Literatura
Itamar Vieira Junior: olhar para os silenciados
Itamar Vieira Junior em foto de Renato Parada/Divulgação
Literatura
Itamar Vieira Junior em foto de Renato Parada/Divulgação
Em entrevista coletiva, o escritor soteropolitano Itamar Vieira Junior fala sobre o novo livro, “Salvar o Fogo”, o sobre as fontes de sua literatura
Patrícia Cassese | Editora Assistente
Em meio às generosas respostas dadas por Itamar Vieira Junior às perguntas dos jornalistas que participaram da entrevista online concedida pelo escritor no dia 27 de abril, vários trechos iam organicamente se candidatando a inspirar a formatação do “lead” – a famosa introdução da matéria resultante daquela experiência.
A coletiva em questão teve como mote o lançamento, pela editora Todavia, de “Salvar o Fogo”, o segundo volume da saga iniciada pelo vitorioso “Torto Arado”, que aportou no Brasil em 2019.
Este, como todo mundo bem acompanhou, embora não responda pela primeira investida de Itamar no mercado editorial, se tornou um fenômeno. A obra alcançou aprovação de público e crítica e, não bastasse, arrebatou prêmios literários como o LeYA (em Portugal), o Oceanos e o Jabuti.
Na conversa com a imprensa, porém, um ponto acabou se sobressaindo de modo também espontâneo: o empenho de Itamar em tentar, por meio de sua literatura, dar voz aos invisibilizados neste país de proporções continentais chamado Brasil.
Pessoas com as quais Itamar se conectou não só por força da profissão, mas, tanto quanto, pela consciência de suas próprias raízes.
“Durante muito tempo, eu, como leitor de literatura – e leitor de literatura brasileira -, fiz buscas por histórias que espelhassem a condição da minha família, das minhas origens. A condição das pessoas que eu conhecia, da minha comunidade, que estavam à minha volta”, relatou ele .
Mais tarde, prossegue ele, “trabalhando com mais afinco com pessoas que estão em situação de vulnerabilidade”, a sensação de ausência de representatividade só se acentuou. “Eu não via a voz, a imensidão, a vida íntima daquelas pessoas, narrada de maneira digna, justa e honesta nas artes”, comenta Itamar, que, nascido em Salvador, em 1979, formou-se em Geografia, sendo servidor público (no momento, licenciado) do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, o Incra.
Vida, estudos e trabalho se tornaram importantes pilares para o conhecimento, por parte de Itamar, do chamado Brasil profundo, aquele que raramente aparece nas representações mais recorrentes da nação. Os tais cartões postais que vingam não só lá fora, mas, incompreensivelmente, no próprio território brasileiro, ao menos para tantos.
Consequentemente, Itamar prefere olhar para os invisibilizados. “Com toda a minha experiência e vivência, pude ver pessoas passando por situações que se repetiam. Vivendo conflitos que muitas vezes são narrados e, depois, esquecidos”, lamenta o escritor.
“Ninguém se importa”, desola-se Itamar. “A não ser quando acontece uma tragédia da proporção como a que atingiu os ianomâmis, lá, em Roraima. Aí de fato parece que o país desperta. E, mesmo assim apenas por um tempo”, observa. “Depois, tudo isso é esquecido e seguimos a vida. Então, é nesse sentido que penso ser relevante falar sobre todos. Escrever sobre todos. Só assim é possível compreender a história deste país. A nossa história”.
“Salvar o Fogo”, portanto, reforça este foco nos esquecidos. Mas, que fique claro. O olhar de Itamar Vieira Junior não se sustenta pelo viés altruísta, mas, sim, pela riqueza que enxerga ali, abrigada neste contingente. “Todos nós, independentemente da nossa origem, da nossa condição social, de onde a gente vive, carregamos uma odisseia”.
Essas pessoas invisibilizadas, continua ele, estão na paisagem, ao nosso entorno. “E estão ‘em silêncio’ o tempo todo, nos lugares onde a gente transita. Quem está dirigindo os ônibus? Quem está fazendo aquele trabalho cotidiano de limpeza, muitas vezes, de forma quase mecânica? As pessoas passam por elas e nem as cumprimentam. Elas estão quase que invisíveis”, pontua Itamar.
O escritor prossegue: “Agora, se a gente entregar a elas um caderno e um lápis, ou um microfone, um gravador… Ou mesmo se a gente observar as suas vidas, vai descobrir um mundo interior rico, imenso”.
