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Literatura

Sobre minha filha: romance de Kim Hye-jin discute o peso da homofobia na Coreia do Sul contemporânea 

Hye jin Kim. Foto: Minumsa

Jovem e premiada autora sul-coreana, Kim Hye-jin é traduzida pela primeira vez no Brasil, em romance que aborda conflitos aparentemente inegociáveis entre mãe e filha

Por Gabriel Pinheiro | Colunista de literatura

Uma filha, na faixa dos trinta anos, retorna à casa da mãe. Ela está sem emprego fixo. Sendo assim, tenta se equilibrar em um contrato temporário como professora horista na universidade. Ou seja, está impossibilitada de manter o próprio aluguel. 

Para a mãe, uma cuidadora de idosos, que se divide entre o pequeno sobrado onde mora e a clínica em que trabalha, o retorno da filha causa uma alteração significativa na rotina. É que ela não vai morar sozinha com a mãe, mas ao lado da companheira de longa data. Green, a filha, é lésbica. 

Assim, um abismo aparentemente intransponível parece se formar entre as duas mulheres sul-coreanas. “Sobre minha filha” é o primeiro livro de Kim Hye-jin publicado no Brasil. Com tradução de Hyo Jeong Sung e uma bela capa de Susa Monteiro. O livro é um lançamento da Fósforo Editora.

Conflito geracional 

Kim Hye-jin constrói nesse romance um potente conflito de gerações. 

“Minha filha nasceu do meu ser. A partir do momento em que apareceu na minha vida, ela desfrutou de cuidados e proteção incondicionais. Mas agora age como se não tivesse nada a ver comigo. Como se tivesse vindo ao mundo sozinha”. 

Para a mãe, o caminho natural para uma mulher era aquele que trilhara até então. Ou seja, um casamento heteronormativo, filhos, a manutenção de um lar e um emprego que permita a estabilidade. Percebemos na mulher o enraizamento profundo das próprias certezas. Afinal, não vê porquê questionar as crenças que a guiaram até ali. 

“Tenho o direito de ver minha filha, que criei com tanto sacrifício, viver normalmente, levar uma vida normal como todo mundo. ‘E o que é uma vida normal? O que tem de errado com a minha vida?’ Minha filha fala cada vez mais alto”. 

A autora constrói diálogos fortes e dolorosos entre as três mulheres: mãe e filha, sogra e nora. Há uma crescente fúria no discurso da mulher, quanto menos ela parece entender a legitimidade do relacionamento da filha. “Deixo escapar essas palavras de faixa sem procurar me conter. Deixo que todo o desgosto, todo o preconceito e todo o ódio queimem dentro de mim”.

Capa de Sobre Minha Filha Foto Fósforo Editora
Capa de Sobre Minha Filha Foto Fósforo Editora

A Coreia do Sul contemporânea (e seus pontos de contato com o Brasil)

Um ponto interessante da narrativa, é a construção da protagonista para além do papel de mãe. Como cuidadora de idosos, ela percebe a deterioração do próprio ambiente de trabalho. Um local cada vez mais insalubre para ela e, sobretudo, para os pacientes, vulneráveis entre trocas de fralda, o cheiro de excrementos e as escaras que insistem em macular a pele. 

Há aqui um ponto de encontro entre as duas gerações de mulheres. Se a mãe, pouco a pouco, questiona o próprio ambiente de trabalho, assim também o faz a filha. Professora horista na universidade, ela acompanha uma série de demissões de colegas por motivos injustificáveis. Contra isso, participa de uma sequência de protestos que, exponencialmente, são respondidos de maneira cada vez mais violenta. 

Kim Hye-jin desenha um retrato bem delicado da Coreia do Sul contemporânea. Sobretudo a respeito da instabilidade econômica e a necessidade de submissão, pela população, a trabalhos sem direitos ou garantias mínimas trabalhistas. 

Além disso, discute o peso da homofobia, carregada nas tradições do país, e o efeito na vida contemporânea ali. Por mais distantes que nossas culturas pareçam ser, é impossível não relacionar tais questões ao Brasil hoje. Tais pontos são tão urgentes tanto lá quanto aqui.

“Se estamos aqui, é porque existimos”

Talvez o maior mérito do livro seja a verossimilhança. É possível que, inclusive, conheçamos a protagonista. Pode ser uma vizinha, alguém da família – nossa própria mãe, por que não?  Se na vida real, superar os próprios preconceitos e certezas – muitas vezes, um processo iniciado desde a infância, onde o peso da tradição parece obliterar a visão – não é tarefa fácil, assim também não o é na narrativa de Kim Hye-jin. 

“Eu nasci, cresci e envelheci neste país, onde ignorar e guardar o silêncio a respeito do que acontece ao redor é considerado virtude e polidez”. 

Num texto que preza pela fluidez, uma mãe passa por um intenso e doloroso processo de autoconhecimento, na medida em que, ainda que não deseje, conhece um lado da filha que, até então, preferia fingir não existir. 

Encontre “Sobre minha filha” aqui.

Gabriel Pinheiro é jornalista e produtor cultural. Escreve sobre literatura aqui no Culturadoria e também no Instagram: @tgpgabriel (https://www.instagram.com/tgpgabriel)

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Publicado por Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura

Publicado em 31/01/23

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Sobre minha filha: romance de Kim Hye-jin discute o peso da homofobia na Coreia do Sul contemporânea 

Hye jin Kim. Foto: Minumsa

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