Teatro

Cia. Burlantins estreia espetáculo homenageando os 50 anos de trajetória artística de Maurício Tizumba

Foto: Pablo Bernardo

Júlia Tizumba, Mauricio Tizumba e Sérgio Pererê dividem o palco do Centro Cultural Unimed sob direção de Grace Passô

Por Patrícia Cassese e Priscila Natany | Editora assistente e assistente de produção

Na última segunda-feira, nos momentos que precederam mais um ensaio de “Herança”, espetáculo que celebra os 50 anos de trajetória artística de Maurício Tizumba, a cantora e atriz Júlia Tizumba, filha do homenageado, comentava sobre o encontro de dois universos potentes: o “Tizumbístico” e o “Passô”. A artista referia-se ao fato de, por meio da empreitada, o genitor estar realizando um sonho, o de ser dirigido pela diretora (e também atriz) mineira Grace Passô.

Maurício Tizumba assente: “A Grace é uma diretora preta e sabe o que é estar do lado de cá. Com ela, a coisa é conversada e entendida. É conversada e aberta. Além de uma grande diretora, é também atriz. Então, é bom demais. Já há muito tempo eu tinha essa vontade, esse sonho, e, agora, nos meus 50 anos de arte, consigo realizá-lo”.

O encontro da equipe do Culturadoria com a maior parte dos envolvidos na promissora nova montagem da Cia Burlantins aconteceu no Espaço Aberto Pierrot Lunar, na Floresta, endereço que sediou alguns dos ensaios de “Herança”.

A estreia, porém, ocupa o palco do Centro Cultural Unimed-BH Minas a partir desta sexta-feira, dia 24, às 20h, com sessões também neste sábado e domingo, e nos dias 28 a 30 de abril. Além de Tizumba e Júlia, o elenco traz outro nome que dispensa apresentações: o de Sérgio Pererê.

Processo de criação colaborativo

Vale frisar que, em cena, os três artistas não estão a serviço de algum personagem, mas, sim, com suas identidades reais, mostrando uma narrativa que foi construída por meio de um processo que merece um capítulo à parte.

Tudo começou em dezembro, quando veio o ensejo de montar um espetáculo já com o propósito de assinalar as cinco décadas de excelentes serviços prestados à arte e à cultura pelo carismático Tizumba. Naquele momento embrionário, a ideia era ter o livro “De Camarões: veredas de Maurício Tizumba”, escrito por Pedro Kalil, como norte

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“Mas quando a Grace chega, ela começa a buscar dentro da gente um outro lugar, que era o das nossas histórias, da nossa herança. E começou a puxar, de dentro da gente, memórias nossas”, conta Pererê. “E elas vieram à tona”, complementa Pererê.

O passo seguinte foi costurar todo o manancial que emergiu. Nesta etapa, Grace Passô contou com a ajuda de Aline Vila Real e Tomás Sarquis. “Os três pegaram as histórias e fizeram um mix entre realidade e ficção, o que acho que vai intrigar as pessoas. Porque eu acho que não dá para a plateia saber o que foi real ou inserido, mesmo porque, a realidade, aqui, era mais forte do que a ficção. Na verdade, os elementos de ficção foram usados mais para criar um link de uma coisa para outra, mas os elementos da realidade são justamente aqueles diante dos quais certamente as pessoas vão dizer: ‘Ah, não, isso só pode ser ficção'”, vaticina ele.

Antes de adentrar o território dessas memórias, cumpre frisar que uma quarta pessoa acabou dando vasta contribuição ao arcabouço: Rosa Moreira, irmã de Tizumba. “Foi uma das pessoas que contribuíram fortemente nesse processo dramatúrgico”, pontua Aline.

Recuperação de memórias íntimas

Inevitável deduzir o quão intrincada foi a tarefa que o trio incumbido da dramaturgia tinha em mãos. “Uma etapa importante do nosso núcleo foi absorver as narrativas produzidas pelos três ao longo do processo de criação, dentro da proposta de recuperação de memórias íntimas, familiares. Partimos para fazer um inventário para, daí, fazer composições de sentido e de histórias”, descreve Tomás.

O dramaturgo acrescenta que um desafio foi preservar não só a riqueza das memórias, mas a forma como foram narradas. “Pois isso também diz muito dessas histórias. Então, é fazer uma tradução das histórias contadas oralmente mantendo o que têm de poética na própria forma como foram passadas”.

Neste caminhar coletivo, uma constatação foi ficando cada dia mais clara para os envolvidos. “A gente foi entendendo como essas memórias particulares também são  coletivas”, conta Aline, referindo-se ao fato de que a potência dos relatos era de tal monta que alcança fácil o coletivo. “Quem for assistir ao espetáculo vai entender. E aí a gente não está falando só de BH ou mesmo só do Brasil, mas a partir da nossa perspectiva de diáspora africana”.

