Literatura

Glaura Santos e os agoras de muitos tempos

A escritora e artista visual Glaura Santos fala sobre o novo livro, "Onde Habitam as Asas", que reúne poemas divididos em duas seções

Glaura Santos | Foto Leila Alcântara

Por Patrícia Cassese

No curso da leitura de “Onde Habitam as Asas” (Patuá Editora), novo livro de Glaura Santos, a atenção é logo chamada para a abundância de palavras que se conectam à ideia de movimento – “vento”, “brisa” e, claro, “asas” -, ao mesmo tempo que não faltam menções ao que teoricamente nos prende, como “raiz”. E não, não há um paradoxo nisso. “Sinto que as raízes podem ser asas, fundantes de grandes voos”, discorre ela, em entrevista ao Culturadoria. Na verdade, Glaura pontua que esses dois impulsos a habitam. “Primeiramente, o de aterrar, me sentir confortável e segura pisando chão firme, literal e metaforicamente (signo de terra, me voltar para dentro, sempre conectada às minhas paisagens internas)”.

Ao mesmo tempo, ela acrescenta que está sempre questionando esse estar. “E, assim, tenho uma necessidade constante de movimento. Uma necessidade de experimentar o novo, um desejo de ver o distante, uma inquietude que me impulsiona a abrir as asas. É uma convivência um pouco conflituosa (risos).  No entanto, sinto que os dois lados se alimentam e se fortalecem um no outro”, analisa.

A natureza é outro universo cujos elementos são citados em várias páginas – folhas, galhos, florestas, rios, névoa, água, chuva, pássaros… “A natureza é um lugar de conforto, onde cada vez mais escolho estar. Me sinto acolhida pela mata, assim como pelas águas. Frequentemente me pego tocada pela grandiosidade de uma montanha, de um rio, de um inseto que nunca antes havia visto, tal qual pelo canto de um passarinho. Gosto de sentir o vento e todas as presenças encantadas da natureza. Observar os ciclos, perceber as tantas metáforas com a vida. Aprendo muito, me sinto preenchida, não me canso de admirar. É uma grande fonte de inspiração”, contextualiza.  

No meio do caminho, uma onça

Graficamente, um detalhe que chama atenção são as pintas de uma onça que ocupam uma parte considerável da capa. Perguntada sobre os motivos da escolha, Glaura Santos diz, divertida, que, na verdade, foram elas que escolheram estar ali. “Eu estava no processo de criação da capa, procurava elementos que traduzissem a presença das raízes, onde habitam as asas. Fiz muitos estudos, experimentei vários caminhos, até que, numa noite, a onça ‘veio’. E não foi mais embora. Me surpreendi muito quando ela chegou, porque as imagens que vinha trabalhando eram todas bem distantes dessa ideia. No entanto, gostei da visão e me levantei na hora pra experimentar esse layout e pesquisar mais”.

Segundo ela, o arquétipo da onça pintada diz da importância de nos conectarmos com o mundo espiritual, bem como de buscarmos proteção e orientação das forças invisíveis ao nosso redor. “E, ainda, de estarmos integrados ao nosso ambiente. Percebi que estava vivenciando algo de que falo num poema, que sentir é uma forma de saber. Ouvi minha intuição e logo tudo fez sentido”.

Não bastasse, a mãe da escritora é de Manaus. “Assim, a casa da minha avó, as paisagens da cidade e da floresta, essas raízes amazônicas estão muito presentes em mim. Portanto, (a ideia) era a tradução visual do singular que cada um traz impresso na própria pele. Do mesmo modo, representa também uma raiz maior, como símbolo da preservação da natureza e da biodiversidade brasileira. Daí, pronto, ela ‘saltou’ para a capa do livro”.

Feitura

“Onde Habitam as Asas”, confidencia Glaura Santos, aconteceu em intervalos. “Existe um distanciamento temporal nas fases da escrita. São agoras de muitos tempos. Visito memórias de infância, raízes expostas, assim como passeio por várias paisagens da vida adulta. O livro precisou adormecer por algum tempo, quase dois anos, até eu retomá-lo para concluir o processo”. O que, vale dizer, foi uma novidade para ela. “Foi como se eu pairasse sobre a escrita pousada ali. Trabalhei com memória e fiquei sempre com a sensação de estar deixando de fora algo que me marcou e precisava estar ali”, narra.

Glaura lembra que, na esfera da ficção,  o autor determina onde começa e acaba uma história. “Porém, quando a matéria prima é vida vivida, ela não acaba nunca. Todo dia sou tocada por algum evento, como uma fresta de sol no sofá da sala quando vou fazer café. Ou, ainda, quando conheço um lugar novo que me arrebata e que se torna um poema. É um sem fim. Assim, escrever o último poema foi um alento. Falar sobre a inquietude do corpo poeta me fez descansar”.

Glaura Santos | Foto Leila Alcântara

Geografia do afeto

“Onde Habitam as Asas”, comenta a autora, é como uma geografia do afeto. Desse modo, a divisão em dois capítulos – “Aqui Dentro (ou útero)” e “Lá Fora (as asas)” – define um paralelo entre o universo íntimo e individual e o mundo fora da casa-corpo-memória. “No primeiro, vêm os objetos, os conflitos, os milagres cotidianos, a casa, a terra, a ancestralidade. No segundo, o se lançar, o encontro com o distante, com o outro. Uma poética que investiga a forma como nos afeta o entorno. A experiência de estar realmente presente no mundo, aonde quer que se vá”.

Homenagem

Entre o feixe de poemas, o Culturadoria destacou dois para que Glaura discorrer um pouco sobre a feitura, caso da homenagem a Ana Cristina César (Só Mais um Voo) e de “Escritório”. “São dois poemas sobre a escrita. Sobre esse fazer que tem relação tão estreita com o espaço íntimo, com a casa que pode ser a física. Mas é principalmente esse lugar interno que se precisa acessar para escrever”. Esse espaço, diz ela, tem se ampliado na sua vida, e se revela em  “Escritório”.

“Já ‘Só Mais um Voo ‘é um susto diante da ironia de ela não ter deixado uma última palavra. Uma homenagem à Ana C. e à perenidade desse voo que é escrever e publicar”. Em tempo: o saudoso poeta mineiro Pedro Muriel também ganha uma homenagem na obra.

A autora

Glaura Santos estudou Letras na UFMG e é artista visual graduada pela UEMG. Ela própria diz ser uma “amante das palavras e das imagens desde sempre”. Em 2018, lançou “Todo Mar Vai Ser Você”, reimpresso em 2020 pela Quixote+Do. Já em 2021, veio “Acesa”. Em 2022, participou da antologia “Mexerica” (Editora Vasta)

Serviço

“Onde Habitam as Asas” – Glaura Santos
Editora Patuá, 120 páginas
Preço: R$ 60.

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Publicado por Carol Braga

Publicado em 06/11/25

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