

Inicialmente, gostaria de saber como foi o embrião desta empreitada literária. Como a história foi surgindo à mente, o brainstorm… O que te motivou, acendeu a chama?

Nos últimos anos, eu, de certa forma, já vinha desenhando muitas personagens que têm a ver com as de “Com os Sapatos Aniquilados, Helena Avança na Neve”. E uma, em especial, a protagonista, ela começou a aparecer nos meus desenhos. Isso foi no final de 2020. Antes, o último romance que eu havia lançado foi “Sob os Pés, Meu Corpo Inteiro”, de 2018, ou seja, antes de eu ter que sair do Brasil.

Uma das imagens do Levante Feminista Contra o Feminicídio, coletivo ao qual Marcia Tiburi faz referência na entrevista (Site oficial do movimento)

Na virada para 2021, teve a criação do movimento Levante Feminista contra o Feminícidio (frente suprapartidária formada por movimentos feministas, organizações e mulheres diversas que tem como objetivo sensibilizar, mobilizar e denunciar à sociedade o aumento dos casos de femicidídio, e Marcia Tiburi está na fundação dele), que toca numa questão central – e muito infeliz, das mais tristes da nossa cultura, que é o assassinato de mulheres por ódio ao gênero. A misoginia. Pelo fato de a nossa sociedade ser misógina, ou seja, uma sociedade que opera a partir do ódio às mulheres. A sociedade patriarcal tem essa característica. Assim, o livro é sobre isso: mulheres, violência. Mas, ao mesmo tempo não é livro sobre pessimismo, mas, sim, sobre potencialidades. Então, é um livro bastante alegórico, bastante simbólico.
Gostaria que falasse mais sobre este caráter não pessimista da narrativa….

Então, o livro “Com os Sapatos Aniquilados, Helena Avança na Neve” fala sobre feminicídio. Fala sobre a violência contra as mulheres. Quando digo que não é pessimista, é porque se trata de um livro que discute este tópico de um ponto de vista poético, literário. Mas, veja bem (Marcia Tiburi ressalva). Por poético, quero frisar que não é que se faça poesia com isso. Digo no sentido de que se cria uma estrutura linguística e retórica, e há uma busca pelas palavras.

Na verdade, é disso que se trata a literatura, um arranjo linguístico, retórico, essa roupagem que busca aquilo que não pode ser dito. Quando a gente escreve literatura, tenta dizer o que não pode ser dito. A filosofia também tem a ver com isso, mas, na literatura, você trabalha com a reflexão e com a sensibilidade, e há um alcance maior, acho. Muitas vezes, porque tem coisas que a filosofia demora muito para poder dizer, enquanto a literatura diz de um jeito rápido.

Assim, para falar desse assunto, achei muito importante poder trabalhar com a forma do romance (este é o sétimo romance de Marcia Tiburi). Certamente as pessoas vão perceber, logo de início, a dor das mulheres que ficam, assim como a tragédia das mulheres que se vão. E, ao mesmo tempo, a estrutura simbólica da luta. Porque é isso que está em jogo. Claro, os conflitos, mas também a percepção das mulheres de que têm umas às outras. É disso que se fala. Do fato de que nós temos umas às outras.

A sororidade….

“Com os Sapatos Aniquilados, Helena Avança na Neve” é um livro sobre mulheres, para mulheres, mas que outros gêneros podem ler e que talvez seja elucidativo da dor vivida por essas mulheres, mas também da potencialidade que essas mulheres, e a sociedade como um todo, têm de avançar e construir um mundo melhor para todo mundo viver. O Levante foi muito importante no processo da escrita desse livro, porque é sempre isso. Quando a gente é ativista, militante, do movimento feminista, é acompanhar essas tragédias. Mas, ao mesmo tempo, é sobre não perder a conexão com a esfera simbólica, com a esfera poética da vida. E é através desse caminho também que nós superamos o horror. Não que haja justiça para os mortos. Não há justiça para as mulheres assassinadas.

A contracapa do livro, que Marcia Tiburi vai autografar em BH nesta terça-feira (Editora Nós/Divulgação)

Marcia, você falou que é um livro sobre mulheres, para mulheres (frisando que outros gêneros também podem – e deveriam – se conectar com as questões tratadas)… Mas há um perfil em particular que entende como receptor ideal da narrativa?

Sendo um livro sobre mulheres, é necessariamente também um livro sobre homens. Eu acho que quem leu “Madame Bovary”, de Flaubert, vai me entender. E quem tem acompanhado a literatura escrita por mulheres dessa época, também. Para quem gosta de escritoras mulheres, eu estou dialogando com escritoras mulheres. E estou dialogando, evidentemente, com leitoras mulheres, que, aliás, são a maioria dos leitores do planeta. Mas os homens também podem ler, e pessoas de outros gêneros também. Acho que vai ser bom para todo mundo, no sentido de o livro ter, como questão central, a violência contra as mulheres – a violência simbólica, física e a violência extrema, que é o feminicídio.

