Curiosidades sobre o Pavilhão Yayoi Kusama no Inhotim
A obra Aftermath of Obliteration of Eternity, de Yayoi Kusama no Inhotim. Foto: Daniel Mansur
A obra Aftermath of Obliteration of Eternity, de Yayoi Kusama no Inhotim. Foto: Daniel Mansur
Depois de oito anos sem novos pavilhões permanentes, o Instituto apresenta o Pavilhão Yayoi Kusama, que abarca duas obras imersivas da artista japonesa
Patrícia Cassese | Editora Assistente
Aos 94 anos de idade, completados no último dia 22 de março, a escritora e artista japonesa Yayoi Kusama transformou-se, definitivamente, e de modo involuntário, em um fenômeno pop de proporções que impressionam. Por exemplo: dada a frenética procura, a Tate Modern, de Londres, teve que prorrogar por praticamente um ano (do fecho inicialmente previsto) a exposição “Infinity Mirror Rooms”. Está em cartaz desde junho de 2021 e fica em cartaz até abril de 2024.
Não só. Depois do êxito da campanha de 2012, a icônica marca Louis Vuitton voltou a firmar parceria com o Estúdio Kusama neste ano. Fizeram juntos uma campanha com direito à instalação, em algumas lojas mundo afora, de bonecos gigantes que reproduzem a figura ímpar da artista, com o mítico cabelo cor de fogo, cortado ao estilo Chanel, com uma espessa franja. Enquanto isso, o catálogo propriamente dito contou com a presença de tops como Gisele Bündchen e Bella Hadid.
A partir do dia 16 de julho de 2023, o público que visita o Inhotim têm ótimos motivos para festejar. Particularmente, aquele que já é fã de carteirinha do trabalho de Kusama.
É que neste dia será inaugurado para o público o Pavilhão Yayoi Kusama, o 20º espaço permanente situado no museu de arte contemporânea e jardim botânico fundado em 2006 por Bernardo Paz. Trata-se da primeira inauguração em oito anos. Projetado pelos arquitetos Fernando Maculan (MACh) e Maria Paz (Rizoma), o pavilhão, localizado no Eixo Laranja, próxima à Galeria Cosmococa e ao Jardim Veredas, abriga duas obras imersivas de Kusama. A iniciativa teve o patrocínio da Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM), por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura.
Vale ressaltar que o Inhotim já abrigava a obra “Narcissus Garden”, da artista nascida na cidade de de Matsumoto, e que desde 1977 vive voluntariamente reclusa, em tratamento psiquiátrico, em função de alucinações relacionadas a um quadro de esquizofrenia. As novas obras de Kusama são “I’m Here, But Nothing” (2000) e “Aftermath of Obliteration of Eternity” (2009). Elas foram adquiridas pelo Inhotim em 2008 e 2009, respectivamente. Já “Narcissus” constitui-se de esferas metálicas que se movem sobre a água. É uma versão da escultura apresentada pela artista pela primeira vez na 33ª Bienal de Veneza, em 1966.

Aliás, as três obras trazem um dos elementos mais atrelados ao trabalho de Kusama: os círculos, sejam por meio das citadas esferas de aço inoxidável, de grandes dimensões, de “Narcissus Garden”, seja por pontos brilhantes e coloridos que se espraiam no ambiente montado para “I’m Here, But Nothing”.
Neste último caso, pontos em tinta fluorescente foram adesivados em paredes, objetos de adorno, eletrodomésticos e móveis, assim como no teto e no chão, do ambiente no qual no máximo três pessoas por vez adentrarão. Por conta da iluminação – uma luz negra (UV-A, ultravioleta) -, os pontos passam a cintilar, promovendo uma experiência de ativação da percepção e, como o próprio material de apresentação indica, de “auto-obliteração, no sentido da dissolução da pessoa espectadora no próprio ambiente”. Ou seja, tudo alinhado ao pensamento de Kusama.
Veja como foi nossa visita:
Mais breve – a duração da visita se restringe a um minuto -, a experiência “Aftermath of Obliteration of Eternity”, de Kusama, propõe que o espectador seja conduzido a um universo de cunho transcendental. Sendo assim, no chão, o visitante se desloca pouco, mesmo porque, há espelhos d’água no interior do espaço imersivo. As paredes são cobertas por espelhos que multiplicam o efeito de lanternas.
Iluminadas, essas têm seus pontos de luz multiplicados ao infinito. Em um certo momento, as luzes se apagam, gerando um breu, que se desfaz rapidamente, quando as lanternas são reativadas.
O novo pavilhão também foi projetado com o objetivo de propiciar ao público uma experiência sensorial precedente ao ingresso nas salas onde estão as obras. O desafio é que a obra e a fila de espera não destoassem abruptamente do entorno paisagístico. E, ainda, que gerasse conforto aos visitantes caso haja a formação de filas para a visitação – afinal, estamos falando de Yayoi Kusama.

Neste sentido, foi preciso, mais uma vez, que o paisagismo se amalgamasse ao projeto arquitetônico. O projeto paisagístico deseja conectar a vegetação existente (mata espontânea) ao jardim planejado. No caso da arquitetura, optou-se por um edifício longilíneo, que se estende em todo o limite da praça com a mata, ancorado por dois taludes laterais. Sobre a extensão da praça e da galeria, há uma tela metálica flexível que dará suporte ao crescimento de uma planta de origem asiática, a Congea tormentosa.
