Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

A bordo do sucesso, conquistado Brasil afora, “Ficções” volta a BH

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Protagonizada por Vera Holtz, que divide o palco com Federico Puppi, “Ficções” ocupa agora o Sesc Palladium

Patrícia Cassese | Editora Assistente

Sessões lotadas. Muita gente confessando a frustração de não ter conseguido assistir à montagem, porque os ingressos, assim que disponibilizados, no site, logo se esgotavam (embora uma cota fosse colocada para venda na bilheteria, pouco antes do início do espetáculo). Foi assim, a temporada da peça “Ficções” em Belo Horizonte, no ano passado, no Teatro I do CCBB BH. Justamente para atender à demanda daqueles que não conseguiram assistir ao espetáculo protagonizado por Vera Holtz, que divide a cena com o talentosíssimo Federico Puppi, “Ficções” – oba! – está de volta à capital mineira.

Vera Holtz em cena de "Ficções", que volta agora a BH (Alê Catan/Divulgação)
Vera Holtz em cena de "Ficções", que volta agora a BH (Alê Catan/Divulgação)

Certo, desta vez, em curta temporada: de quarta (24 de janeiro) a sexta-feira (26), no palco do Sesc Palladium. “Ficções” é uma adaptação bem original do livro “Sapiens – Uma breve história da humanidade”, do professor e filósofo Yuval Noah Harari, que vendeu mais de 23 milhões de cópias em todo o mundo. Idealizada pelo produtor Felipe Heráclito Lima, a empreitada teve a dramaturgia escrita por Rodrigo Portella, que também assina a direção.

Temporada anterior em BH

Ao Culturadoria, Vera Holtz definiu a passagem por Belo Horizonte, para a equipe da peça, pelo uso da palavra “espetacular”. “Vários momentos nos marcaram. Não só a cidade, a hospitalidade da cidade. A vibração com ‘Ficções’. O intercâmbio, a inter-relação que estabelecemos com o público, o retorno, ao final (das sessões). Porque as pessoas permaneciam no teatro, após o final, esperando a gente para tirar fotos, conversar, trocar impressões. E, na verdade, isso tudo inclusive foi amadurecendo a nossa própria relação com a obra”, disse ela, com o devido assentimento de Puppi.

Vera Holtz e Federico Puppi em cena de "Ficções" (Ale Catan/Divulgação)
Vera Holtz e Federico Puppi em cena de “Ficções” (Ale Catan/Divulgação)

Vera especifica: “Porque tinha muita coisa que, na verdade, a gente nem sabia porque estava funcionando. Então, o retorno do público de Belo Horizonte, na verdade, nos ajuda a construir, a ampliar, a nossa própria percepção com relação à obra que a gente está fazendo”. Federico complementa: “Com certeza! (Ajuda) a entender as fundações de ‘Ficções’. E o público mineiro foi muito atento. Então, as reações do público foram muito pontuais. E muito precisas também, pelo que vimos nas conversas depois”.

Público atento e apaixonado

Vera Holtz reassume a palavra. “Atento e apaixonado, né? Porque nós tivemos pessoas que voltaram uma, duas, três vezes, ao teatro. Teve uma que voltou oito vezes”. Puppi endossa: “Verdade, oito vezes”. A atriz se recorda que inclusive falou, no último dia da apresentação, sobre a importância desses pilares, desse aprofundamento da relação com a obra, em Belo Horizonte. “É como se Belo Horizonte nos desse raízes. A obra se assentou em Belo Horizonte”, diz, reforçando a voz na palavra “raízes”. Depois da temporada em BH, “Ficções”, claro, continuou viajando pelo país. “Mas, como disse, foi um momento importante para nós”.

Confira, a seguir, outros trechos da entrevista

Mudanças?

Em determinado momento da temporada da peça no CCBB BH, o diretor, Rodrigo Portella, esteve em BH, inclusive porque haveria, na cidade, sessões de “Tom na Fazenda” (peça na qual ele também assina a direção). Assim, naquela época, fiz uma entrevista com ele, que me disse que estava avaliando algumas mudanças em “Ficções”. Queria saber: a peça que volta agora, a BH, é a mesma ou, nesse ínterim, houve efetivamente alguma mudança?

Federico Luppi: Olha, o Rodrigo Portella não fez mudanças da peça, não. A gente foi ajustando alguns mecanismos e algumas engrenagens, principalmente no ritmo. Mas não é uma peça diferente, o “Ficções” que volta agora a Belo Horizonte. É uma peça mais madura pelas nossas andanças, pela quantidade de apresentações que a gente fez. Pelo nosso entendimento da peça, com tantas apresentações em tantos lugares diferentes, a peça vai ganhando musculatura, vai ganhando uma força também, né?

Temporada em Portugal

Vera Holtz: O Rodrigo fez um ajuste rítmico. E algumas adaptações, já que nós vamos levar essa peça para Portugal. No dia 30 de janeiro, parte da companhia já viaja para Portugal. E, no dia 7 de fevereiro, estreamos no Teatro Tivoli, espaço que comemora 100 anos. Então, com “Ficções”, nós fazemos parte das comemorações do centenário do Teatro Tivoli. Depois, a gente faz Porto, Farmalicão, Leiria, Aveiro, Príncipe Real. Ficamos por dois meses viajando com a obra em Portugal. Mas, enfim, é a mesma obra. Não tem essas questões (de grandes mudanças). E isso é normal. É muito importante a presença do diretor, que é um olhar externo. Às vezes, a obra dá uma mudança de ritmo. Então, vamos dizer assim, ele deu uma apertadinha nos parafusos. Nada além disso.

