Literatura
Oportunidades na Cultura
Lídia Jorge aborda o outono da vida em “Misericórdia”
A escritora portuguesa Lídia Jorge (Frank Ferville/Divulgação)
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Oportunidades na Cultura
A escritora portuguesa Lídia Jorge (Frank Ferville/Divulgação)
Premiado na Europa, “Misericórdia”, da escritora portuguesa Lídia Jorge, chega finalmente ao Brasil por meio da Autêntica Contemporânea
Carol Cassese | Especial para o Culturadoria
Logo ao final da narrativa de “Misericórdia”, livro que acaba de chegar ao Brasil, pela Autêntica Contemporânea, a autora portuguesa Lídia Jorge, 64 anos, dedica a obra a duas pessoas. Uma delas, a mãe, Maria dos Remédios Silva Guerreiro, falecida em 2020, aos 92 anos, em consequência da Covid-19. “Minha mãe muito amada, que me pediu que escrevesse esta história”.
Na orelha do volume, há um texto que complementa, ao dizer que Maria Alberta, a personagem que atravessa este livro, inspira-se numa figura real, a mãe da escritora. “Foi ela que me pediu que escrevesse um livro chamado ‘Misericórdia'”, esclarece Lídia Jorge. “Foi falando disso ao longo do tempo em que esteve no lar (um lar para idosos, no Algarve), mas fê-lo, em particular, no último dia em que eu a vi e que nós não sabíamos que ia ser a última vez”.
À Agência Lusa, a escritora contou que o nome sugerido pela mãe veio da constatação, dela, de que havia “um desentendimento” no tratamento das pessoas. “Ela achava que as pessoas (que estavam nestes lares) procuravam ser amadas, mas que não as entendiam. Assim, pediu-me este livro para que se tivesse compaixão, e (desse modo) as tratássemos como se fossem pessoas na plenitude da vida”, revelou Lídia, nesta entrevista.
Parte da argamassa do livro viria de um material coletado pela própria mãe de Lídia. Durante cerca de um ano, Dona Remedinha, como era conhecida, registrou, em um gravador, não só pensamentos que lhe invadiam como o relato de acontecimentos que presenciava no lar para idosos.
A escritora confessa que, até o falecimento da genitora, não havia levado a sério o pedido materno. A partir da passagem, porém, Lídia Jorge passou a entender que “era uma encomenda irrecusável”.
Assim, dois anos após a morte de Dona Maria dos Remédios, a escritora lançava “Misericórdia” em Portugal. Na esteira, Lídia Jorge arrebanhou o Grande Prêmio de Romance e Novela 2022, da Associação Portuguesa de Escritores (APE); o Prêmio Literário Fernando Namora 2023, e o Prêmio Médicis Étranger 2023 (foi a primeira autora de língua portuguesa a receber a láurea). Não bastasse, o Prêmio Transfuge de Melhor Livro Lusófono 2023; o prêmio de Novela e Romance Urbano Tavares Rodrigues 2023, o Prêmio Eduardo Lourenço 2023 e o Prêmio PEN Clube Português de Narrativa 2023.
A história escrita por Lídia Jorge se passa no Hotel Paraíso, desenovelado pelo olhar de Maria Alberta Nunes Amado, a dona Alberti. “Imersos no Hotel Paraíso, somos impelidos a refletir sobre a condição humana em tempos incertos, sobre a velhice, seus momentos fugazes e seus becos sem saída”, diz a orelha de “Misericórdia”.

Em meio às 380 páginas, há relatos que vão soar familiares a quem tem idosos na família, como o constrangimento de ficar nu frente a um cuidador. Ou, ainda, a lida constante com a partida de amigos e conhecidos. “Aqui, no Hotel Paraíso, é raro o dia que alguém não morre”, diz Dona Alberti, em certo trecho.
Em tempo: o livro de Lídia Jorge também fala da imigração – no caso, por meio dos cuidadores que trabalham no Lar de Idosos. Há, inclusive, uma brasileira, Lilimunde, que veio do Pará. “Muito jovem, tão jovem que consta que nem idade tem para trabalhar numa instituição como esta”, diz a narradora. Lilimunde, na verdade, era mais jovem do que dizia ser, revela a escritora, no capítulo “O Turno da Noite”.
Já no capítulo “Verão”, revela-se que Lilimunde, além de atuar como cuidadora no Lar, também trabalha em um bar. No caso do lar, entrega metade do seu salário à Igreja de Marabá, por meio do bispo Romeu. “A rapariga de Marabá parece não ter consciência da sua situação precária”, diz a personagem de “Misericórdia”. No capítulo “Tripulação”, Maria Alberta narra a chegada de Habib e Ali, dois marroquinos, bem como Jordão, um brasileiro.
E, ainda, o ucraniano Igor, o moldavo Ivan (que, na verdade, está vindo de Cuba), a ucraniana Svetlana e duas romenas, Gabriela e Francine. Depois “daqueles cinco rapazes e três raparigas”, a equipe ainda recebeu “a chegada de uma Margarida e uma Duriel, e a tunisiana Maha”.