Júlia Tizumba complementa: “Aqui, a gente fala de uma ancestralidade negra. Então, o que há em comum nessas histórias é a força e a potência que vêm da mãe África. A gente tem a herança de uma cultura muito rica e também de muita resistência, fruto da opressão que o nosso povo viveu, tendo sido sequestrado de outro continente. É isso, estamos falando dessa herança de África e também das nossas famílias, e de tudo aquilo que a gente quer de volta. Tudo o que foi apagado, que nos foi roubado – e que, agora, reivindicamos reconhecimento, valor e devolução”.

Contar a própria história

Com a palavra, mais uma vez, Maurício Tizumba: “Essa montagem traz pessoas negras na direção, cenário, figurinos, dramaturgia… Então, a gente mostra que, enquanto povo negro, nós mesmos podemos contar a nossa história. Não é mais um branco contando. E apesar de partir de Minas Gerais, estamos falando de um afro-Brasil. Isso é muito importante (pontuar) para que a nossa cultura passe a pertencer a quem de fato é, para não ser mais roubada. Estamos mostrando que a gente pode tomar conta do que é da gente”.

Não por outro motivo, ele entende que o espetáculo vai colocar cada um no seu devido lugar. “Pelo menos essa é a nossa intenção; Quem sequestrou, quem roubou, vai ficar no seu lugar. Quem foi sequestrado, quem foi roubado, vai ficar no seu lugar.  E é preciso que algumas pessoas entendam que o tataravô branco delas não foi tão bom assim, como pensavam”.

No entanto, Tizumba faz um parênteses. “Tudo isso que estou falando pode soar pesado, mas o espetáculo vem com alegria, leveza, características que sempre tive na vida. A palavra que se fala por  vezes é dolorosa, pesada, mas se a gente é vitorioso, se chegou até aqui – e não estou falando de mim como artista, mas desse povo preto que está aí…”.

Por último, Tizumba faz um apontamento importante. “Eu não uso mais a palavra resistir, mas confrontar. A gente não está resistindo, a gente está aí confrontando, e isso é bom tanto para nós quanto para a sociedade de um modo geral”.

Reconhecimento em vida

No encontro com o Culturadoria, Sérgio Pererê falou da ventura de compartilhar da amizade com Tizumba. “Acho que tenho essa sorte na vida, de ter alguém como ele que, pra mim, tem esse lugar de um mestre, quase que um padrinho, e, ao mesmo tempo, é um parceiro. Tem uma emoção muito grande que aflora, mexe lá dentro”.

Ele conta que, na verdade, foi a princípio convidado para fazer a direção musical. “Só que aí a Grace falou: ‘Ah, mas ele vai fazer só a direção musical ou vai atuar também? E falei: ‘Estou aqui para o que precisarem, requisitarem’. Então, acabou que fiquei atuando, fazendo a música junto. Nesse processo, a gente está revisitando o Tizumba, trazendo elementos de músicas dele de um outro jeito. Então, é tudo desafiador e tudo maravilhoso. Está sendo de fato maravilhoso. A gente se desdobra, somos nós três fazendo tudo em cena. A música sai de nós, os textos saíram de nós e o corpo é o nosso também. Está emocionante mesmo. (Essa empreitada) fortalece o nosso vínculo, e não só artístico”.

Foto: Pablo Bernardo

Amarração dramatúrgica

Dentro da dramaturgia, no caso de Pererê, quem marcou presença foi a avó Isabel, pelo lado paterno. “Não a conheci, não tive convívio com ela, mas a história dela norteia toda a base da minha família, de onde ela veio. É uma história muito forte, que mexe muito com qualquer um de nós, tanto que nem falo com meus parentes sobre o que a gente está fazendo aqui, porque quero que eles estejam lá (na estreia) e vivenciem isso”.

Dentro do espetáculo, Isabel está nas falas de Pererê do início ao fim. “O tempo todo é essa relação que o meu pai e meus tios passaram. Eles viveram quase que uma escravidão. E essa energia de base, ou seja, a herança da minha avó, da rebeldia dela, está tudo aqui dentro”.

No palco, os ancestrais são personificados através de objetos. “Então, existe uma colher de pau que simboliza a minha avó. Existe um manto, o véu, que simboliza a Tia Maria, do Tizumba, assim como tem um chapéu e uma capa que simbolizam o avô Joaquim, também dele. Ou seja, somos nós mesmos, mas a gente personifica esses ancestrais através de alguns símbolos”.

Júlia Tizumba, por seu turno, faz reverência à avó Eni. “Que foi muito especial para mim. Quando ela faleceu, eu tinha 11 anos, mas sinto que nunca me deixou, energeticamente”. 

Entre o elenco, Júlia pode se considerar privilegiada por, além de honrar os antepassados, estar dividindo a cena com o pai. “Sim, é muito especial. Sinto uma profunda felicidade de poder homenageá-lo em vida, e por saber que eu ainda tenho muito tempo para seguir celebrando, pois acho que ele tem uma vida longa pela frente. Sempre repito, o meu pai é um vencedor. E a gente poder celebrar isso junto a ele, em cena, é muito especial. Espero que as pessoas venham brindar com a gente todas essas vitórias e conquistas”.

Confira mais informações sobre o espetáculo

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Publicado por Patrícia Cassese

Publicado em 22/03/23

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