Literatura

Anne de Marcken subverte narrativa sobre mortos-vivos em livro

“Dura para sempre e depois acaba” é romance existencial, filosófico e elegantemente poético que acompanha uma mulher morta-viva à deriva.

Anne De Marcken (Créditos Nina Subin)

Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura

“Perdi meu braço esquerdo hoje”. Essa frase abre “Dura para sempre e depois acaba”, romance de Anne de Marcken recém lançado pela Fósforo Editora, com tradução da poeta Angélica Freitas. Quem diz isso é a protagonista, uma mulher que segue, dia após dia, ouvindo histórias de hóspedes que compartilham com ela um mesmo hotel abandonado. Mas há um detalhe. Todos estão mortos – na verdade, mortos-vivos. “Achei que isso afetaria mais meu equilíbrio, mas é como cortar o cabelo: o ar passa diferente nas partes que me restam”. 

Elementos clássicos do gênero

O vazio parece dominar tanto o íntimo quanto aquilo que é externo à protagonista. O próprio nome esquecido para sempre, partes do corpo subtraídas, uma fome insaciável – o vazio no estômago impossível de preencher –, a ausência de vida ao redor, a ruína circundante. “Acho que a fome é o que temos no lugar do que perdemos”. Anne de Marcken trabalha elementos clássicos do imaginário popular e cultural sobre zumbis, inclusive o desejo, a necessidade pela carne humana. “Melhor dizer que comi a perna dele, mas poupei o pé. Os ossos eram de um azul meio rosado”.

Mas engana-se quem pensa estar diante de uma narrativa clássica de gênero. “Dura para sempre e depois acaba” é um romance existencial, filosófico e elegantemente poético. “O vazio lá fora é o vazio dentro de mim. Escuro, inteiro, impossível”. 

O que permanece da humanidade?

Profundamente reflexiva, a personagem caminha em direção ao oeste, ao último lugar onde, um dia, se sentiu amada. Nessa caminhada ganha a companhia de um corvo de poucas e enigmáticas palavras. À deriva, o trajeto aqui é tanto físico quanto simbólico. É um retorno ao passado, um retorno ao que um dia foi a vida. Mas o que difere a vida de outrora ao imediato presente? A narradora tensiona. “Toda metáfora se revela como aquilo que sempre esteve ali. (…) Os zumbis já foram viciados em drogas, telespectadores, jogadores de videogames. Agora os zumbis são apenas zumbis. Consumidores são consumidores.”

Um olhar aguçado sobre a vida e a morte, “Dura para sempre e depois acaba” é também uma meditação sobre o amor. “Sempre imaginei como seria depois que você morresse. Como seriam meus dias. Não seria ruim. Eu já teria tido tanto ao ter você, e perdido tanto ao perder você, que não iria querer mais nada”. Numa existência onde tudo foi perdido – o braço, o nome, a própria vida – há algo que permanece. Talvez seja nesse sentimento, que resiste à ruína, que a humanidade insista.

Encontre a “Dura para sempre e depois acaba” aqui

Gabriel Pinheiro é jornalista e crítico de literatura. Escreve aqui no Culturadoria e também em seu Instagram:@tgpgabriel.

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Publicado por tgpgabriel

Publicado em 22/04/26

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Anne De Marcken (Créditos Nina Subin)
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Anne de Marcken subverte narrativa sobre mortos-vivos em livro

“Dura para sempre e depois acaba” é romance existencial, filosófico e elegantemente poético que acompanha uma mulher morta-viva à deriva.

Anne De Marcken (Créditos Nina Subin)