O Culturadoria conversou com a escritora Lídia Jorge, por intermédio da Autêntica Editora. Confira, a seguir, trechos da entrevista.
Atualmente, há uma espécie de consenso no que diz respeito à pertinência de debater temas como a velhice e o etarismo por meio da arte. Como você avalia e percebe esse movimento, que inclui com mais frequência essas temáticas nas representações?
Hoje em dia, a questão da velhice é um tema que está a ser muito debatido na sociedade porque se trata, ao fim e ao cabo, de uma questão de Direitos Humanos. A questão dos princípios e dos direitos esbarra com as condições reais daqueles que são vistos como figuras marginais em relação ao sistema da produção. As pessoas pensam ‘eles foram importantes, mas agora são inúteis, e então como os vamos tratar’?
A resposta não é fácil e incomoda. As artes e a literatura são harpas por onde as vibrações do questionamento passam sem cessar. Mas os temas referidos nunca podem estar isolados da totalidade da condição humana. Dona Alberti, a personagem principal do meu livro, é uma idosa, mas tudo o que ela evoca tem muito mais alcance, penso, do que a questão da idade, da doença ou da morte. Eu escrevi Misericórdia como celebração da vida.
Como surgiu a ideia de abordar o tema da migração na sua história?
Os emigrantes como personagem resultam do fato de, na vida real, serem figuras atravessadas de vivências muito fortes. O emigrante é um viajante que tem de atravessar distâncias e universos diferentes. Muitas vezes é encarado como um marginal que aproveita os espaços preteridos pelos outros. Sobre os seus ombros existem vários fardos e isso chama a atenção.
Neste livro, os marginais da idade encontram-se com os marginais econômicos, que são os seus cuidadores. Essa relação entre idosos postos de lado e jovens em instabilidade permite criar situações de grande tensão, e também de grande humanismo e compaixão. Nesse sentido, o Hotel Paraíso, o palco onde decorre a ação de Misericórdia, corresponde a um palco sobre o qual a batalha humana se desenrola sem cessar. E isso interessa-me, esse é o meu tema.
Ao longo dos anos, como você acredita que suas obras refletiram algumas das mudanças sociais e políticas em curso no mundo ocidental?
Muitas vezes os leitores referem os meus livros como sendo o espelho das mudanças que foram ocorrendo em Portugal. Nessa medida, os últimos anos das guerras de África, a transição da ditadura para a democracia, a transformação do país isolado que Portugal era num país aberto ao mundo e ao progresso, integrado na Europa Comunitária, serviu de pano de fundo onde se foram movendo as minhas figuras. Mas os meus livros, se são narrativas ancoradas na passagem do tempo histórico, como se fossem crônicas do tempo que passa, também refletem o que mais me atrai na tentativa de compreensão da vida humana – uma demanda em torno do sentido no nosso percurso pela Terra. Eu sempre encontro uma espécie de épica no enfrentamento que os homens e as mulheres desenvolvem diante do desconhecido que o futuro lhes vai trazer.
Num debate online promovido pelo Jornal Público e pela Revista Quatro Cinco Um, você falou da importância da aproximação artística entre Brasil e Portugal. Poderia nos falar um pouco mais sobre este assunto?
O Brasil é um país com uma potencialidade criadora extraordinária. A música brasileira é portentosa, tem modulações e sonoridades únicas, que pode exportar para todo o mundo. Existe uma exuberância em todas as artes do Brasil que é tocante, pelo volume e pela qualidade. Exuberância que se estende pela dança, pela pintura, pela escultura, pela arquitetura. O mesmo a nível literário.
Neste domínio, já não falo de canônicos como Guimarães Rosa, Drummond de Andrade ou Clarice Lispector, autores indiscutíveis. Falo de autores mais próximos da minha geração, desde Moacyr Scliar e Ignácio de Loyola Brandão, a Nélida Piñon ou Adélia Prado. São singulares e merecem continuar a ser difundidos com entusiasmo.
Mas, sobretudo, refiro os jovens escritores brasileiros, que são tantos e tão ousados. É uma alegria lê-los. E ultimamente estão traduzidos por toda a parte. Acabo de estar em Estocolmo. E quem encontro? Itamar Vieira Júnior e Tiago Ferro. Antes, Luiz Rufatto e Adriana Lisboa. A questão é que os livros entre os nossos dois países viajam pouco a nível do grande público. O Brasil, país jovem, olha sobretudo para os Estados Unidos da América. E Portugal, país antigo, olha sobretudo para a Europa. Ganhamos sempre que nos aproximamos, mas não há receita prévia para isso.
“Misericórdia” – Lídia Jorge
Lançamento: Autêntica Contemporânea (384 páginas, R$ 74,90). Ebook: R$ 52,90
Publicado por Carol Braga
Publicado em 14/10/24