A discussão sobre o desenvolvimento infantil contemporâneo esbarra, inevitavelmente, no debate sobre a exposição às mídias digitais. Em um cenário dominado pelo consumo individualizado e muitas vezes passivo de algoritmos comerciais, colocar a infância no centro da criação estética surge como um ato de profunda emancipação.
Longe de ser mero entretenimento, a arte para crianças exige atenção e continuidade. É com esse compromisso que o programa permanente É Tudo Criança vem ganhando espaço no cenário cultural brasileiro.
Além disso, a iniciativa busca subverter a lógica de mercado tradicional, transformando o ato de assistir em um laboratório de agência, diálogo e experimentação ativa. “Hoje somos mais do que um festival: somos um programa permanente dedicado à arte, à infância e ao cinema brasileiro. Cada criança que desenha, cada escola participante e cada cidade que recebe uma sessão ao ar livre faz parte dessa mesma missão”, afirma Iano Oliveira, idealizador do É tudo criança.
O 6º Festival É Tudo Criança começa em Belo Horizonte entre os dias 11 e 16 de agosto de 2026. A programação inteiramente gratuita vai ocupa as telas e os espaços do Cine Santa Tereza e do Centro de Educação das Infâncias (CEI Imaculada). Assim, o evento funciona como o ponto de partida de um cronograma complexo que se estenderá até outubro.
No entanto, ao contrário de mostras isoladas, as ações deste ano se dividem em frentes robustas de circulação. Elas interligam a capital mineira, as praças públicas do interior do estado e o cotidiano das salas de aula públicas, promovendo mais de 100 horas de atividades educativas integradas.
A bagagem de cineclube e a força dos tambores
A construção dessa metodologia de emancipação está intimamente conectada à trajetória de vida do idealizador e diretor, o historiador e produtor cultural Iano Almeida Oliveira. Natural da Zona da Mata mineira, uma região de rica bagagem política e cultural, Iano teve seu percurso marcado pelo associativismo e pelas manifestações populares de rua. Aos 17 anos, ele iniciou sua atuação profissional junto a coletivos de jovens que fundaram o Cineclube Cumbuca, em Leopoldina. O espaço exibia produções do cinema nacional ligadas às traditions populares.
Além disso, a formação multidisciplinar do gestor contou com um marco definitivo: a oportunidade de sair do interior para tocar tambor na capital ao lado do mestre percussionista Naná Vasconcelos. A experiência reuniu mil jovens de Minas Gerais no encontro “1000 Tambores”, promovido por Maurício Tizumba.
Essa vivência coletiva de escuta, sonoridade e liberdade de experimentação formou a base conceitual que Iano Almeida transporta hoje para o universo do cinema infantil. Ao perceber, em sua atuação pedagógica com oficinas audiovisuais no interior, que os projetos voltados para as crianças eram recorrentemente colocados em segundo plano, o historiador decidiu intervir.
Portanto, o programa permanente nasceu de uma necessidade política e artística latente de suprir a ausência de políticas públicas estéticas voltadas à infância brasileira. Sob essa ótica, o cinema não é tratado como um produto pronto a ser engolido, mas sim como uma ferramenta de expressão ativa, estimulando as crianças a criarem suas próprias narrativas. Iano Almeida reforça esse propósito central da iniciativa:
“As crianças precisam ter acesso a isso, experimentar, criar cinema. Experimentar, criar cinema. Esse é o objetivo desde o início do É tudo criança. Ele é mais do que um projeto de difusão. Ele é um projeto para as crianças experimentarem criar cinema”, explica.
A sensorialidade física contra o consumo de algoritmos
Nesse sentido, o programa estabelece um contraponto crítico ao consumo de telas portáteis de celulares e tablets, pautando a urgência da “educação para as telas”. Em oposição aos conteúdos comerciais violentos e repetitivos que impactam negativamente a saúde psicológica infantil, o festival reposiciona a sala física de cinema como um poderoso espaço educativo.
“O ambiente da sala de cinema, ele é muito educativo também nesse sentido. As crianças têm que experimentar aquilo ali de cheiros e sabores que uma sala de cinema possa trazer, o cheiro e o sabor da pipoca, o cheiro daquele estofado, assim, as luzes que se apagam, se acende em determinados momentos, o som que é mais forte, é mais fraco”, comenta.
A dura realidade da exclusão em plena capital
Com efeito, essa experiência física e coletiva revela-se ainda mais urgente diante de um grave cenário de desigualdade de acesso cultural em Minas Gerais. De acordo com dados levantados pela organização do evento, mais de 50% das crianças de escolas públicas que participam das sessões em Belo Horizonte estão vivenciando a sua primeira vez dentro de uma sala de cinema na vida.
Em pleno século XXI, em uma grande metrópole do Sudeste, o festival cumpre, consequentemente, uma missão civilizatória crucial. Ele abre as portas do mundo do encantamento e da arte projetada para uma parcela de crianças historicamente marginalizadas pelos circuitos comerciais. Iano Almeida expressa sua indignação e o papel reparador do evento:
“É um absurdo em 2026 a gente chegar numa capital do Sudeste com uma programação que é Belo Horizonte… e a gente ter mais de 50% de uma sala composta por crianças que nunca acessaram uma sala de cinema e ali ser o momento da primeira vez dela no cinema. Assim, na sexta edição do É tudo Criança ainda existe a primeira vez no cinema.”