Itamar Vieira reitera que, assim, o seu olhar literário está voltado para esta parte expressiva – “e talvez predominante” – da população. “Ainda que esse silêncio, por parte dessas pessoas, seja fruto de uma imposição. E que cada um acabe criando sua estratégia para romper com esse muro de silêncio e fazer reverberar a sua voz”.
São personagens que aprenderam a conviver nesse ambiente hostil, no qual muita coisa não é dita. Ou não pode ser dita. “Sob o risco que aquelas pessoas sejam destruídas, eliminadas, pelo seu entorno”, explica Itamar. “Assim, as pessoas vão aprendendo a conviver, a se portar diante um mundo tão hostil”.
O pulo do gato da literatura, pondera Itamar, é ter o poder de mostrar o mundo interior dos silenciados. “Coisas que não são ditas, mas que, através da história, revelam uma vida interior muito intensa. Na literatura, as personagens vão revelando seus pensamentos, suas histórias, mesmo sem dizer”.
Isso porque, na seara das letras, é possível falar de pensamentos. “A narrativa pode demonstrar pensamentos, verbalizar pensamentos. Ou podemos compreender (o que os personagens pensam) até pelo contexto. Ou seja, ao fim, o muro de silêncio é rompido, e não necessariamente por uma voz, mas pelas circunstâncias. Pelo movimento das personagens, pela ação delas, por atos e gestos”.
Itamar exemplifica: “Quando a personagem Luzia se veste com o manto, ela pode não estar falando nada, mas, ainda assim, é um gesto que está rompendo com o silenciamento que acompanha esses personagens desde sempre”.
A ideia que forma a espinha dorsal de “Salvar o Fogo” surgiu ainda durante o processo de escrita de “Torto Arado”, conta Itamar. “Naquele momento, percebi que queria continuar tratando das questões da terra, da relação de homens e mulheres com a terra. Só que não havia mais espaço em ‘Torto Arado’ para continuar essa história, porque mudaria totalmente a perspectiva”. Era, pois, algo que demandava um outro volume, um outro romance.
Itamar lembra que “Torto Arado” foi publicado inicialmente em Portugal. “E, aí, a minha grande questão passou a ser quando seria publicado no Brasil. Além da editora de lá, eu mesmo me movimentei para saber quem toparia publicar o livro aqui. E a primeira pessoa com a qual entrei em contato foi o Leandro Sarmatz (editor da Todavia)”.
Naquele momento, Itamar teve o cuidado de escrever um longo e-mail contando a história do livro. “Também juntei tudo o que foi escrito na imprensa de Portugal, além de ter enviado o exemplar físico. E lá, no meio do e-mail, falo que ‘Torto Arado’ era o começo de um projeto maior que estava em andamento. Para ele saber que ali era o início, que a história continuava”.
Sorrindo, Itamar diz que só não foi mais objetivo por ser muito cioso do que está escrevendo. “Eu não gosto de compartilhar muita coisa enquanto estou no processo. O Leandro mesmo sabe, sendo editor, trabalhando há muitos anos: tem autores que mandam capítulos. No meu caso, segurei a história, só liberei quando tinha 90% dela escrita. E ele foi muito paciente, não me cobrou em nenhum momento”.
O soteropolitano explica o motivo de não querer dar muitos detalhes do que está por vir. “Uma coisa é imaginar, a outra é executar, concluir. Sempre pode ter algo no meio do caminho que pode te impedir de concluir a história. Mas sim, essa já surgiu quando escrevia ‘Torto Arado’, e uma das personagens da primeira história vai aparecer com mais força agora. Lá atrás, eu já sabia que iria narrar a história dessa personagem e das pessoas que estavam no seu entorno”.
Neste fluxo criativo que já vinha dos tempos de escrita de “Torto Arado”, Itamar admite que o difícil foi ter tempo para dar vazão à escrita de “Salvar o Fogo”. “Antes ainda de publicar ‘Torto Arado’, achei que ia escrever este segundo romance em 2018, mas não consegui por uma série de motivos pessoais. E também profissionais”.
Depois que “Torto Arado” chegou às livrarias, Itamar comenta, também sorrindo, que chegou a pensar: “Pronto, agora o livro já está nas livrarias, não preciso fazer mais nada. Ledo engano. Fui absorvido por tudo o que veio, e só conclui de fato essa história no ano passado, mesmo tendo sido algo que surgiu antes”, diz.