Maria Paz explica que, no curso dos próximos anos, as congeas vão crescer e “fechar” o espaço dessa tela. “Assim, vamos ter uma luz filtrada de um jeito mais orgânico, da transformação da planta com o tempo, por conta do ‘fechamento'”, diz ela, ressaltando, ainda, a coloração da flor, que muda com o tempo. “Então, ela passa de rosa para lilás, para o branco, para o cinza. Tem essa mudança de cor daquele espaço que vai acontecer no curso do ano. Assim, o próprio espaço vai se transformando ao longo do tempo”.
Ela afiança que, em caso de filas, a espera será em um espaço agradável. “Com um pouco de sombra, mas seguindo como um espaço aberto, que se expande e se mistura com o parque, que faz essa transição também da vegetação do parque para a construção da galeria”.
Maculan, por sua vez, frisou que a cobertura é um elemento chave para o pavilhão Yayoi Kusama. “A gente brinca que começou a projetar a galeria pelo que não é a galeria. Nos interessamos muito por este espaço que é um entre, que está entre o parque e a galeria propriamente dita. E a cobertura, ela vai ganhar esse crescimento da planta, com os anos. Aliás, a gente não tem pressa nenhuma para isso acontecer, porque o espaço já é sombreado, hoje, com módulos de tela. À médida que as plantas crescerem, as telas serão retiradas uma a uma. Os módulos foram pensados, inclusive os detalhes, para tal”. retiradas.
Como para a edificação foi utilizado o aço corten, de matiz avermelhada, o projeto paisagístico trabalhou com bromélias verdes, amarelas e avermelhadas, criando uma paleta específica. Detalhe: em consonância com os elementos mais característicos da obra de Kusama, algumas das bromélias apresentam círculos naturais em suas folhas.
Perguntados sobre a floração das congeas, os profissionais que acompanharam a imprensa brincaram que a expectativa da própria equipe é de tal monta que chegou-se a pensar em fazer um “bolão” de apostas. Lucas Pêssoa disse que, para evitar expectativa, prefere pensar em um prazo de cinco anos. “No começo, para tentar agradar aos mais apressados, falaram: ‘Não, será em três anos’, ‘não, quatro’. Então, falei que ia assumir logo cinco, porque, assim, a gente fica tranquilo, não apressa ninguém”.
A Congea, a planta escolhida, quando está no auge da floração, se transforma em uma espécie de nebulosa. Assim, a folhagem propriamente dita fica oculta, coberta por uma espécie de “nuvem” de cores como rosa e lilás. Tal fenômeno se afirmaria, numa visão aérea. Ou seja, funciona como uma intervenção na paisagem. Assim, mostra a ambiguidade do que é da natureza controlada pelo ser humano e a natureza mais selvagem, a que está ao redor.
Lucas Pêssoa prossegue: “A gente quer muito dizer sobre este tempo, que cada momento é um momento que, de alguma forma, está pronto. Ou que não está pronto, ou que nunca estará pronto. Esse é um aspecto importante. O trabalho e a vida da Kusama estão muito influenciados – e influenciam – as noções da estética japonesa. Assim, essa ideia da impermanência é muito valiosa para ela. A morte/vida, a ordem natural das coisas, de a pessoa se apagar para se tornar parte da natureza. Logo, acho que a gente pegou uma chave que está diretamente conectada a esses conceitos”.
Ao falar sobre o tempo entre o início dos trabalhos e a inauguração, agora, Maculan acrescentou que foi um processo bastante duro. “A gente passou por uma pandemia, pelo rompimento da barragem do Córrego do Feijão… E, no início do ano passado, também houve um período de chuvas que fechou Brumadinho. Felizmente, a obra atravessou essas questões, que foram extremamente difíceis para as comunidades, para o lugar, para o território e para a própria instituição (Inhotim). E hoje estamos realmente comemorando (o resultado de) muitos, muitos anos de trabalho”.
Julia Rebouças ressaltou que o projeto que culmina agora com a inauguração do pavilhão teve início em 2016. “Portanto, reforça uma característica de Inhotim. A possibilidade de trabalhar com um artista contemporâneo ao longo de um tempo, desenvolvendo um projeto que tenha pertinência com o lugar, com a história da instituição, estabelecendo um diálogo rico”.
Julia Rebouças ressaltou, ainda, que a retomada ratifica a vocação do Inhotim em ampliar seu repertório de maneira permanente. Segundo ela, isso se dá ao mesmo tempo que também segue a política de ser espaço que abriga exposições temporárias. “Com empréstimos e parcerias, como a que vem sendo desenvolvida com o Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros – Ipeafro, para discutir o trabalho de Abdias Nascimento”, completa.
Confira, a seguir, fatos interessantes que envolvem o nome de Yayoi Kusama
Além das bolinhas, outro aspecto que chama a atenção na obra de Yayoi Kusama são as abóboras. Atualmente em cartaz em Nova York, na galeria David Zwirner, a mostra “I Spend Each Day Embracing Flowers”, da artista, inclui três esculturas gigantes de abóboras.
A Editora Globo lançou no Brasil o livro “Alice no País das Maravilhas”, ilustrado por obras de Kusama. Um mimo.
Em 2012, a revista W Magazine circulou em edição especial “The Art Issue”. Na capa, o ator George Clooney veste terno e sapatos Armani customizados por Kusama.
Se você gosta do universo de Yayoi Kusama, não deixe de assistir ao clipe “Lovetown”, de Peter Gabriel.
A obra “Narcissus Garden”, que faz referência ao mito de Narciso, reúne 750 esferas de aço inoxidável sobre um espelho d’água. Fica no terraço do Centro de Educação e Cultura Burle Marx, em um prédio projetado pelos Arquitetos Associados. Está no Inhotim desde 2009.
Publicado por Carol Braga
Publicado em 15/07/23