“O novo trabalho de Gilcevi, um dos artistas mais interessantes em atividade em nosso país, explora, com criatividade formal e temática, assuntos centrais para pensar a contemporaneidade, e subverte a realidade medíocre, criticando-a com agudeza”. É dessa forma que o poeta, editor e professor de literatura Fabiano Calixto apresenta a poesia de César Gilcevi. O artista mineiro lança no sábado, 14 de junho, seu mais recente livro, “Salmos Mestiços”. A tarde de autógrafos contará com apresentações e performances de Gilcevi, Francesco Napoli, Carlos Alma Tambor e Fred HC.
Editado pela destacada editora mineira Caos e Letras, o livro “Salmos Mestiços” foi escrito entre os anos de 2020 e 2024. A obra é dividida em sete seções que se interconectam, destacando a diversidade de procedimentos poéticos executados por Gilcevi. A escrita começa com uma linguagem de saltério apocalíptico, para, na sequência, passar pela sofisticação da ancestralidade periférica. Tal qual, pelas ciências das gambiarras, das rezas e das mandingas, bem como dialoga com a poesia visual. E, neste compasso, termina onde tudo começou: na encruzilhada de Exu.
Poesia de caboclo
“Coloquei no livro minha matéria vivencial e estética:. A realeza da malandragem, dos povos da floresta e da rua, da cachaça jogada pro santo barroco, do samba batucado na caixinha de fósforos; a ginga do erê correndo da viatura, o curumin desaldeado na urbe: poesia rigorosa de caboclo, esse ser controverso, múltiplo e racialmente escanteado no brasil contemporâneo”, afirma Gilcevi.
A controvérsia histórica da mestiçagem também adentra o âmbito da linguagem. É que o poeta entrecruza, renova e “gambiarra” seculares tradições literárias, como a do soneto e da elegia. Do mesmo modo, presenteia o leitor com uma nova forma poética: o haikiri, mescla da herança oral milenar dos orikis africanos e dos hai-kais japoneses. Da reza à língua banto mineira, do concretismo ao ponto de macumba, “Salmos Mestiços” é o ponto alto da inventiva obra de Gilcevi.
Pares
O livro tem a orelha de Sabrina Sedlmayer, professora titular da Faculdade de Letras da UFMG. Ela assinala: “O termo mestiço estampado no título carrega muitos sentidos: Deus e Exu, ouro e lama, sonho e vigília, amor e perda, fome e fartura, Eros e tânatos, cotidiano e insólito, centro e periferia, vida e morte. Aqui, tais pares não são somente dicotomias que se emparedam e se opõem. Sem almejar a síntese, a dialética, Gilcevi expõe as contradições do Antropoceno, as fraturas desse mundo tão desequilibrado e desigual”.
Favela S.A.
Gilcevi é descendente do povo indígena Puri e oriundo do Morro das Pedras e da região do Barreiro, onde na infância vendia jornais e picolés nas ruas para ajudar no sustento da família. Começou a escrever na adolescência depois de descobrir por acaso a poesia simbolista de Cruz e Souza. De lá pra cá, além de poeta, se tornou músico, cantor/compositor e produtor cultural. Velho conhecido da cena musical mineira, foi integrante da extinta e cultuada banda Carolina Diz, com quem gravou os discos Se perder (2004) e Crônicas do amanhecer (2008). Também é vocalista da banda Cadelas Magnéticas.
O mineiro, vale dizer, terá um disco solo lançado ainda em 2025. Seus dois primeiros livros “Os ratos roeram o azul” (Letramento, 2016) e “Retrato do poeta quando devedor do aluguel” (Letramento, 2018) receberam elogios de críticos como Jotabê Medeiros, Pádua Fernandes, Fabrício Marques. Do mesmo modo, de publicações como o Suplemento Literário de Minas Gerais, entre outras. Num dos poemas de “Salmos Mestiços”, “Favela S.A”. ele condensa seu universo de origem. Confira: “os tempos são sombrios / os deuses violentos / a guerra inadiável / mesmo assim temos mãos sorridentes / com elas colhemos a chuva / a rosa / e cantamos.”
A poeta Adriane Garcia ao comentar o livro arremata: “A poesia de César Gilcevi é das mais interessantes que se faz na contemporaneidade brasileira. Seu projeto literário vem se desenhando desde o primeiro livro e se coroa neste Salmos mestiços com notável amadurecimento”.
Serviço
Lançamento “Salmos mestiços” – César Gilcevi
Quando. Sábado, 14 de junho, de 14 às 18 horas
Onde. Espaço Casa de Caboclo (Rua Almandina, 123, Santa Tereza)
Publicado por Patrícia Cassese
Publicado em 12/06/25
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