Itamar inclusive conta que já tem delineada, em suas anotações, a história do livro que vai fechar a trilogia. “Antes de encontrar vocês, eu fui tomar banho e, lá, me veio uma série de ideias, mas não deu tempo de anotar. Assim que encerrar aqui, vou anotar tudo aquilo (risos) para não esquecer. Porque as ideias vêm e digo: ‘Isso precisa estar’. Mas não sei se será necessariamente no próximo livro, talvez não”.
A pressa, ele garante não ser sua companheira.
Perguntado sobre o desafio de lançar um novo romance após o estrondoso sucesso de “Torto Arado”, Itamar diz: “Se eu disser que não (se sentiu pressionado), posso estar mentindo, mas aprendi a conviver com isso. ‘Torto Arado’ não foi o primeiro livro que escrevi. Antes, já tinha duas obras publicadas. E se for voltar na minha história, vou dizer que escrevo desde a infância, então, a literatura sempre fez parte da minha vida”.
Itamar é enfático: “Só um trauma muito grande poderia me fazer parar de escrever. Mas aí, tudo que aconteceu com ‘Torto Arado’, todo o burburinho ao redor do livro, a quantidade de leitores que o livro conseguiu, de traduções, de prêmios… De fato, para alguém que não era conhecido no cenário nacional, pode ser bom (para fazer com que sua literatura seja conhecida), mas também pode causar algum tipo de bloqueio. A pessoa pode não conseguir fazer mais nada”.
“Eu tinha consciência disso e cheguei a um momento crítico”, diz Itamar, referindo-se ao momento logo após o anúncio dos prêmios Oceanos e Jabuti. “Falei: ‘Ah, agora vou cuidar da minha vida, o que tinha que acontecer com ‘Torto Arado’ já aconteceu. E ledo engano, porque ali, depois disso, o livro vendeu muito, conquistou muitos leitores. Precisei falar com muitas pessoas sobre esse livro”.
E continua falando. “Mas teve um momento que vi que não poderia viver em função de ‘Torto Arado’. Meu projeto literário é maior que esse romance. Eu preciso de tranquilidade para poder escrever, e fui cavando. Assim como cavei tempo para escrever ‘Torto Arado’, porque eu trabalhava, tinha inúmeras atividades e não tinha tempo”.

Mas Itamar diz que se perguntarem se foi do mesmo jeito (a escrita), ele terá que assumir que não foi. “Porque tinha muitas interrupções. Eu tinha uma jornada de trabalho estendida, porque era servidor público. Ainda sou, mas agora eu estou licenciado. Mas, à época, continuava viajando para divulgar ‘Torto Arado’, convidado para festivais e outras coisas, e tinha que escrever. Porque, para mim, escrever é importante, né? É parte do que eu sou”.
Itamar conta que eventualmente tem se dedicado a ministrar oficinas de escritas. “Que não são necessariamente para ensinar a escrever (risos), porque ninguém ensina ninguém a escrever. Mas a gente discute literatura, as engrenagens da ficção. E eu tenho chamado essas oficinas de ‘Escrever é Estar Vivo'”, conta.
Ao explicar o motivo, Itamar cita a escritora Clarice Lispector. “Naquela célebre entrevista ao Jaime Lerner. Ele pergunta: ‘E quando você não escreve, o que sente?’ E ela diz: ‘Quando não escrevo, eu estou morta’. Devo ter visto há 20 anos essa entrevista e, refletindo sobre isso, pensei: ‘Bom, se não escrever é estar morto, então, escrever é estar vivo’. E é mais ou menos isso que sinto quando escrevo”.
Escrever é vida, pontifica Itamar. “Porque você está cercado de personagens, de narrativas, de histórias. Pra mim, seria muito duro se eu não pudesse mais escrever”.
Assim, hoje, da porta de sua casa para fora, tudo que está acontecendo com “Torto Arado”, diz Itamar, fica para lá. “Aqui dentro, no meu local de trabalho, com as pessoas que vivem comigo, com as pessoas que eu amo… Aqui, sou apenas o velho Itamar que continua a escrever. Assim eu consegui estabelecer um limite, coloquei de fato uma barreira para eu não me afetar. E acho que deu certo”.
