Literatura
‘Guiné’ propõe travessia sobre morte e renascimento
Livro de Sara Lambranho e Tom Nóbrega será lançado neste sábado, 28 de fevereiro, na Livraria Jenipapo, em Belo Horizonte
Capa: Sara Lambranho / Editora Relicário
Literatura
Livro de Sara Lambranho e Tom Nóbrega será lançado neste sábado, 28 de fevereiro, na Livraria Jenipapo, em Belo Horizonte
Capa: Sara Lambranho / Editora Relicário
‘Guiné’ marca o encontro entre as artes visuais de Sara Lambranho e a escrita de Tom Nóbrega. Mais que um livro ilustrado, a obra constrói um campo comum de criação. Imagem e palavra operam em simbiose. O foco está no luto, na metamorfose e nos ciclos da vida.
Inspirado na cultura iorubá, o livro apresenta uma história ambientada em uma cidade africana. A narrativa parte de um itã, relato mítico dessa tradição. Assim, conduz o leitor por uma imersão nos ciclos da existência: nascimento, queda e renascimento.
Criado sob o impacto da pandemia de Covid-19, em meio ao luto coletivo, o projeto encontrou na cosmologia Bantu e no candomblé Angola bases para ressignificar a morte. O título remete tanto à região africana quanto à erva de proteção. Evoca, portanto, um espaço de passagem e espiritualidade.
A publicação reúne desenhos em nanquim e guache. O diálogo se estabelece entre o humano e o sagrado. Entre o medo da finitude e a esperança depositada em Oxalá. Nesse percurso, surge a galinha-d’angola como gesto simbólico de resistência à morte.
A obra se afasta da noção ocidental da morte como fim absoluto. Em Guiné, o vazio é transformação. “No candomblé, as vestimentas brancas e os pontos circulares pintados no corpo dos iniciados — em referência à galinha-d’angola — indicam essa relação com a ancestralidade. O branco da página, então, não é ausência, mas um campo onde a vida continua em outro movimento”, afirma Sara Lambranho, autora e idealizadora do projeto.
Os desenhos não delimitam formas estáticas. Capturam o instante da mudança. Humano, animal e planta se fundem. “O desafio de trabalhar com o branco foi menos técnico e mais simbólico. O papel já era branco — então a questão era como preservá-lo. Na cosmologia Bantu — matriz do candomblé Angola — o branco está associado ao mundo dos mortos e dos ancestrais. Ele marca o ciclo vida-morte-renascimento e representa o estado espiritual que antecede um novo retorno”, explica.
A morte surge como movimento de queda que conduz a outro estado. “A morte não é ruptura, mas passagem: um trânsito que reinscreve a energia de quem partiu no território. Visualmente, busquei construir imagens em que a queda atravessa diferentes esferas da vida na cidade — humanos, plantas e animais”, reflete Sara. “As hachuras feitas com caneta nanquim criam um ritmo e imprimem um movimento contínuo, como um pulsar interno nos elementos, conectando os seres em uma relação permanente.”
Na parceria com Tom Nóbrega, texto e imagem não se explicam. Dialogam. O texto poético trabalha o “corpo-história” e a memória. O traço amplia sentidos. Em Guiné, as figuras estão em trânsito. O animal vira planta. O humano vira bicho. As fronteiras se desfazem para revelar um ciclo maior.
Lançamento do livro “Guiné”
Data: sábado, 28 de fevereiro
Local: Livraria Jenipapo – Belo Horizonte
Preço de capa: R$ 69,90
Publicado por juniodecarvalho
Publicado em 26/02/26