Literatura
Joaquim Arena imagina encontro de duas figuras fascinantes
“Siríaco e Mister Charles”, romance do escritor cabo-verdiano, foi grande vencedor do Prêmio Oceanos em 2023.
Joaquim Arena | Foto: Sara De Santis/Flip)
Literatura
“Siríaco e Mister Charles”, romance do escritor cabo-verdiano, foi grande vencedor do Prêmio Oceanos em 2023.
Joaquim Arena | Foto: Sara De Santis/Flip)
Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura
Dois personagens e uma mesma época. Ainda que contemporâneos um do outro, eles têm origens diferentes, com experiências de vida absolutamente distintas. Na vida real, eles não se encontraram – pelo menos até onde se sabe. Mas a literatura tem um poder fascinante: a capacidade de unir personagens por meio da ficção, imaginando o que poderia ter sido.
Siríaco, um homem negro, ex-escravizado, com a pele riscada de branco pelo vitiligo. Charles Darwin, um jovem e, ainda, desconhecido cientista com um futuro promissor. Siríaco e Darwin, uma improvável amizade. “Siríaco e Mister Charles” é um romance do escritor cabo-verdiano Joaquim Arena publicado no Brasil pela editora Gryphus.
Vencedor do Prêmio Oceanos em 2023, “Siríaco e Mister Charles” imagina, dessa forma, o encontro inusitado entre duas figuras fascinantes, ambas reais e contemporâneas no tempo e – é possível – no espaço. O cenário é a Ilha de Santiago, no Cabo Verde, no século XIX, ainda colônia portuguesa.
À bordo do navio Beagle, um jovem Darwin desembarca no continente africano para uma expedição científica. Coletando espécimes e registros da fauna e da flora ali existentes, o naturalista britânico conta com a ajuda de um residente da ilha. É Siríaco, um velho negro, ex-escravizado nascido no Brasil, chamado por muitos de “homem tigre”, devido à sua pele afetada pelo vitiligo. No passado, Siríaco serviu à corte portuguesa, visto como um exótico objeto de fascínio, exposto como atração devido à condição incomum – à época – de sua pele.
“Era o mesmo desejo que meio mundo tinha em saber até onde ia a mancha leitosa que Deus ou o demônio haviam derramado sobre ele. Esta pele, que o cobria como um manto branco esburacado, sustinha-lhe a alma, os medos e o pensamento.”
Joaquim Arena constrói, assim, um grande romance histórico que não teme em buscar na ficção as lacunas que cartas e documentos não são capazes de preencher. Nesse sentido, é fascinante a ideia de promover o encontro entre essas duas figuras. Juntos, Siríaco e Mister Charles – como ele chama o jovem Darwin – desenvolvem um elo singular, uma amizade que atravessa o tempo e o espaço, a distância e o esquecimento. No pano de fundo desse encontro, o texto de Joaquim Arena descortina um mundo em plena efervescência de transformações políticas, científicas, sociais e culturais.
“Por muito que se conheça o mundo, somos sempre pequenos aprendizes, de uma maneira ou de outra. O velho sempre fizera do conhecimento a sua principal arma contra a maldade dos homens.”
Em suma, “Siríaco e Mister Charles” é um romance como nenhum outro, singular em sua proposta e na maneira como reescreve e reimagina a história. Numa prosa elegante e poética, o autor cabo-verdiano lida, por exemplo, com questões como o racismo, a violência do processo de colonização, as diferenças, a raça, a amizade, o respeito e a memória. Quantas de nossas memórias, se voltássemos no tempo para reencontrá-las, não descobriríamos serem inventadas? Joaquim Arena, munido do poder da escrita da ficção, imagina uma amizade possível e, assim, inventa um novo mundo.
“Mergulhou o corpo felino na água e pensou em como nunca sentira tão intensamente a beleza e a solidão daquele mar. Recuperou um marulhar suave de que já não tinha memória e entregou-se àquela massa líquida, como quem abandona o cais da vida.”
Encontre “Siríaco e Mister Charles” aqui.
Gabriel Pinheiro é jornalista e crítico de literatura. Escreve aqui no Culturadoria e também em seu Instagram: @tgpgabriel.

Publicado por tgpgabriel
Publicado em 13/03/26