A inspiração para as mulheres de sua literatura, diz Itamar, vem, primeiramente, das mulheres que o cercaram “desde sempre, desde que criança”. “Eu, como muitos de nós, cresci numa família na qual as mulheres são as personagens fortes. Elas saltavam aos meus olhos, ao meu sentido observador. Então, a minha convivência com elas me ensinou muito sobre o que carregam”.
Ele prossegue: “Não estou dizendo que são mulheres uniformes, que todas são corajosas, nem que todas… enfim, que todas carregam essa força. Acho que carregam forças sim, mas são forças distintas. Fui aprendendo a observar tudo isso e acho que elas emergem com força nos meus personagens”.
Depois, trabalhando no campo – já há 17 anos que Itamar trabalho viajando, conhecendo pessoas, em especial no Nordeste -, foi percebendo que a força de suas familiares podia ser detectada também naquelas mulheres com as quais se deparava, às vezes liderando famílias, comunidades”.
Em um encontro recente com livreiros, Itamar conta que ponderou que, se estamos falando de histórias que propõem uma perspectiva decolonial (“uma perspectiva nova, um outro olhar sobre a história e sobre as personagens do Brasil”), é preciso lembrar que a antítese, o empreendimento colonial, foi gestado e projetado por homens.
“Então, tudo aquilo que às vezes permanece como nocividade na nossa sociedade tem uma relação com esse pensamento patriarcal. Assim, se é uma história que se propõe decolonial, precisa trazer tudo aquilo que foi apagado, silenciado. E as mulheres foram muito silenciadas ao longo desses séculos, na participação da vida ativa, do pensamento do País”.
Assim, Itamar entende que, por meio da literatura, pode tentar devolver a elas um pouco desse protagonismo, ou do equilíbrio usurpado pelo patriarcado. “Acredito que seja talvez por isso que elas estejam tão presentes nas minhas narrativas, e que sejam marcantes também”.
Itamar diz que, em “Salvar o Fogo”, no que tange à abordagem de aspectos religiosas, lhe interessava muito menos as práticas, as liturgias. “Me interessava mais narrar a igreja como uma cúmplice do empreendimento colonial. E isso está na história, isso é trazido na narrativa a partir da perspectiva das personagens”.
Algumas delas vivem ao redor do mosteiro, que controla as terras da região. Quem pode e quem não pode cultivá-las. “Uma vida de profundo sentido religioso, eles levam também. Mas o cristianismo apagou muita coisa que existia antes. Então, tudo isso, de alguma maneira, vai surgindo ao longo da narrativa”, critica Itamar.
O autor sempre faz questão de lembrar que os colonizadores não chegaram sozinhos na América, mas, sim, acompanhados de religiosos. “E a primeira coisa colocada no solo, quando se invadiu a América, foi uma cruz. Essa cruz, ela ainda é uma sombra sobre nossas vidas. Então, tudo isso talvez nos convide a refletir sobre a nossa história e tudo aquilo que foi silenciado”.
E ainda mais. Itamar argumenta que, quem for pesquisar a história da igreja católica (“e é uma coisa que faz parte de mim, conhecer, ler, me informar”), vai entender que ela era uma grande detentora de escravizados no período colonial. “Talvez mais do que fazendeiros, latifundiários. Talvez a maior detentora de escravos do Brasil”.
E muitos deles, prossegue Itamar, eram tratados com a mesma crueldade pelo prelado. “Talvez (essa constatação) seja um convite a refletir a igreja não apenas como seu aspecto litúrgico e religioso, mas como esse agente cúmplice do empreendimento colonial mesmo”.
Perguntado sobre possíveis adaptações de “Salvar o Fogo” para teatro ou cinema, Itamar desconversa. “O livro chegou agora às livrarias, então, vamos ver o que as pessoas vão achar (risos), se é uma história que merece ser adaptada, se tem interesse, se merece ser transposta”. E situa: “Eu não tenho participado de nada que envolve projetos de adaptação”.
“Acho ótimo, excelente. Mostra que o livro atingiu quem está tocando esses projetos. Mas não posso me ocupar disso”, diz Itamar. “Eu conheço literatura. E sou apreciador do teatro e do cinema e do audiovisual, mas não sou capaz de me envolver naquilo que eu fiz, que escrevi, e perceber mudanças etc. Para mim, seria muito duro”.