Puppi. A diferença desta temporada de “Ficções” da que a gente fez anteriormente é dada pelo espaço do teatro. A gente estava num teatro pequeno, agora, vamos para um teatro grande. Então, a peça vai ser equalizada por um teatro maior. Essa talvez seja a única mudança, de fato.

Tour de force

A peça parece ser para vocês, que estão no palco, um verdadeiro tour de force. Como fazem para enfrentar o desafio de subir ao palco em uma montagem que exige tanta energia e tanto gás? Como se preparam? Saem do palco exauridos?

Vera. A peça, ela todo dia exige, de alguma forma. No meu caso, especialmente, eu passo essa peça praticamente todo dia. Uma cena, outra cena. Mesmo quando eu não estou de férias, todo dia a peça está presente na minha vida. Porque “Ficções” é uma obra filosófica, científica, histórica, poética, né? Ela é vibrante, ela é muito forte. É uma linguagem que não é de dramaturgia ou de teledramaturgia. Então… Isso, estou falando do modo geral, ela está presente na minha vida.

De maneira específica, todo dia eu chego no teatro mais cedo. Eu dedico meia hora a um trabalho de corpo e meia hora a um trabalho de voz. Aliás, até fiz aula com a Babaya, em Belo Horizonte, quando estive aí. E a Babaya deu um aquecimento para mim, assim como o Jorge Maia. Eu tive duas pessoas que me acompanharam nesse período de preparação. Então, isso nós fazemos, né, Federico? A gente passa o espetáculo, a cada semana.

O espetáculo é sempre passado, às vezes nem inteiro, mas, pelo menos, nós temos 20, 30 minutos de um ensaio geral, com toda a equipe, toda semana. No primeiro dia (a cada início de temporada em uma cidade), esse espetáculo é feito antes. Geralmente, às 17 horas da tarde a gente já está no teatro.

Aqui e agora

Poderiam citar um momento da peça que mais agrada a vocês?

Vera: É muito difícil, selecionar.

Puppi É muito difícil escolher, eleger, uma cena, né?

Vera Eu não tenho, não sei te dizer isso, não. Eu gosto do começo, da vibração inicial, de saber que nós vamos entrar em um território desconhecido. Porque, apesar de sabermos o roteiro, a gente não sabe o que vai acontecer. Então, esse exercício diário. O aqui e agora que é o barato, né?. Isso mantém o frescor da obra. Sem dúvida. Sem dúvida. E quando termina, é uma vibração coletiva. Não só da plateia, quanto nós, do palco, comemoramos, a cada dia, o término de uma função deliciosa, que é fazer “Ficções”.
Puppi. Eu gosto de ser atravessado pela peça. Da energia que a gente entra no palco e da energia que a gente se encontra no final da narrativa toda. É a passagem.

Sucesso

Vera, a sua atuação é assombrosa, mas isso não é novidade alguma para quem te acompanha. Você está espetacular em “Ficções”. Assim, colocando a sua performance como um fator, digamos assim, hors concours, queria saber a que fatores você credita o sucesso dessa empreitada...

Vera: Obrigada aí, pelo carinho que você tem com o meu trabalho. O sucesso é uma surpresa. Nós fomos surpreendidos por isso. Não sabíamos que essa obra ia ter essa dimensão, apesar do livro, obviamente, ser um livro extraordinário, mundialmente. Uma obra com alcance, a explosão que foi quando “Sapiens” foi lançado. No Brasil, acho que foi em 2011, mais ou menos. Então, eu acho que tem uma série de coisas nessa obra que plugar o público, que vai promover a conexão com ela em algum momento.

Então, eu acho que essa afinidade do humano. É uma obra humana, gente. Humana e é uma obra teatral. Como o Federico um dia falou… Aliás, repete aquilo, que foi legal, Federico (diz, para o companheiro de palco)… Ele fala que nós estamos tratando de narrativas. Invenções de narrativas dentro do espaço cênico.

Narrativas

Puppi. Um espaço feito para as invenções narrativas. Então, a gente fala das narrativas criadas pelo ser humano dentro do espaço que o ser humano criou para contar narrativas.

Vera: Exatamente.

Puppi. Então, isso é muito estimulante. Eu acho que a montagem é uma peça de perguntas. E, nessa época de muitos vendedores de certezas superficiais para responder a perguntas profundas, é algo que é fascinante. Algo talvez raro em alguma circunstância. E isso acho que estimula muito a plateia a voltar a assistir ao espetáculo, porque teve gente que veio assistir muitas vezes, para buscar outras perguntas.
Vera. Perguntas… É isso. As respostas, você encontra.

Puppi. Depois da peça, na sua vida.

Vera Depois da peça, você vai ficar refletindo sobre ela. Mas questões são levantadas. Uma das questões que desde o início eu coloco é: “Você está satisfeito?”. (Repete) “Você está satisfeito?” E outra que eu sempre falo: “Pense”. É isso. “Pense”.

Serviço

“Ficções”, com Vera Holtz e Federico Puppi
Sesc Palladium (Rua Rio de Janeiro, 1046, Centro)

Quarta a sexta-feira, às 20h.

Ingressos entre R$ 21,50 e R$ 170

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