Teatro

Teuda Bara (1941–2025): a gargalhada inesquecível e o teatro em estado vivo

Atriz fundadora do Grupo Galpão, Teuda Bara marcou o teatro brasileiro com presença, risco e riso.

Teuda Bara | Foto: Dinho Lacerda

Teuda Bara nasceu no primeiro dia do ano. Morreu no dia de Natal. Entre o início absoluto e a data que marca encerramentos, deixou uma vida inteira dedicada ao teatro como presença, risco e acontecimento. Não é um detalhe biográfico irrelevante. Há artistas cuja trajetória parece dialogar com o calendário simbólico do mundo.

A notícia da passagem, em 25 de dezembro de 2025, chega como uma interrupção. O dia segue, mas algo desacelera. Porque Teuda não foi apenas uma atriz importante do teatro brasileiro. Foi uma dessas figuras que reorganizam o espaço ao entrar. Seja no palco, na plateia, na conversa.

Uma das fundadoras do Grupo Galpão, Teuda ajudou a erguer, desde Belo Horizonte, uma das histórias mais consistentes do teatro brasileiro contemporâneo. Nunca passou por cursos formais de teatro. Sua formação foi outra: o corpo em risco, o coletivo, a rua, o improviso. O teatro, para ela, não era um lugar de controle, mas de disponibilidade.

Biografia

Filha de um bombeiro que criava os filhos tocando trombone de vara e de uma mãe enfermeira, cantora e parodista, Teuda cresceu em um ambiente onde a performance não era exceção. Era cotidiano. Talvez por isso nunca tenha separado vida e cena com nitidez.

Aos 30 anos, enquanto cursava Ciências Sociais na UFMG, encontrou o teatro-jornal. Abandonou a universidade e seguiu o caminho que não admite retorno. Trabalhou com Eid Ribeiro, fundou o grupo Fulias Bananas, passou por São Paulo ao lado de José Celso Martinez Corrêa. Em 1981, voltou a Belo Horizonte e entrou na oficina que daria origem ao Grupo Galpão. Teuda estava ali quando tudo começou.

Com o Galpão, ajudou a construir uma linguagem baseada no encontro direto com o público, no teatro de rua, no corpo que pensa antes da palavra. Em cena, não buscava contenção. O gesto era largo, a voz tinha ritmo próprio, o excesso fazia parte da gramática. Cada apresentação carregava a sensação de que algo podia sair do lugar — e saía.

Com Teuda na plateia

Mas quem conviveu com Teuda sabe: havia também a plateia. Dividir uma plateia com ela era um privilégio raro. Teuda assistia com o corpo inteiro. Comentava com o silêncio, com o gesto, com o riso.

A gargalhada da Teuda é inesquecível. Não era apenas som. Era acontecimento. Uma gargalhada que atravessava o teatro, quebrava o pacto silencioso da plateia e lembrava, sem pedir licença, que o teatro é vivo. Que não se assiste de fora. Que se entra.

No mundo

Nos anos 2000, essa mesma presença atravessou fronteiras. A convite de Robert Lepage, Teuda viveu entre Montreal e Las Vegas, integrando o espetáculo K.Á., do Cirque du Soleil. Voltou ao Brasil em 2007 e retomou sua trajetória com o Galpão, sem jamais se afastar do princípio coletivo.

Seguiu em cena no cinema, na televisão, em solos autorais. Vieram prêmios, homenagens, reconhecimentos institucionais. Mas nenhum deles explica Teuda por inteiro. Porque sua dimensão não está apenas na obra registrada, mas no que aconteceu ao redor dela.

Teuda Bara deixa o teatro brasileiro com uma ausência difícil de medir. Mas também com uma presença que não se apaga. Está nos corpos que aprenderam com ela. Nas plateias que riram junto. E na gargalhada que ainda ecoa, lembrando que o teatro, quando é de verdade, atravessa o tempo.

A despedida a Teuda Bara será no dia 26 de dezembro de 2025, a partir das 10h, no Palácio das Artes.

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Publicado por Carol Braga

Publicado em 25/12/25

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Teuda Bara (1941–2025): a gargalhada inesquecível e o teatro em estado vivo

Atriz fundadora do Grupo Galpão, Teuda Bara marcou o teatro brasileiro com presença, risco e riso.

Teuda Bara | Foto: Dinho Lacerda

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