Itamar salienta que prefere assistir a adaptação já pronta, como espectador. “Mas, por enquanto, não há nada dessa natureza em relação a ‘Salvar o Fogo’. (neste momento, a assessora de imprensa da Todavia esclareceu que as negociações para este livro ainda não foram abertas, embora a editora já tenha recebido manifestações de interesse).
“Se eu deixo livre (as adaptações de sua obra para outros formatos? Veja, se adquirem direitos, isso está no contrato. É uma adaptação”, diz Itamar. “Agora, claro, todos me prometem fidelidade, mas é difícil ter controle sobre isso. No entanto, confio neles”.
Assim, Itamar pondera que, até agora, os diretores que se envolveram com “Torto Arado” são pessoas renomadas. “Eu assisti à adaptação ‘Depois do Silêncio’, da Christiane Jatahy, que está circulando na Europa e EUA. Há muitas semelhanças, mas ali também há um toque dela como encenadora, dramaturga. E acho isso sensacional”.
“Eu prefiro acreditar que ela usou da liberdade de criação e fez uma obra que é uma adaptação. Inspirada no livro, mas que também tem a marca dela. E acho isso excepcional, gostei, aplaudi”.

Itamar lembra que há outras duas adaptações à vista, a de Audri Anunciação para o teatro e a do Heitor Dhalia para o audiovisual. “Estou aguardando para ver se merecem aplausos (risos), mas, pelos grandes diretores que são… O Audri é ator, dramaturgo, uma pessoa incrível. O Heitor também nem se fala, tem uma trajetória excepcional, eu acredito que vão dar o melhor deles para contar essa história”.
Itamar analisa que uma questão que perpassa toda a narrativa, e aí, em ambos os livros, assim como no outro que está por vir, é que não há vida sem território. “Não há dignidade humana. A vida não é possível se a gente não tiver um chão para estar”.
E aí ele diz estar pensando nas pessoas que são obrigadas a se deslocar cotidianamente, diariamente, porque não têm terra, casa. “Porque o aluguel aumentou e precisam ir para outro lugar. Ou então, porque aconteceu alguma coisa, uma área vai ser desapropriada para a construção de um edifício. Estou pensando em pessoas que vivem processos de desterritorialização”.
Assim, isso acontece em “Torto Arado” e também em “Salvar o Fogo”, mesmo que de maneiras distintas. “Eu penso que o meu olhar vai estar sempre voltado para aqueles que de fato estão na linha de frente deste processo de expropriação”.
Em “Torto Arado”, ele entende que os silenciados foram colocados de uma forma muito emblemática pela personagem Belonisia, que perde a língua. “Enfim, ela é a personagem que não tem voz para o mundo. Mas a maravilha da literatura é que nós acessamos o pensamento dessa mulher – e ali não há silêncio”.
Para Itamar, ela é uma fera, “rugindo, uivando, falando o tempo todo”. Uma força da natureza.
“Eu acho que o grande barato da literatura é esse! Porque a gente não vai ver apenas a personagem. A gente vai mergulhar no seu mundo interior, no seu universo”.
Na entrevista, Itamar toma a palavra para lembrar que, muitas vezes, a imposição do silenciamento é internalizada. “Em ‘Torto Arado’, existia um afeto às vezes mais ‘dado’ das personagens, em ‘Salvar o Fogo’, esse afeto é muito contido. As pessoas não conseguem nem verbalizar o que sentem. Há um momento que diz assim ‘amor não é um verbo para se conjugar entre essas pessoas'”.
As personagens, pois, não sabem conjugar o verbo amar tal qual nós o conhecemos. “Elas amam, sim, mas amam de maneira diferente. Elas vão demonstrando o que não podem falar, o que está sufocado, pelos gestos. É um prato de comida que se põe na mesa, é uma roupa que é lavada. Coisas que vão devolvendo humanidade a elas”.
“E pensando assim, as personagens estão gritando para a gente o tempo todo. Elas gritam aqui, ó (bate em seu peito) e, depois, para os leitores. Como a dizer: ‘Olha, a minha vida pode parecer banal, mas, ainda assim, há muita humanidade aqui, sabe?’. Ainda há muita vida lá dentro”.
Itamar Vieira Junior lembra que, algumas vezes, parece soar como fetiche falar de vidas pobres. “O desprezo é tão grande por certas pessoas. O desprezo de uma certa elite, uma elite intelectual, uma elite financeira. Parece que a gente está, enfim, enfiando o dedo na ferida. E que isso é muito feio de se ver”.