São questões abordadas no livro, mas, ao mesmo tempo, sob o ponto de vista de mulheres que não são as vítimas diretas. São as que acompanham e que vivem a dor da perda de outras mulheres. Mulheres que, à sua maneira, lutam. E acho que todas as mulheres que lutam – seja em que esfera for, em que esfera da vida se dê essa luta – vão me entender. E os homens, se tiverem coragem, também podem encontrar (na leitura), penso, um caminho legal para uma reflexão importante.

Quando tempo a escrita de “Com os Sapatos Aniquilados, Helena Avança na Neve” consumiu? E como foi o processo?

Eu demorei três anos escrevendo este livro, praticamente. De 2020 até 2023. Bem, vamos colocar dois anos e meio. Foi um livro de idas e vindas. Em geral, os meus romances são escritos e reescritos, e, nesse caso, eu comecei a escrever no período da pandemia. Assim, todo o meu imaginário estava muito conectado também com essa solidão. Porque eu estava vivendo numa profunda solidão. Eu fiquei muito sozinha na época da pandemia, apesar de ter aulas online…

No entanto, fiquei só, como muita gente ficou. Mas, além da solidão da pandemia (essa solidão que foi por um lado acaso, por outro, imposição), eu tive também uma solidão relacionada ao período que vivi fora do Brasil. Período que a gente pode definir como sendo uma época de exílio (no início de 2019, Marcia deixou o Brasil, tendo passado alguns meses em Pittsburgh, nos EUA, numa universidade que abriga escritores em risco; depois, foi para Paris).

Queria que falasse mais sobre este processo de escrever estando longe do país onde nasceu…

Na verdade, é preciso dizer que nós vivemos várias formas de exílio. O exílio é uma metáfora para estados vividos por todos nós. Mas existe também o exílio político, o exílio quando as democracias não funcionam, que é o caso dos exilados dessa época, de hoje em dia. Perseguidos políticos. Pessoas que sofrem intimidações, perseguições, campanhas de difamação, como é meu caso. Eu sofri tudo isso ao mesmo tempo e tive que sair do Brasil. E escrevi esse livro também dentro dessa energia solitária, então, a minha personagem principal é uma figura que tem essa marca profunda. Agora, a solidão e a escrita, elas combinam.

Mais uma vez, vou te pedir para esmiuçar mais, Marcia

Então, eu lembro de um texto, “Escrever”, da Marguerite Duras. E ela escreveu sobre isso, escreveu sobre escrever. Escrever é estar só. Ler é, digamos, um outro estágio, um estágio no qual a gente, se sentindo só, se sente ao mesmo tempo acompanhado. Mas escrevendo, a gente se sente muito só. Até porque, os personagens, mesmo que possam ter alguma realidade, algum nexo com a realidade, nós estamos só com eles. Por sorte não estamos sós com a gente mesmo (Marcia Tiburi ri). O personagem é, num certo sentido, uma companhia. Então, quero falar de gradações e estágios, digamos assim, da solidão. Momentos da solidão. Situações em que a solidão é modulada, em que ela assume outra qualidade.

Quem gosta de livro sabe o que isso. Não é a solidão apenas naquele sentido ruim, de não ter chance de saída do seu mundo, chance de encontrar o mundo dos outros, de ter partilhas, de ter eventos amorosos, generosos, acolhedores, enfim. Mas tem aquela solidão que as pessoas estão chamando de solitude. Aliás, estou achando bonito usar essa palavra. Que é essa solidão de quando você precisa ficar sozinho para encontrar você mesmo. Eu encontrei muito comigo, e essas personagens desse livro, evidentemente também têm a ver comigo. Ao mesmo tempo, têm a ver com outras pessoas.

E é por isso, acho, que “Com os Sapatos Aniquilados, Helena Avança na Neve” está sendo tão lido. Tem muita gente lendo, dando notícias, lendo rápido. Porque as pessoas comentam: ele “pega”, “atravessa”, “ele te abraça, te agarra”, “te faz v ir até à última linha, até às últimas páginas”. Então, estou feliz com isso, sabe? Tem sido bonito.

Você disse que “Com os Sapatos Aniquilados, Helena Avança na Neve” tem uma inscrição na literatura latino-americana. Queria que pormenorizasse….

Eu vejo isso porque ele não é um livro puramente realista. Óbvio que tem elementos da realidade. E não são poucos: 99% dele (tem esse calço na realidade). Mas tem um 1% do fantástico latino-americano. Isso é meio inevitável para mulheres, para feministas escrevendo em uma época tão dura, tão difícil, na qual a gente toma a palavra, toma esse poder da palavra. No qual a gente se envolve com a literatura, e ela vem trazer novos caminhos, trazer novas possibilidades.