Os gargalos do incentivo e os espaços de acolhimento
Apesar de sua relevância e do impacto social comprovado, o festival enfrenta gargalos financeiros severos para se manter ativo e inclusivo. Iano Almeida expõe um diagnóstico de exclusão: apenas 2% das verbas captadas por meio da Lei Estadual de Incentivo à Cultura de Minas Gerais são direcionadas a projetos focados no público infantil.
Como resultado do apagão de fomento, a sexta edição sofreu perdas na acessibilidade. Sem patrocinadores em 2026, a tradicional Sessão Azul — espaço acolhedor e especializado para crianças no espectro autista — não pôde ser realizada com sua estrutura ideal.
Além disso, a Sessão Azul, criada pelo programa em 2019, tornou-se referência por ir muito além de meras adaptações técnicas na sala. “As pessoas falam muito, é muito comum a gente ver assim, ah, vai ter uma sessão azul… que é só um lugar que as pessoas abaixam a luz, uma sala de cinema que abaixa a luz, abaixa o volume. É muito mais do que isso. É muito mais do cuidado, da empatia, de estar ali junto, de ter um profissional da psicologia, de ter um terapeuta ocupacional para poder acompanhar essa sessão.”
Infelizmente, a falta de verba inviabilizou a contratação desse suporte especializado. Esse cenário evidencia as dificuldades de um setor em que apenas três estados — Minas Gerais, Santa Catarina, com a Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis, e Rio de Janeiro, com o Festival Internacional de Cinema Infantil (FICI) — mantêm festivais inteiramente dedicados à temática infantil, formando uma tríade de resistência nacional.
A interiorização e a leveza da tela gigante
Com o objetivo de romper essas barreiras estruturais, o programa É Tudo Criança estruturou-se de forma descentralizada e itinerante. Após as exibições na capital, a iniciativa inicia uma jornada de circulação com o Cinema ao Ar Livre na Zona da Mata mineira entre os dias 28 de agosto e 12 de setembro.
Graças ao patrocínio da Energisa, a magia do cinema será levada de forma inteiramente gratuita para praças públicas de Leopoldina, Itamarati de Minas e Muriaé. Para viabilizar essa complexa logística de interiorização, a produção utiliza tecnologia avançada, incluindo uma tela inflável gigante. Ou seja, nesta edição, apresenta um material de plástico 50% mais leve do que as estruturas pesadas utilizadas em anos anteriores.
Além das exibições, cada parada do cinema móvel terá uma estrutura completa para receber até 400 pessoas sentadas por dia. O público também contará com pipoca gratuita, exposições artísticas e apresentações culturais locais. Em outubro, a programação chega às escolas públicas parceiras com a circulação da Mostrinha É Tudo Criança.
Da mesma forma, o protagonismo das crianças também está presente na comunicação visual do evento. O concurso de desenhos infantis mobilizou 352 estudantes da rede pública de Belo Horizonte e região metropolitana. Ao todo, 12 ilustrações feitas pelas próprias crianças foram selecionadas para estampar a campanha e dar identidade ao programa.
OBA: ciência de dados para pautar políticas públicas
Por fim, mais uma novidade conceitual de 2026 marca a transição definitiva do projeto para o patamar de atuação institucionalizada. Com a fundação do Instituto É Tudo Criança, o programa lança o inédito Observatório Brasileiro do Audiovisual Infantil (OBA).
Nesse contexto, essa plataforma de pesquisa científica nasce a partir de uma parceria de peso estabelecida com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). O principal objetivo do observatório é atuar como um repositório centralizado de dados estatísticos, pesquisas acadêmicas e produções midiáticas voltadas para o cinema de infância no país.
A partir disso, o OBA passa a analisar e mapear os recortes demográficos de raça, classe, gênero e território presentes na cadeia de produção do cinema infantil brasileiro. A geração sistemática e científica desses dados inéditos fornecerá ferramentas concretas para que a sociedade civil e os realizadores possam pressionar o poder público e os patrocinadores privados.
Trata-se, portanto, de usar a ciência de dados como instrumento político para forçar o desenvolvimento de políticas públicas reais e contínuas. “O OBA vem nesse sentido de dar conta também dessa realidade múltipla aí do mundo das telas contemporâneas, e ter esse cuidado também para traçar a política pública. É o nosso momento de gerar dados para poder tensionar isso enquanto geração de política pública pra infância no nosso país, no nosso estado.”
Assim, a meta do programa permanente é transformar a realidade estética do país, garantindo que o cinema infantil brasileiro seja reconhecido não como um luxo descartável, mas sim como um direito fundamental e sagrado de todas as infâncias.
Participe do nosso canal no Whatsapp e receba as novidades em primeira mão!
QUERO PARTICIPAR
Publicado por Priscila Natany
Publicado em 11/08/26
Compartilhar nos Stories