Ele simula uma voz: “Ah, eu não quero ver isso, não quero mais ver miséria, isso é muito feio, não quero ver”.
E arremata: “Parece que a miséria está posta ali para entreter as pessoas. E é justamente o contrário. É dizer que, infelizmente, a trajetória dessas pessoas não foi diferente pelas circunstâncias históricas e sociais. E se a gente quer de fato conhecer o nosso país de uma maneira profunda e honesta, tem que olhar para todos”.
Itamar é incisivo: “Não haverá democracia no país se ele não for para todos. Se a gente não olhar para todos, inclusive para os que estão esquecidos”.
O escritor faz uma pergunta importante: “Quem aqui se lembra aqui da história do ‘índio do buraco’? E faço uso dessa expressão, que é muito pejorativa, pelo fato de que muitas pessoas conhecem esse personagem a partir desse título”.
Em agosto do ano passado, a Funai informou a morte do “índio do buraco”, último remanescente de uma etnia que foi massacrada na década de 1990. O indígena, que vivia na terra Tanaru, em Rondônia, era monitorado há 26 anos pelo órgão.
Os índios isolados que viviam na região foram alvo de diversos ataques durante as décadas de 1980 e 1990, lembrou a reportagem da Agência Brasil. Assim, o grupo do índio, que já era pequeno, acabou dizimado, deixando como único sobrevivente o homem, que tinha como característica marcante escavar buracos dentro das palhoças onde vivia.

De acordo com a Funai, na década de 80, a colonização desordenada, a instalação de fazendas e a exploração ilegal de madeira em Rondônia provocaram sucessivos ataques aos povos indígenas isolados, num constante processo de expulsão de suas terras e de morte.
Segundo a Funai, após o último ataque de fazendeiros ocorrido no final de 1995, o grupo do índio isolado que provavelmente já era pequeno (a partir de relatos, a equipe local acreditava serem seis pessoas) tornou-se uma pessoa só.
Os culpados jamais foram punidos. Em junho de 1996, o órgão teve o conhecimento da existência e da traumática história deste povo, a partir da localização de acampamento e outros vestígios de sua presença.
Itamar comenta: “Ele não conseguia se comunicar porque as pessoas que falavam a sua língua morreram. Ele viveu em silêncio na floresta até ano passado, quando morreu. Viveu em silêncio por mais de 20 anos, não tinha com quem se comunicar. Era o único sobrevivente de sua etnia. E esse homem, a vida dele nos importava. Porque, com ele havia, a história de um país inteiro”.
E, infelizmente, prossegue Itamar, não teve oportunidade de terminar seus dias cercado pelas pessoas que importavam para ele. “Terminou sozinho porque não conseguia se comunicar. Aliás, não é que ele não conseguisse se comunicar. Nós é que éramos incapazes de compreender a verdade. Nós é que éramos incapazes de compreender o que ele tinha a dizer com todo o silêncio dele, com tudo que viveu ao longo dos anos”.
É isso que interessa Itamar na arte, na literatura. “Não esperem nada diferente. Acho que, vez ou outra a gente, a gente pode até ver personagens e circunstâncias diferentes (na obra de Itamar), mas, ainda assim, o que me interessa é o que essas pessoas (silenciadas) têm a dizer. Pessoas que muitas vezes estão alijadas de tudo, inclusive de coexistir com todos, conosco”.
Itamar diz que traz esse ensejo em si desde sempre. “Primeiramente, por conta das minhas origens. Eu vim de uma família de pessoas muito semelhantes às personagens que habitam o que escrevo. Então, não poderia falar, por exemplo, sobre uma professora intelectual da universidade. Não faria sentido pra mim, para a minha vida”.
A história, diz o autor, sempre foi contada pelos “vencedores entre aspas”. “Aqueles que se julgam vencedores, entre aspas. Isso já está posto, escrito. A gente pode acessar. Me interessa escrever o que não foi escrito. A história daqueles que não puderam escrever suas histórias”.
“Neste momento, tenho um enfoque no campo. É provável que daqui a um tempo outras coisas estejam aí, no meu campo de interesse, que isso possa estar espelhado em outros contextos, em outros territórios que não apenas o do campo”, aventa.
Publicado por Carol Braga
Publicado em 12/05/23