Pelas especificidades deste processo de escrita – estar morando fora do país, pandemia -, você avalia que dois anos e meio foi um tempo longo ou é o que você costuma consumir para a feitura de um romance, categoria na qual “Com os Sapatos Aniquilados, Helena Avança na Neve” se filia?

Eu demoro muito a escrever literatura. “Com os Sapatos Aniquilados, Helena Avança na Neve” é o meu sétimo romance. Nestes 20 anos escrevendo livros, eu publiquei apenas sete romances. Tem escritores muito mais prolíficos, assim como é verdade que há muitos outros que demoram até mais tempo. Mas, na verdade, o tempo cronológico não é uma medida tão importante para a literatura quanto é o tempo subjetivo. Enfim, o tempo da palavra, o tempo da Poíesis, é um tempo importante para a gente levar a sério, dessa palavra que se cria, e que estabelece um encontro com as coisas, com a realidade, enfim.

O lançamento de “Com os Sapatos Aniquilados, Helena Avança na Neve” marca também seu retorno ao Brasil… Como está sendo esta volta?

Então, eu voltei mesmo, para ficar. O que quer dizer que, quando estiver fora, eu estarei viajando, mas para voltar para casa. E essa noção de volta para casa, a ideia de uma “casa”, me comove muito, me alegra muito hoje. Nestes últimos anos, eu pude escrever vários livros, vários ensaios. Um vai sair nos próximos meses, outro, ano que vem. Então, eu vou seguir escrevendo meus livros, lançando aqui, no Brasil, e também fora. E dando minhas aulas, pintando, fazendo exposições… Esse é o projeto. Claro, e dando aula de filosofia, que pra mim também é uma coisa muito importante. Mas tudo isso agora com a liberdade que só a democracia é capaz de conferir aos corpos, inclusive dos defensores de diretos humanos que são tão atacados num país como o nosso. Nessa condição, eu posso pessoalmente me sentir muito bem agora.

Queria que voltasse a falar da decisão de deixar o Brasil, em 2019…

Foi um longo processo, porque o que vivi fora do Brasil foi um exílio, não foi uma escolha. Eu fui definida pelas instituições que me protegeram como uma pessoa exilada. Assim, quando as pessoas, a mídia, falam de auto-exílio, estão falando de um jeito errado. Porque, de início, eu saí do Brasil para dar um tempo, para, enfim, pensar, e voltar logo. Aí, portanto, não era um exílio. O exílio se tornou. Ele aconteceu, adveio, em função das circunstâncias. Eu não conseguia voltar mais por inúmeros motivos, principalmente porque era – e continuo sendo – perseguida.

Digo continuo, mas naquela época, muito mais, de um jeito muito mais programático. Essa perseguição que se faz às mulheres que lutam, às mulheres que falam, que denunciam, ela é parte da história, infelizmente. E eu fui muito perseguida. (nos momentos que precederam sua decisão de ir para os EUA, Marcia Tiburi passou a sofrer sérias ameaças, tanto presenciais quanto por mensagens, assim como a ter o nome envolvido em fake news; tendo chegado ao ponto de ter que andar em carro blindado e reforçar a segurança nos eventos a que comparecia)

Ponderando que ainda sofre perseguição, o que te motivou a voltar?

Continuo sendo, mas, hoje, as circunstâncias são outras. Acho que estamos em outro momento, não é mais o momento do fascismo em ação, mas da democracia se reinstaurando, a gente percebe isso no metabolismo da vida cotidiana. Poderia até discorrer mais sobre isso, mas o importante é que estou no Brasil para ficar.

Claro, vou viajar, só que agora para lançar meus livros fora, para dar aulas, para fazer coisas assim. Mas, agora, a minha casa novamente fica no Brasil, e estou muito feliz com isso. Estou muito feliz (Marcia repete a frase, como a reiterar). Eu nem posso esconder o tanto que estou feliz por ter voltado, porque é realmente muito maravilhoso estar aqui, voltar para o meu país. Estou felicíssima. Eu nem tenho palavras para expressar o nível da minha felicidade de estar aqui. E vou ficar muito feliz também em poder lançar o meu livro em BH. Rever os amigos, os leitores, as leitoras, as pessoas que eu adoro. Adoro BH, é uma cidade que mora no meu coração.

Serviço

Sempre Um Papo recebe Marcia Tiburi
Quando. Nesta terça, dia 5 de setembro, às 19h30
Local: Teatro José Aparecido de Oliveira (Biblioteca Pública Estadual de Minas Gerais – Praça da Liberdade)
Entrada franca
Informações: www.sempreumpapo.com.br

“Com os Sapatos Aniquilados, Helena Avança na Neve”

Páginas: 304
Preço: R$ 69,00
Editora: Nós

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Publicado por Carol Braga

Publicado em 04/09/23

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